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- Meu avô Manoel do Rêgo Lages: pai infinitas vezes
[Dílson Lages Monteiro, professor, pesquisador, literato e idealizador do Museu Virtual de Barras do Marataoã] Manoel do Rego Lages em registro realista gerado por IA. Criança gosta mesmo é de brincar e de receber afeto. Eu era criança quando convivi com meu avô e sua casa significava diversão e carinho: o que dele mais guardo são as situações que criava para a minha satisfação e a de meus primos no Jenipapeiro. Sentíamos acolhidos, de um acolhimento chamado proteção, e divertir-se tinha lugar certo nas férias, que às vezes duravam até meses, longes da casa paterna, mas como se dela nunca nos tivéssemos desgrudado. Hoje, no distanciamento temporal da idade adulta, vem, além da visão mais racional de todo aquele cenário rural, de sons, cores e sabores em todos os ritmos, tons e paladares únicos, uma emoção e uma nostalgia que não têm tamanho em nossos sentimentos. Essa emoção tinha uma imagem: Manoel do Rêgo Lages (1917-1990). Quando declinamos o olhar interior para o ontem, surgem na memória da infância os pedaços das décadas de 1970 e 1980. Um tempo flutuando com tal leveza, cuja sensação que temos é a da fantasia de um mundo mágico de encantamentos e descobertas, inacessíveis como tal para as crianças da atualidade. Vem um tempo de brincadeiras que jamais retornarão e, por isso, é sempre alegre vovô gritando, de riso aberto para o céu: “Boca do forno?”. Respondíamos: “Forno!”. Ele continuava: “Jacarandá?”. Respondíamos: “Dá!”. Interrogava: “Quando eu mandar?”. Em uníssono, devolvíamos: ”Vou!”. E finalmente recebíamos a nossa missão, quase sempre uma ordem divertida ou, quando já cansávamos, uma tarefa impossível, para se pôr fim à brincadeira. Vem o Lampião Petromax, aceso no terreiro da casa, para ouvirmos as estórias de outro mundo, quando não nos era imposto rezar o terço depois do jantar. Hábito com o qual também nos acostumávamos e se transformava numa obrigação aceita com naturalidade. Rezávamos não apenas para que se “levassem as almas todas para o céu, especialmente as que mais necessitassem”, mas também para Deus “dar muitos anos de vida para papai e mamãe”. Eram as mesmas almas que faziam cócegas em meus medos, obrigando que carinhosamente vovô armasse minha rede próxima à sua cama, onde dormia, quando menino, sempre que estava na fazenda. Manoel do Rêgo Lages Vem da casa que era a figura de meu avô as partidas de dominó e baralho à luz de lamparinas. O movimento da quitanda pesando babaçu e despachando mercadorias, num tempo de acesso limitado a produtos alimentícios e industrializados. Vovô de óculos na ponta do nariz: “Quanto?”. O agregado respondia: “Vinte e cinco quilos”. Vovô emendava: “Despeje ali!”. Levantava-se a cancela do balcão e o morador despejava as amêndoas, trazidas em cofos, no canto direito do comércio, que rapidamente se avolumava a tal ponto que sentíamos a vontade de caminhar por sobre a montanha de coco babaçu e, estando ali, não resistíamos em mastigar amêndoas. “O que vai querer hoje?”... e o trabalhador rural olhava as prateleiras de cima a baixo, sufocadas de mercadorias, mas ia regrando a compra do mais essencial, pondo cada produto no cofo em que trouxera o babaçu. Às vezes, pedia também um grande trago de pinga que engolia com voracidade, cuspindo longe nas calçadas o amargor da aguardente. Talvez cuspisse também as mágoas e opressões da vida e da injustiça do mundo. Era comum que trabalhadores aportassem no comércio da casa-grande da fazenda Jenipapeiro com cargas de babaçu sobre jumentos, além da que traziam sobre o ombro ou em grandes cofos. A amêndoa do babaçu, extraída em atividade manual exigente, dinheiro certo e quase sempre, a única fonte de renda. Entre os camponeses, as míticas figuras de Capelão (Antônio Cearense) e Pananã, seu sobrinho, acompanhados de Maria Moça. Retirantes que aportaram por lá na seca de 1932, juntamente com outras famílias. Fizera o coronel Nelson Pires , sobrinho de Alfredo e sócio-gerente na Casa Esperança, loja comercial vinculada à fazenda de mesmo nome, viagem para o Canindé de São Francisco, no Ceará. Na volta, trouxera mais de 30 pessoas que padeciam da seca à beira das estradas, sob a promessa de que teriam terra para morar e plantar, numa região fértil e abundante de água. É o que conta ainda quem viveu o dia a dia dessa fazenda e remanescentes dessas famílias. Vem da casa que era a figura de meu avô a calçada sobre o morro, tomada de silêncio enquanto ele ouvia a voz do Brasil. Meu avô, o mesmo de sempre na alta madrugada, balançando-se na sala, na cadeira, ouvindo a rádio Nacional, cuja audição das notícias e músicas se confrontava com a dos bichos despertando a manhã, para introduzir a certeza de mais um dia. Vem da casa a figura de meu avô perguntando se já tínhamos namorada. O avô levando-nos aos sítios de frutas com o cuidado redobrado para não padecermos de animais peçonhentos. O avô acompanhando-nos para o banho no Açude ou no Tanque, sempre vigilante, vigilante, com uma alegria gigantesca quando o Jenipapeiro se enchia dos netos. O avô acompanhando trabalho na casa de farinha, nos armazéns, no abate de animais. O avô alegre recebendo visitas de longe. Poucas vezes, vi alguém receber tão bem, com uma fidalguia e apreço humanos que lhe eram próprios. Vem da casa o caminhãozinho de madeira com o qual me presentou aos 6 anos, feito por marceneiro da região. Que rumo dei àquele presente que jamais deveria ter perdido? Como tenho saudade daquele caminhãozinho; vejo-o aqui, no chão, carregado de areia, andando pelas veredas, maiores do que as estradas desconhecidas dos nossos destinos. Estou vendo aqui meu avô entregando-me o caminhãozinho numa época de brinquedos raros. Ou pedindo a Antônio Dias que nos fizesse cavalinhos de carnaúba, e os meus, eu imaginava, mais velozes do que os de todo mundo, mais até do que minhas próprias pernas. Meu avô materno Manoel do Rêgo Lages teve uma vida dedicada às lides da atividade comercial, da agricultura e da pecuária — a vida comum e cheia de expressividade de um tempo em que o mundo rural se impunha ainda forte sobre costumes e hábitos do viver — no saudável desafio de educar e ver prosperar a prole de 13 filhos. Uma vida, também, de atenção concentrada na formação dos filhos em Barras e em Teresina; no desafio em que a amizade, o entusiasmo e a generosidade do parente e parceiro comercial Antônio Félix de Carvalho Filho e do irmão dr. José Lages foram sempre encorajadores; como dos filhos Nelson, Rosa, Gladston e Joaquim, os mais velhos, sempre disponíveis a viver os ideais do pai, auxiliando-o nas demandas necessárias. Uma vida rica de satisfações, como o é a de todos que tem metas de existência. A felicidade era os seus propósitos: o amor à família e o desejo de vê-la adiante de si, adiante do que as escolhas tinham-lhe reservado, como anseia todo bom pai. Em criança, vovô, órfão de mãe em tenra idade, fora mandado pelo pai para o ginásio em Parnaíba, onde também viviam os irmãos durante o período de aulas, e o que consta no boletim escolar dele são as notas de um aluno exemplar. Jovem, estudara em salvador e por último em Belém, antes de resolver regressar para a Esperança, segundo se conta, preocupado com as condições econômicas do pai, de contenção financeira, depois do famigerado conflito agrário da Trindade, o qual demandou em ação judicial no Supremo Tribunal Federal por mais de década e resultou em ação desfavorável ao pai, o coronel Alfredo Pires Lages (1873-1958) . Disso resultaria um duro golpe econômico em um dos mais influentes latifundiários e comerciantes do Norte piauiense na primeira metade do século XX (proprietário de vasto número de fazendas entre Teresina e Porto dos Marruás); latifundiário cuja vida passaria a girar em torno apenas da Fazenda Esperança, berço de sua origem familiar mais imediata, e dos sítios a ela integrados, numa porção de 10 mil hectares. Aceitaram, ambos, com resignação, as contingências do destino e tocaram a vida em frente sem abatimentos. Manoel do Rego Lages e esposa Maria Adélia de Carvalho Pires, em registro visual realista gerado por IA. Adolescente, Manoel do Rêgo Lages casou-se com sua prima segunda Maria Adélia de Carvalho Pires, neta de sua tia Adélia Pires Lages e filha do matrimônio de seu primo Nelson Pires Alves e sua prima Adalgisa Pires de Carvalho e silva . Ele, da fazenda Monte Alegre em Batalha, tinha como pai Custódio Borges Alves Sobrinho , radicado em Batalha e descendente ainda de ramificação familiar barrense-batalhense, atrelada, além dos Pires Ferreira e Castello Branco, a outros agrupamentos como os Coelho de Resende e os do Monte Furtado, de Piracuruca. Ela, filha do coronel Trasíbulo de Carvalho e Silva , um dos mais combativos políticos da história de Barras, rábula, intendente desse Município e deputado estadual, irmão do ex-governador General Coriolano de Carvalho e Silva e do militar Francisco Epaminondas de Carvalho, que se fixou no Rio Grande do Sul em definitivo, após o governo do irmão. Casado, Manoel se estabeleceu, inicialmente, em Batalha, onde nasceu sua primeira filha, Célia Pires Lages, de saudosa memória, e onde manteve, sem o sucesso esperado, sociedade com o primo-segundo, sempre fiel e estimado por toda a vida, Raimundo Nonato Lages. De lá, passou a residir na localidade Santa Luzia, hoje pertencente à Nossa Senhora dos Remédios, então Porto, onde nasceriam os filhos Nelson e Rosa Maria. Estabeleceu-se em seguida no Jenipapeiro, a 52 quilômetros do núcleo urbano de Barras do Marataoã, e um dos braços da antiga fazenda Esperança, , antes de seu desmembramento em outros núcleos. Ali, por um ano, seu pai, meu bisavô Alfredo, construiu, em formato de U, com as mesmas marcas da casa-grande da Esperança, agradável casa de fazenda, cujo encerramento da construção ocorreu em 1946, presenteando, na ocasião, com a nova edificação, Manoel e Maria, em nome de seus netos. Por que falar de uma casa? Ora, a casa é também uma família, simbolicamente as raízes e marcas de pertencimento de um agrupamento familiar a um lugar e a um tempo. Manoel e Maria viveriam por toda a vida, por longos anos, nessa casa ainda hoje vigorosa na continuidade do encanto de sua descendência pela vida no campo, especialmente por intermédio do filho Gladston. A casa situada no alto de um morro, depois de uma curva, de onde se avistam outros morros tomados de vegetação e mistério e um horizonte que enche os olhos de esperanças. Naquela data, a pedido de Maria Adélia, a nora e sobrinha de segundo grau, vovô Alfredo passaria a morar na fazenda Jenipapeiro até quase lhe findar os dias, em 1958. Sentindo a proximidade da “indesejada das gentes”, há 3 dias da última despedida, a pedido pessoal, foi levado em romaria pelos filhos e agregados à sede da antiga Esperança, ao quarto onde nasceu, a 6 quilômetros da fazenda Jenipapeiro, e ali se despediria em definitivo do mundo. Com o distanciamento temporal que a idade trouxe, vemos hoje que vovô era mais que o afeto, mais que sua casa mítica. Vovô era um homem justo, acolhedor, de espírito alegre, avesso ao aviltamento humano. Com o distanciamento temporal, eu vejo reverberar nele o que, adolescente, ouvia meu pai Gonçalo Soares Monteiro, um de seus quatro genros, pregar-me, não exatamente nestas palavras: “Onde vicejam rivalidades vãs, o egoísmo e a ambição sem limites, corroem-se os laços de convivência, inviabilizando transformações e oportunidades de crescimento para todos”. Meu pai ilustrava essa situação falando das ervas daninhas tomando o fôlego das árvores a que se prendiam. Em meu avô, com a chegada da adolescência, em sua casa de portas abertas para acolher gente jogada nas lides no meio da mata, na forma amigável de tratar os trabalhadores rurais e no desapego às vaidades do dinheiro, eu enxergava o homem do coração maior do que o peito suporta, o homem pronto a ajudar. O homem generoso e justo. A palavra de quem o conheceu fala melhor por mim. Hoje, em um mundo de fragmentações e de fragilidade da condição de ser em detrimento do ter, de imediatismo e depreciação de virtudes e valores universais, pergunto-me até onde isso tudo tem seu real valor? Onde cabe mesmo o humanismo e se ele deve, de fato, ser guia da existência? Insisto em querer acreditar que sim. Uma de minhas maiores felicidades junto ao meu avô foi o dia em que ele levou a mim, ao irmão mais novo e a um dos primos a uma grande lona onde o gado não correria encaretado. Eu tinha 12 anos. Barras recebeu um espetáculo circense diferente. Mais importante que palhaços, acrobacias, bichos exóticos para nossa cultura. Vovô viera à cidade, especialmente, para nos levar ao circo. A expectativa e adrenalina ganhavam forma em touros bravos provocados por corajosos cavaleiros, ao centro do palco, de gestos ligeiros, com fronha vermelha balançando nas mãos. O touro cavando a terra e arremessando a cabeça no ar, tentado acertar com os chifres o alvo. A plateia delirando de medo em um só grito: Uuuuuuu! Uuuuuuu! Uuuuuuu! Havia duas galerias, sendo uma delas mais próxima do palco, a especial, onde nos acomodamos, na primeira fila. A tão esperada atração surgiu: eu cochilava e acordei assombrado. O touro roçou a grade e olhou bem no fundo de nossos olhos. Vovô sorriu e nos disse que a grade de ferro era segura, que não tivéssemos medo, tratando de nos abraçar. Nunca me esquecerei daquele dia, como jamais me sairá do pensamento as longas férias escolares na fazenda, de muitas descobertas e alegrias, sendo uma das principais meu avô. Penso que todo avô é pai infinitas vezes... Também jamais me sairá da lembrança o quatro de dezembro, quando estava prestes a completar meus quinze anos. Meu avô doente há um mês e quinze dias aproximadamente, de moléstia sufocante, que nos tomava de desespero, dor e sufocamento iguais aos seus, em dia fechado, eu sentiria pela primeira vez, de verdade, o peso da morte. Se a árvore derrubada, o pássaro caído, o gato envenenado, o cachorrinho velho desfalecido e tanta cousa que eu vivera provocavam uma sensação desagradável, era tudo isso muito pequeno diante da dimensão concreta de que tudo um dia fenece. Ouvi na rua a vizinha dizer que meu avô morria. Corri para sua casa, onde ele convalescia, a poucos metros da residência de meus pais. O quarto tomado de lágrimas; o avô na rede, filhos e netos de então acompanhando os últimos momentos, também os irmãos dr. José e Alcides Lages. Os olhos de vovô Manoel percorreram, todo o quarto enquanto se segurava nas mãos dele uma vela, para repentinamente, sem vida, esvaziar-se para sempre e José do Rêgo Lages, o mano mais novo, estender as mãos sobre as pálpebras e fechar-lhe os olhos, indicando que jazia, ali, agora apenas um corpo sem alma. Meu avô Manoel do Rêgo Lages, pai infinitas vezes, transformava-se naquele dia, para sempre, em saudade.
- Antônio Carvalho de Almeida: história familiar e a ocupação da antiga Barras
Gilberto de Abreu Sodré Carvalho - genealogista, historiador e ficcionista Não atingi as origens remotas do sobrenome Carvalho, na minha genealogia patrilinear, para além do século 17 e, geograficamente, em lugar anterior ao seu surgimento em Ribeira de Pena. O apelido é toponímico e pode ser uma ramificação descendente, por homem ou mulher, daqueles da honra de Carvalho, terra com privilégios passados e reconhecidos pelo rei, em Celorico de Basto, lugar próximo a Ribeira de Pena, na mesma região do rio Tâmega. O primeiro adotante dessa sobrenomeação foi o cavaleiro Paio de Carvalho, no século 12. No Piauí, fomos voltados para a terra do gado vacum e do algodão, para a produção da carne seca e o comércio a grosso. Fomos povo do sertão e das agruras da vida simples; muito católicos. Não fomos barões nem intelectuais. Essa história é dos séculos 18 e 19. No século 20, há empobrecimento na minha linha genealógica patrilinear. pelo fato de meu bisavô José Carvalho de Almeida (segundo do nome) ter morrido cedo, com o que se perdeu a riqueza que poderia ser havida se tivesse tempo. Um grupo de homens de apelido “Carvalho”, configurados como “Carvalho de Almeida”, veio ao Piauí na passagem do século 17 para o 18, e durante esse último século. Os primeiros párocos no território atual do Piauí foram os padres Miguel Carvalho de Almeida (vigário de Rodelas), Tomé de Carvalho e Silva (vigário da Mocha) e Inocêncio Carvalho de Almeida (vigário da Barra, com jurisdição no médio e alto Gurgueia e Curimatá, território que iria se constituir no antigo termo de Parnaguá), todas paróquias da jurisdição do bispado de Pernambuco. Algum tempo depois, a freguesia da Mocha recebe o território do médio e alto Gurgueia em permuta pelo território do São Francisco, que lhe pertencia. Contemporaneamente a esses três Carvalho, também chegava Bernardo de Carvalho, possivelmente parente dos três referidos. Beranrdo iria ser mestre-de-campo do novo território, plantaria fazendas e geraria descendência. Duas décadas depois, chegavam Manuel Carvalho de Almeida e Antônio Carvalho de Almeida (segundo do nome), ambos militares reinóis. Portanto, são seis portadores da sobrenomeação Carvalho, todos portugueses, três religiosos e três militares. Muito havia de fantasia e erro quanto ao parentesco entre esses seis personagens históricos, no entanto, com o acesso a um inventário por iniciativa de Gustavo Conde Medeiros, em 2017, e a um processo de habilitação de um sobrinho à herança do tio vigário, no caso, o padre Tomé de Carvalho e Silva, muita coisa é desvendada. A esses dados, junta-se um estudo revelador publicado pelo medievalista português Manuel Abranches de Soveral, que traz a origem dessa gente no Reino ( Famílias de Ribeira de Pena: subsídios para a sua genealogia – séculos XV a XVIII ). Fica elucidado o parentesco entre os três padres que chegaram ao bispado de Pernambuco, no final do século 18, sendo o padre Miguel Carvalho de Almeida – o famoso padre Miguel de Carvalho - irmão do padre Inocêncio Carvalho de Almeida, e ambos primos do padre Tomé de Carvalho e Silva. Também, o parentesco destes com o nosso capitão-mor Antônio Carvalho de Almeida (segundo do nome), que colonizou o Norte do Piauí e deixou grande parentela Carvalho e de apelido Castelo Branco. Ele era sobrinho, protegido e herdeiro do padre Tomé de Carvalho e Silva. Teve um homônimo, Antônio Carvalho de Almeida (primeiro do nome) que foi capitão-mor do Rio Grande do Norte. Esse Antônio, mais velho, foi irmão dos padres Miguel e Inocêncio. A família Carvalho teve ao menos três padres com o nome de Miguel, em homenagem a um ancestral comum, sendo que dois destes se vincularam ao Piauí. Reginaldo Miranda anota que ainda não foi esclarecida a descendência de Antônio Sanches de Carvalho, filho de Isabel de Almeida e Domingos Dias da Silva, e sobrinho e herdeiro por testamento do Pe. Tomé, que também se fixou no Piauí. No testamento do padre Tomé de Carvalho e Silva, observa-se que o padre André da Silva, coadjutor em Oeiras, era seu sobrinho-neto, por algum caminho. O Comissário Geral da Cavalaria Manuel Carvalho de Almeida, vivente entre os séculos 17 e 18, pode ser filho do padre Miguel; com nascimento no Reino, o padre ainda muito novo; e entregue ao casal Belchior Gomes da Cunha (um pai oficial emprestado) e Isabel Rodrigues (mantida ainda como possível verdadeira mãe). Não seria possível a um popular (fosse Manuel um popular) obter a patente regular do Exército de “comissário geral da cavalaria”, uma condição análoga à de major ou mesmo de tenente-coronel, nos tempos de hoje. Hoje, penso, de conformidade com Manuel de Soveral, respeitabilíssimo genealogista português, que seria improvável que alguém, sem alguma origem nobre, pudesse ser um oficial superior do Exército, no período dado. Daí, Soveral propõe que Manuel foi filho do padre Miguel, possivelmente com a referida Isabel Rodrigues. Belchior teria servido como pai emprestado. O fato de o padre Miguel ser religioso, nobre que era no sentido praticado no século 17 português e antes, não prejudicaria em nada a passagem de nobreza para um filho seu, nascido antes ou após ser consagrado sacerdote. A doutrina da nobreza entendia desse modo. O filho primogênito de Manuel, de nome completo Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco, omitiu os nomes de seus avós paternos (os pais de Manuel) em sua justificação de nobreza de 1765 (aos seus 49 anos), feita em Campo Maior, na capitania do Piauí [1] . A única referência aos avós paternos de Francisco era de serem de Videmonte, Linhares. Por que Francisco teria omitido os seus nomes? Francisco casou-se com a filha mais velha do nosso Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo) e de Maria Eugênia Mesquita Castelo Branco (neta de Dom Francisco de Castelo Branco), de nome Ana Rosa Pereira Teresa do Lago. Francisco, por via de sua mulher, tinha acesso a toda memória dos Carvalho de Ribeira de Pena. Curioso o nome completo de Ana Rosa, que não sabemos as razões para o ter adotado quando moça. Sei apenas, como um frágil esboço de palpite, que a mulher de Antônio Carvalho de Almeida (primeiro desse nome completo) se fez chamar Maria Teresa Pereira Rebelo Leite. Voltemos a Francisco, marido de Ana Rosa. Ainda que Francisco não tenha nomeado os pais de Manuel em 1765, indicou-os em uma petição, datada de 1787, dirigida à rainha de Portugal, Dona Maria I, na qual pedia o início dos procedimentos para a obtenção do hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo. Em 1787, Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco tinha 71 anos de vivo. No requerimento, de 1787, ele declara, como pais de Manuel, seu pai, Belchior Gomes da Cunha e Isabel Rodrigues. O fato de Francisco não ter querido dizer os nomes de seus avós paternos (os genitores de Manuel) na justificação de 1765, foi superado pelo fato de os ter finalmente identificado na petição à rainha Dona Maria I, em 1787. A hesitação de Francisco ou, no mínimo, a sua falta de assertividade e de detalhes sobre os genitores de seu pai Manuel, levam-me à solução de que o pai seria o padre Miguel Carvalho de Almeida (o famoso cronista do Piauí do século 17). [2] O padre Miguel de Carvalho, também conhecido como padre Miguel de Carvalho e Almeida, e ainda como padre Miguel Carvalho de Almeida [3] , nasceu em 1664, em Ribeira de Pena, no antigo arcebispado de Braga, no norte do Reino. Hoje, o lugar Santo Aleixo, onde nasceu, é a freguesia de Salvador e Santo Aleixo de Além-Tâmega. Está no concelho de Ribeira de Pena, agora no distrito de Vila Real. O padre Miguel Carvalho de Almeida possivelmente morreu em Lisboa, tendo passado um longo tempo, quando jovem (entre 1693-1698), na então circunscrição do bispado de Olinda, também referido como bispado de Pernambuco, na América Portuguesa. Miguel Carvalho de Almeida (pai do padre Miguel) foi filho de Domingos Carvalho (ou de Carvalho), moço da câmara da Casa Real, juiz de órfãos de Ribeira da Pena e senhor da Quinta de Bragadas de Além-Tâmega, em Santo Aleixo, onde faleceu em 7 de julho de 1668, e de Catarina de Almeida (primeira desse nome completo), nascida cerca de 1608. Essa Catarina foi filha de Antônio Gonçalves de Matos e de Maria Leitão de Almeida, nascida em Santa Marinha de Ribeira de Pena. O padre Miguel Carvalho de Almeida, primogênito, teve três irmãos inteiros: Domingos Carvalho de Almeida [4] — moço da câmara da Casa Real (12 de janeiro de 1699), cavaleiro da Ordem de Cristo (9 de março de 1699), capitão-mor de Ribeira de Pena, familiar do Santo Ofício (16 de setembro de 1700), senhor da Quinta de Bragadas, em Além-Tâmega, Santo Aleixo, e da Quinta de Senra de Cima, em Salvador, Ribeira de Pena. Teve, em 4 de outubro de 1710, carta de cota-de-armas para “Carvalho” e “Almeida”. A Quinta de Senra de Cima foi armoriada de escudo partido de “Carvalho” e “Almeida”. Antônio Carvalho de Almeida — moço da câmara da Casa Real (12 de janeiro de 1699), cavaleiro da Ordem de Cristo (9 de março de 1699), capitão de infantaria, mestre de campo dos auxiliares de Chaves, capitão-mor de Natal, no Rio Grande do Norte, familiar do Santo Ofício (8 de março de 1702), escrivão proprietário do cartório do concelho de Cabeceiras de Basto e dos coutos de Refoios e Abadim (16 de maio de 1745). Casou-se com Maria Teresa Pereira Rebello Leite. Inocêncio Carvalho de Almeida — capelão-fidalgo da Casa Real (12 de dezembro de 1699). Este Antônio, irmão do padre Miguel e do padre Inocêncio (e também de Domingos, que não nos importa aqui), é referido como tendo substituído a Bernardo Vieira de Melo e tendo sido sucedido por Sebastião Nunes Colares, como capitão-mor do Rio Grande do Norte. Sua designação para esse posto ocorreu quando a capitania foi passada da Bahia para Pernambuco [5] . Sobre Antônio Carvalho de Almeida (ou de Carvalho e Almeida), o capitão-mor, conforme consta dos assentamentos da Torre do Tombo, ele foi feito moço de Câmara, pelo rei Dom Pedro II, em 1699, tal qual tinha sido seu avô Domingos Carvalho ou de Carvalho, o qual é dito como tendo sido, a seu tempo, moço da Câmara. O nosso Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo) teria morrido em 1775 e ingressou na América Portuguesa pela Bahia, tendo como lugar de sua primeira residência, Jacobina, onde foi capitão de ordenanças [6] . O outro Antônio Carvalho de Almeida (primeiro desse nome completo) seria alguém já maduro no ano de 1701, quando foi diretamente para o Rio Grande do Norte. O padre Miguel é referido como missionário naquela capitania [7] . Pode ser que o padre Miguel tenha ido ao Rio Grande do Norte, vindo do Piauí. Em suma, os irmãos Miguel, Antônio e Inocêncio, filhos de Miguel Carvalho de Almeida (sênior) e de Helena Gonçalves de Matos, estiveram juntos no Nordeste, no mesmo período ou aproximado, entre o final do século 17 e início do século 18. Domingos Carvalho de Almeida, o irmão segundo que sucedeu ao pai, ficou em Ribeira de Pena, como senhor de solar, esquivando-se de aventuras no Novo Mundo. De rigor, conforme os costumes, o sucessor da tradição não se movia da sua sede. O padre Tomé de Carvalho e Silva, o padre Miguel de Carvalho e Silva e o sobrinho desses dois, Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo), seguiram na segunda leva da parentela Carvalho de Almeida. Este Antônio era, como já dito, filho de uma irmã inteira dos dois padres, de nome Isabel de Almeida, com Domingos Dias da Silva. Pode-se ainda trazer para esse rol de personagens, o provável parente, o valoroso Bernardo Carvalho de Aguiar, de quem Manuel foi homem de confiança. Esse, não por coincidência inexplicável, era de Vila Pouca de Aguiar, concelho que em sua formação territorial originária continha o povoado da Ribeira de Pena [8] . No final do século 17, o ouro achado onde hoje está a cidade de Jacobina (conhecida também como Jacobina do Norte ou Jacobina Velha), na Bahia, atraiu os bandeirantes paulistas. No início do século 18, a exploração ainda era clandestina, mas, a partir de 1722, a mineração passou a ser controlada pela governação régia. Em 1726, por provisão do Conselho Ultramarino, foi construída uma casa de fundição. A arrecadação passou em pouco tempo a cerca de 3.841 libras de ouro. Antônio Carvalho de Almeida veio do Reino para a Bahia para servir como capitão da guarnição de Jacobina. Antônio, meu sexto-avô patrilinear, marido de Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, minha sexta-avó, nasceu em Santo Aleixo de Além-Tâmega, Ribeira de Pena, Arcebispado de Braga, em Portugal. Faleceu depois de 1768, ano do casamento de seu filho Antônio Carvalho de Almeida (meu sexto-avô patrilinear), e antes de 1778, quando do casamento de sua filha Ana Maria, na fazenda Taboca, então Parnaíba, depois Campo Maior, em seguida Barras do Marataoã e hoje no atual município de Esperantina. Segundo Castelo Branco (2013), Antônio Carvalho de Almeida e sua esposa foram os primeiros habitantes do lugar Batalha. O lugar Batalha surgiu a partir da carta de data da sesmaria Caraíbas, concedida, a 18 de julho de 1737, ao casal Antônio e Maria Eugênia, pelo governador do Maranhão e Grão-Pará, João de Abreu Castelo Branco. Nessas terras, Antônio Carvalho de Almeida fundou uma fazenda situada na margem direita do rio Longá. O padre Tomé de Carvalho e Silva, tio de Antônio Carvalho de Almeida, que havia sido o vigário da Mocha, atual Oeiras, era proprietário de terras na freguesia do Longá, tendo fundado ali as fazendas Victoria e Tranqueira, ao longo do rio Longá, do lado direito do rio. Antônio Carvalho de Almeida e o seu tio, o padre Tomé de Carvalho e Silva pleitearam e receberam cartas de data de sesmaria em 1739, nos seus nomes e nos nomes dos três filhos de Antônio. Sustentaram o pleito no fato de ali terem fundado fazendas de gado vacum havia mais de 33 anos, ao longo do rio Longá, do lado direito, rio acima, entre a atual divisa com o município e a antiga freguesia de Piracuruca, no estreito do rio dos Matos (antigo Mato Grosso), onde começava a fazenda da Victoria, até a fazenda Boa Esperança, passando pela fazenda da Tranqueira, até lindar com a antiga fazenda Taguary, na confluência do riacho Taguary. Antônio Carvalho de Almeida casou-se cerca de 1726, em Parnaíba, com Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, nascida cerca de 1710, em Parnaíba, falecida provavelmente no lugar Batalha, onde hoje se encontra a cidade de Batalha. Ela era filha de João Gomes do Rego Barra e Ana Castelo Branco de Mesquita. Antônio Carvalho de Almeida, depois de casado, retornou com a mulher ao seu posto na guarnição de Jacobina Velha, na Bahia, onde nasceram seus filhos. O casal se transferiu definitivamente para a fazenda Victoria, situada em terras do atual município de Esperantina, poucos anos antes de receber as cartas de data de sesmarias, em 1739, visto que as fazendas Boa Esperança, Tranqueira e Victoria estavam até então nas mãos do padre Tomé de Carvalho e Silva, tio de Antônio. Antônio Carvalho de Almeida e Maria Eugênia Mesquita Castelo Branco construíram sua casa-grande no sítio (local) da fazenda da Victoria e lhe deram nome de Taboca. A casa-grande foi edificada na margem esquerda da confluência do riacho Tabocas com o rio Longá, no antigo município de Parnaíba, depois Barras, atual Esperantina. Notas [1] É curioso que esse documento, datado de 1765, tenha sido apresentado em Castelo Branco (1980), p. 217-238. A curiosidade está em que, no contexto do livro de Renato Castelo Branco, ele pretendia indicar, ou mesmo comprovar, a condição incontroversa de nobreza por parte de Francisco. Talvez, Renato nunca pudesse admitir que o documento fosse usado para sugerir que Francisco não sabia sobre seus avós paternos. [2] Eu mesmo sou descendente de Manuel, várias vezes. Meu sobrenome Carvalho, no entanto, vem, patrilinearmente e sem interrupção, de Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo), que não é irmão nem parente documentado de Manuel, como se tem neste corrente ensaio. [3] Os apelidos da mesma pessoa podiam variar com as circunstâncias [4] Que podia variar para Domingos de Carvalho e Almeida. [5] Rosas (1999). [6] Dados sobre o Antônio, sobrinho, constantes de Pires Ferreira (2013) e de Castro (2014). [7] Verbete “Antônio de Carvalho e Almeida”, no site da Fundação José Augusto – Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine - CEPEJUL: fjacepejul.nr.gov.br , em outubro de 2016. [8] Conforme Marques (1993), o concelho de Ribeira de Pena foi criado pelo rei Dom Afonso IV, em 1331, por pedido de seus moradores. Até então, Ribeira de Pena era parte do concelho de Aguiar de Pena, depois dita Vila Pouca de Aguiar. Muito tempo transcorreu até o final do século 17, no entanto, a região é a mesma.
- Assim vi meu pai de Socorro Mello Tajra
Ex-governador e memorialista Leônidas de Castro Mello, com a filha Socorro Mello ao colo. [Dilson Lages Monteiro - curador do Museu Virtual de Barras do Marataoã] Em circulação, uma obra de grande interesse aos leitores de memórias sobre o Piauí: “Assim Vi Meu Pai, de Socorro Mello Tajra”. Trata-se de um livro autorreferencial, que dialoga com um dos clássicos do memorialismo regional na literatura piauiense, Trechos do meu caminho, de Leônidas de Castro Mello, cuja primeira edição é da década de 1980. Obra reeditada em 2017, pela Academia Piauiense de Letras, aos cuidados de Nelson Nery Costa. Socorro Mello Tajra, pondo em interlocução a voz narrativa do pai e a de seus contemporâneos, além de resumir ou recontar didaticamente os lances de superação da trajetória de Dr. Leônidas de Castro Mello, enseja novas condições para a leitura de uma dimensão desconhecida publicamente sobre o biografado. Em sua narrativa, faz-se ver “o grande desafio do trabalho biográfico, o desafio que torna o perfil biográfico mais próximo dos leitores: ao falar do seu personagem, o biógrafo, de certa forma, fala de si mesmo, projeta algo de suas emoções, de seus próprios valores e necessidades”. A autora concentra-se em conciliar a relação entre as ações praticadas pelo pai no contexto social e as no seio familiar, assinalando a coerência e constância das ações, e sobretudo, o amor às origens, o desapego à ânsia de uma perspectiva de vida centrada na especulação financeira. Assim Vi Meu Pai é livro – cumpre enfatizar – autorreferencial. Lê-lo é recapitular o projeto discursivo de Trechos do Meu Caminho. Nessa obra, projetando-se do lugar social de ex-governador que o foi, não haveria, supõe-se, como Leônidas Mello desconsiderar o descortinamento das relações de poder, das circunstâncias e detalhes de fatos controversos de seu tempo. De como foi ocupando ou criando as oportunidades que fizeram a vida e a carreira vitoriosa em todos os campos da atividade humana a que se propôs: o magistério, a medicina, a política-partidária. Entretanto, o que conquista os leitores no texto que funciona como matriz de Assim Vi Meu Pai é, sobretudo, o derramamento lírico da escritura, o tom de conversa do texto com abundantes discursos diretos e as descrições de costumes e espaços da primeira metade do século XX. A descrição do cotidiano de um homem simples e, conforme a versão da escrita de si, afeito às virtudes e à inclinação para a vontade de servir, reproduzida em variados documentos constantes na autobiografia. Ainda que o conjunto de textos de Assim Vi Meu Pai, de Socorro Mello Tajra, remonte os instantes de grandes emoções ou conquistas da vida de Leônidas Mello; os traços da personalidade do biografado e de suas ações, um dos propósitos comunicativos evidentes da narradora, vertem-se em segunda natureza, quando Barras do Marataoã volta à cena nas memórias sobre a fase de maturidade do pai, principalmente, representado agora pelo olhar afetuoso e vivencial da filha amável. A fazenda Santa Rita e a temporada no lugarejo exemplificam. Mais uma vez, os costumes são humanizados e conquistam ressonância nas recordações de um sem número de leitores que guardam alguma lembrança campestre. A gastronomia, os hábitos rotineiros, além da descrição sinestésica de aspectos arquitetônicos e da paisagem, põem o leitor em contato com sons, cheiros, sabores e visões de um tempo eterno, arquivado no fundo mais profundo de nossas subjetividades. Sons, cheiros, sabores e visões que suplantam o tempo, para o aqui e o agora da universalidade. A universalidade de Trechos de Meu Caminho de Leônidas de Castro Mello revive nas páginas de Assim Vi Meu Pai, de Socorro Mello Tajra. Revive a luz que foi chama para grandes realizações que permanecem até hoje como marca intransponível da certeza de que, para muito além das relações de poder, o fim maior da vida é servir.
- A. Tito Filho - um depoimento
Barrense A. Tito Filho, uma das grandes expressões do Piauí do século XX, com o médico e agente público Dirceu Mendes Arcoverde, ex-governador do Estado. Elmar Carvalho Conheci o escritor e professor José de Arimathéa Tito Filho, ou simplesmente A. Tito Filho, seu nome literário, desde meados de 1985. Morando em Teresina desde agosto de 1982, quando assumi meu emprego na extinta Sunab, costumava passar de motocicleta na frente da antiga sede da Academia Piauiense de Letras, da qual ele era presidente. Porém, nunca adentrei esse imóvel. Em 1985 a APL adquiriu sua sede própria, situada na Avenida Miguel Rosa, 3300 – Centro Sul, através de doação do Estado do Piauí, quando eram governador do Estado e secretário estadual da Cultura, respectivamente, Hugo Napoleão e Jesualdo Cavalcanti, que se tornaram mais tarde membros do sodalício. A partir dessa época passei a frequentar o belo e sobranceiro sobrado solarengo em que A. Tito Filho dava expediente todo dia. Recebia-me com alegria. Entretínhamos animada conversa, de conteúdo literário, mas recheada de “causos” ou episódios anedóticos, em que figuravam importantes personalidades de nossa literatura. Nessa prática o professor destilava seu humor, salpicado de finas ironias. Muitas vezes minha visita foi registrada no Notícias Acadêmicas, boletim mensal que ele publicava com regularidade. Prefaciou inúmeros livros. Em sua coluna literária, em jornais de Teresina, emitiu comentários sobre centenas de obras e autores, mas sem ferir a suscetibilidade de quem quer que fosse. Comentava-se que quando a obra não tinha mérito literário, ele falava sobre a personalidade e biografia do autor, ou sobre os temas abordados no livro. De qualquer sorte, todos ficavam felizes em merecer uma resenha ou comentário de A. Tito Filho. No primeiro governo de Alberto Silva coordenou o ousado Plano Editorial do Estado do Piauí, em que foram publicadas dezenas de obras importantes e emblemáticas da literatura piauiense. Para várias dessas obras ele elaborou abalizados comentários críticos, além de ricas notas esclarecedoras, interpretativas ou de caráter elucidativo, filológico e biográfico. Um dia em que eu conversava com ele, um velho intelectual piauiense, de saudosa memória, já um tanto debilitado pela idade, lhe perguntou se a pronúncia correta da palavra nascimento era “nacimento” ou “naiscimento”. O mestre lhe respondeu com uma pergunta: “Entre o a e o s existe um i?” O consulente lhe respondeu que não. Ele simplesmente acrescentou: “Então, você já tem a resposta”. Isso demonstrava a vivacidade, a verve e a suave ironia bem-humorada do grande mestre, erudito e filólogo. Nasceu em Barras, em 14 de outubro de 1924, e faleceu em Teresina, em 27 de junho de 1992. Portanto, aos 68 anos incompletos. Era filho de Arimathéa Tito e Nize do Rego Tito. Órfão desde o nascimento, pois sua mãe morreu em virtude de complicação no parto. Exerceu vários e importantes funções e cargos públicos, entre os quais os de secretário estadual da Educação e da Cultura, mas foi sobretudo professor de Português, escritor e filólogo. Escreveu inúmeros livros, entre os quais Teresina, meu amor, Gente & humor, Sermões aos peixes, Memorial da Cidade Verde, Praça Aquidabã, sem número e Crônicas da cidade amada. Contudo, a sua obra magna talvez tenha sido exercer a presidência da APL, por mais de vinte e um anos, com invulgar competência e total dedicação; nisso se esmerou. Segundo Wilson Carvalho Gonçalves, ilustre escritor e historiador barrense, de quem tive a honra de ser amigo e de lhe prefaciar e apresentar vários livros, ele foi “uma das maiores culturas do seu tempo, liderou a vida cultural piauiense durante três décadas. Era um animador e um incentivador da vida cultural piauiense”. Eu mesmo posso dizer que fui estimulado por ele. Um dia, perto de sua morte, numa de minhas visitas habituais, em seu gabinete na APL, ele me disse que eu era um amigo da Academia, e que já estava me tornando um “academiável”. Em seguida, me recomendou enfeixasse meus poemas em um volume, porquanto desejava publicá-los. Fiz o que ele me recomendou. Meses depois, ele morreu. Contei esse diálogo ao professor Paulo Nunes, seu sucessor, que me disse manteria a promessa de A. Tito Filho, mas desde que meu livro fosse submetido ao Conselho Editorial da entidade. Em 1995 esse livro, a que dei o nome de Rosa dos Ventos Gerais, foi editado, através de parceria entre a APL e a UFPI. Foi meu primeiro livro individual. Antes eu tivera participação em várias coletâneas e antologias, mas nunca em um livro exclusivamente de minha autoria. O seu aceno inicial de que “já estava me tornando academiável” , veio a se concretizar em 2008, quando me tornei membro efetivo da APL. Sou muito grato ao notável intelectual, orador, erudito e escritor A. Tito Filho, cronista e filólogo de escol, de quem tenho gratas e felizes recordações. E dele sinto saudades; por isso o tenho sempre presente em minha lembrança. Escritor Elmar Carvalho (*) Discurso de posse de José Elmar de Mélo Carvalho na cadeira nº 5 da Academia de Letras do Vale do Longá, ocorrida no dia 23.05.97, no IATE Clube de Campo Maior. Estavam presentes vários barrenses, entre os quais, meu pai (Miguel Arcângelo de Deus Carvalho, Geraldo Majella Carvalho, Bilé Carvalho, Antenor Rego Filho, Francy Monte (talvez Monte Filho) e Domingos José Carvalho.
- Barras do Marataoã
Centro de Barras em aquarela, gerado por IA. Reginaldo Miranda Da Academia Piauiense de Letras A aprazível cidade de Barras, no norte do Piauí, antiga Barras de Marataoan, também foi em suas origens chamada popularmente de Capela das Barras. Deita suas origens no princípio da colonização, tendo iniciado em uma fazenda denominada Buritizinho, ao que anotam alguns cronistas, de propriedade do fazendeiro e coronel de ordenanças baiano Miguel Carvalho de Aguiar. Na primeira metade do século XVIII, teria este iniciado a construção da capela sob o orago de Nossa Senhora da Conceição, porém, falecendo sem concluí-la. No que se refere ao nome da fazenda, em nossas pesquisas sempre encontramos referência à fazenda das Barras, com mais de quatro léguas de terras, e nunca Buritizinho, tendo recebido aquela denominação em razão de sua localização privilegiada, entre seis barras de rios e riachos, inclusive o Marataoan. Com o falecimento do pioneiro proprietário, foi a extensa fazenda arrematada em praça no juízo dos ausentes, pelo colonizador português Manoel da Cunha Carvalho, que tomou para si a responsabilidade pela conclusão da capela, concluindo-a em 1759, com a ajuda de alguns fiéis e de missionários católicos, sendo frei Manoel da Penha, para uns, padre Malagrida, para outros. Posteriormente, Manoel da Cunha Carvalho destacou da referida fazenda, cerca de três léguas de terras e as vendeu para Manoel Antunes da Fonseca, tendo este repassado pouco mais de uma légua de comprimento por quase outra de largura a Antônio da Costa Oliveira. No entanto, Manoel da Cunha Carvalho reservou para si “pouco mais de hua legoa de terra, na dita fazenda das Barras, aonde está hua Capella de Nossa Senhora da Conceipção”, conforme consta em um documento redigido pelo desembargador Francisco Marcelino de Gouveia, em 16 de novembro de 1762. Por este documento pode-se concluir que até a data indicada, o local onde hoje se situa a cidade de Barras somente pertenceu aos criadores Miguel Carvalho de Aguiar e Manoel da Cunha Carvalho, este último casado com Isabel da Cunha e Silva Castelo Branco, filha do português Manuel Carvalho de Almeida e de sua esposa Clara da Cunha e Silva Castelo Branco. Em torno da capela iniciou-se o povoamento do lugar, de forma que em 1809, já era um núcleo populacional bastante promissor, com meia dúzia de casas na parte meridional. Em 1815, formaram-se as primeiras ruas, sendo o distrito de Barras criado por decreto de 20 de outubro de 1823; a emancipação política, desmembrando-o do termo de Campo Maior, deu-se pela lei provincial nº 127, de 24 de setembro de 1841, oficialmente instalado em 19 de abril do ano seguinte, que criou a vila e município de Barras. Foi a vila elevada à categoria de cidade com a denominação de Barras do Marataoan, pelo decreto n.º 1, de 28 de dezembro de 1889. Porém, cumpre esclarecer que esta não é a data de sua emancipação política e sim a da anterior elevação à categoria de vila. Para deleite dos historiadores, transcrevo na íntegra a fonte de minhas informações, o relatório do desembargador Francisco Marcelino de Gouveia, depositado no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa: “O mesmo Antonio da Costa de Oliveira, possue mais hua porção de terra, que teria pouco mais de legoa de comprimento, e quasi outro tanto de largura, que hera pertencente à fazenda da Barra, a qual lhe vendeo Manoel Antunes da Fonseca, senhor da dita fazenda”. “Manoel Antunes da Fonseca, possui a fazenda da Barra, com quasi duas legoas, por ter vendido a mais terra com que a comprou, a Antonio da Costa de Oliveira, como fica dito, a qual comprou a Manoel da Cunha Carvalho, rezervando este, que a tinha rematado em prasa no Juiso dos ausentes desta comarca para sy, pouco mais de legoa de terra, como logo se dirá”. “Manoel da Cunha Carvalho, possue, pouco mais de hua legoa de terra, na dita fazenda das Barras, aonde está hua capella de Nossa Senhora da Conceipção, o que tudo era pertencente à mesma fazenda das Barras, e do mesmo possuidor já declarado”. Ficam essas notas como contribuição à história desta bela cidade do norte do Piauí. (Diário do Povo, 6.11.2016). Foto: Centro de Barras do Marataoã, em registro de Valdemar Leite Filho.
- Eis um haicaísta
Haicais do Sol e Estação Natureza, de Dílson Lages Monteiro (*)Hildeberto Barbosa Filho Hildeberto Barbosa Filho Eis um haicaísta! O haicai virou modismo no território da poesia brasileira contemporânea. Talvez pela aparente e enganosa facilidade de juntar três versos, livres e brancos, ou mesmo em redondilha maior e menor, rimados, conforme certos padrões estéticos, muitos poetas se acham no direito de cultivá-lo E cultivá-lo irresponsavelmente… Nesta seara, e até aonde posso ter acesso, percebo que uma das leis da dialética, aquela que diz que a quantidade, em dadas circunstâncias, se transforma em qualidade, não se consuma no seu lógico desiderato. A maioria dos ditos haicaístas não fazem, de fato, o haicai, simplesmente porque não fazem, de fato, a poesia. Não obstante, existem as exceções que confirmam a regra, ao mesmo tempo em que comprovam que é possível, sim, fazer o haicai com vigor poético e dentro da antiga e legítima tradição oriental. Haicais do sol (2023) e Estação da natureza (2024), de Dilson Lages Monteiro, ambos publicados em Teresina (PI), pela Nova Aliança e Entretextos, respectivamente, exemplificam, a contento, a minha afirmação, observados os instrumentos técnicos e os motivos característicos desta singular forma poética. Os títulos já me chamam a atenção, na sua força catafórica, para o elemento primordial da natureza, presente na ampla maioria das peças líricas coletadas, e, por outro lado, para a maneira com que este elemento nuclear e fundante se deixa explorar na grandeza e na harmonia de sua alteridade. Vou dar um primeiro exemplo, retirado de Haicais do sol: Gaivota no ar, se não fosse pássaro, seria nuvem. A imagem, ingrediente intrínseco ao haicai, na sua fulminante iluminação reveladora, cristaliza o olhar do poeta, deflagrando, no leitor, sensações e pensamentos originais. O quadro paisagístico aí descrito, ou mais sugerido que descrito, parece alterar nossa percepção, na medida em que sinaliza para a possibilidade de fusão dos reinos naturais. Para a possibilidade de a gaivota ser nuvem e a nuvem ser gaivota. Fenomenologia típica da linguagem poética. A Uma amostra, como esta, pressupõe aquela “leitura silenciosa, visual e mental a um só tempo”, de que fala Massaud Moisés, no seu Dicionário de termos literários. Aqui, uma significação súbita e instantânea pode desencadear percepções novas, associações semânticas inesperadas, experiências epifânicas que nos elastecem o tecido da sensibilidade e da imaginação. O voo das abelhas Girando, girando na flor Desfolhou o cheiro. O fio da tristeza Da coruja com frio Calou a noite. Nas correntezas Peixinhos de prata Espelhos do céu. Eis mais alguns haicais que dão o tom e a perspectiva desta coletânea. Assegura R. H. Blyth, respeitável estudioso inglês, citado por George Sica, em O vazio e a beleza (2017), que o haicai “é a expressão de uma iluminação passageira, durante a qual vemos na vida das coisas”. Exatamente isto. “Vemos na vida das coisas”! Ou seja, as coisas, na representação do haicai, revelam-se elas mesmas, na sua vida própria, na sua textura insubstituível, destituídas das intenções, dos afetos, das projeções de quem as vê e as nomeia no plano verbal. No haicai e, por extensão, na verdadeira poesia, as coisas têm vida. Têm verdade, têm dignidade, têm beleza. Por isto mesmo o haicai me parece comprometido com a máxima simplicidade. A depuração dos ornamentos retóricos, dos excessos simbólicos, dos atavios figurativos, entre outros aspectos, compõem a sua estrutura descritiva, sua intuição filosófica, seu idioma despojado e cheio de irradiações significativas. Sobretudo, daquelas que tendem à “humanização da natureza e a naturalização do ser”, nas sábias palavras do autor de A criação literária. De Estação Natureza, transcrevo o segundo haicai da coletânea, para justificar o meu raciocínio: Diamante dágua Parado na folha - Sol de prata. Dilson Lages Monteiro, com estes dois livros de haicais, foge ao lugar comum dos que praticam o gênero nipônico, já adaptado, a essas alturas, à sensibilidade brasileira na pena de alguns poetas excepcionais, sem a vocação e o talento necessários à composição de forma tão difícil e peculiar. Ora descritivos, ora filosóficos, ora líricos, ora coloquiais, seus haicais trazem os reinos da fauna e da flora para ocuparem os campos da linguagem verbal, convertendo seus predicados intrínsecos em legítimos produtos estéticos. À guisa de conclusão, lembro que Dilson Lages Monteiro, piauiense de Barras do Marataoã, não é nenhum estreante. Poeta, ficcionista, ensaísta, Professor de Linguagens há três décadas, membro da APL - Academia Piauiense de Letras, é autor de uma obra literária reconhecida e consagrada, da qual os títulos, aqui comentados, constituem testemunho irrefutável. (*)Hildeberto Barbosa Filho, da Academia Paraibana de Letras.
- ALMANAQUE DA HISTÓRIA DE BARRAS: José Pires Ferreira e a vida rural de Barras do Marataoã em anúncio de 1888.
[Dílson Lages Monteiro, da Academia Piauiense de Letras, curador do Museu Virtual de Barras do Marataoã] Aos srs. collectores da Parnahyba, Campo-maior e Barras. Communico que vendi os mengados (ferro, signal e carimbo) existentes nas fazendas: Vermelha, ao capm. Bernardo Borges Leal, Tucaia e Marathoan, ao capm. Mariano Gil Castello Branco, Olho d’agua e Cabeceiras, ao capm. José de Souza Pires e Morro, ao alferes Manoel Lopes Castello Branco.Barras, 10 de Abril de 1888.José Pires Ferreira A reforma, 23.04.1888 O ano é 1888. O Brasil, especialmente o sertão nordestino, traduz-se a partir da forte presença da aristocracia rural, com predominância da pecuária como base econômica e uma estrutura de pouca mobilidade social, rígida em sua organização: hierárquica, militarizada (oficial e extraoficialmente) e patrimonialista. Nesse contexto, os meios impressos figuram como principal forma de divulgação pública. Em linguagem cerimoniosa, o anúncio acima, de caráter oficial e administrativo, informa aos arrecadadores do Império que o fazendeiro José Pires Ferreira Neto vendeu os seus "mengados" (ferro, sinal e carimbo, aqui funcionando para designar as próprias reses bovinas), em várias fazendas dele. Os novos proprietários do gado (todos de patentes militares: "capitães" e "alferes") e as respectivas fazendas em que se encontram (em Parnaíba, Campo Maior e Barras) são assim enumerados: Fazenda Vermelha → Capitão Bernardo Borges Leal Tucaia e Marathaoan → Capitão Mariano Gil Castello Branco Olho d'Água e Cabaceiras → Capitão José de Souza Pires Morro → Alferes Manoel Lopes Castello Branco Na estrutura agrária do século XIX, as “marcas de ferro, sinal e carimbo” funcionam, numa sociedade em que a pecuária era a principal atividade econômica, como forma de identificar o gado e provar a propriedade. Observa-se, ainda, a partir do anúncio, que havia obrigações fiscais a cumprir e que a presença do estado Luso-Brasileiro ocorria, entre outros fatores, por meio de coletores. Eles, além de recolherem impostos, faziam registros administrativos, o que demonstra o controle da Monarquia sobre a atividade rural. Todos os gados de propriedade de José Pires Ferreira Neto nas fazendas referidas são comercializados em um ano emblemático, o ano da libertação dos afrodescendentes escravizados (Lei Áurea), 1888. Como a mão de obra nas fazendas de gado se constituía por vaqueiros livres ou colonos empobrecidos, esse parece não ser o fator determinante da venda. Nesse ano, constava o fazendeiro a idade de 76 anos e o provável é que tenha ocorrido por questões sucessórias, econômicas ou pessoais. José Pires Ferreira Neto José Pires Ferreira Neto ( 1812 -1908) no Rio de Janeiro, com 94 anos Segundo Edgardo Pires Ferreira (1), José Pires Ferreira Neto, um dos patriarcas da família Pires Ferreira de Barras do Marataoã, nasceu em “16.08.1812 no sítio (fazenda) de Santa Cruz das Pedras Preguiças, no município de Barreirinhas, no Maranhão, e + 03.06.1908 no Rio de Janeiro, com 94 anos, à rua Pedro Ivo, 36, sendo sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier. (...) Casou-se em primeiras núpcias em 1833 no município de Barras com MARIA JOAQUINA DE JESUS CASTELLO BRANCO CARVALHO DE ALMEIDA, n. em Barras, e + 20.02.1856 em Barras, quando do nascimento de seu filho Antônio”. Registra ainda Edgardo Pires Ferreira que José Pires Ferreira se casaria mais três vezes “(...) em segundas núpcias em 1858 no Brejo dos Anapurús com UMBELINA ANTONIA DE LIMA CASTELLO BRANCO, n. no Brejo dos Anapurús, no Maranhão, e + antes de 1878 em Barras. (...) e em terceiras núpcias, em 24.06.1878, na fazenda Olho D'água dos Pires, no município de Barras, hoje Esperantina, com sua prima legítima ADELAIDE ROSA DE CARVALHO CASTELLO BRANCO, n. 02.07.1842 no lugar Satisfeito, no município de Barras, e + em 1883 no Olho d´Água dos Pires. (...) .. e em quartas núpcias, em 1884, com ROSA LINA DO REGO CASTELLO BRANCO, n. 1867 na fazenda Jatobá, na "Chapada da Limpeza", no município de Barras, hoje Esperantina, e + em Luzilândia.” SAIBA MAIS sobre José Pires Ferreira Neto na plataforma de genealogia Parentesco . O ANÚNCIO A reforma, 23.04.1888 (1) FERREIRA, Edgardo Pires. A mística do parentesco - uma genealogia inacabada. Volume 2: Piauí, Rio de Janeiro. São Paulo: Corrêa do Lago, 1992.
- A pergunta de Junho: "Um homem da lei e da arte. Quem sou eu? Qual o meu legado?"
Registro fotográfico publicado em A Luta, em 1952. Ele nasceu em Barras do Marataoã ,em 1887, e faleceu em Teresina, em 1963. Em sua cidade natal, chegou a dedicar-se ao magistério nas primeiras décadas do século XX, quando ali exercia a magistratura. Barras era pequena para seus sonhos e projetos. Ele construiria fora de sua cidade natal uma bonita trajetória jurídica, docente e literária. Teve intensa participação na imprensa local, no século XX, e ocupou cadeira no órgão máximo das letras no Piauí, a Academia Piauiense de Letras. Como homem das leis, chegaria ao posto máximo do Judiciário estadual, desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Escreveu poemas e livros jurídicos. Quem é essa notável figura? Qual o seu legado?
- Relembrando Lucílio de Albuquerque
*José Fernandes do Rêgo Mãe Preta , 1912, de Lucílio de Albuquerque (n.Barras do Marataoã, 1877, f. no Rio de Janeiro,1939) Ao ensejo do transcurso de mais um aniversário da morte de Lucílio de Albuquerque, ocorrida a 19 de abril de 1939, numerosos amigos reuniram-se na residência do grande pintor para homenagear sua memória e, também, para expressar sua simpatia à dona Georgina de Albuquerque, viúva do grande artista, companheira admirável de toda sua existência e inspiradora de uma das suas telas mais famosas, conhecida como o “Retrato de Georgina”. Durante a reunião, tivemos oportunidade de percorrer a maioria dos trabalhos que lhe valeram merecido renome internacional e que tanto contribuíram para salientar, nos meios artísticos e culturais, o nome de Parnaíba, e o do seu berço. Por isto, não podemos deixar de assinalar, de passagem, a ausência do bancada do Piauí e de outras autoridades do Estado num momento em que era prestado tributo de afirmação a um dos mais eminentes filhos da velha província nordestina. A paisagem física e cultural do Nordeste, é bem verdade, pouca influência teve na vida e na obra de Lucílio de Albuquerque. Os temas patrióticos estão presentes em numerosos dos seus trabalhos, como a “Anchieta escrevendo à Virgem” ou “Execução à Luzerna”, mas a região de seus nascimentos contribuiu, apenas, para a tela em que retratou a Matriz da Virgem da Conceição, de Barras, por ele idealizada à referida região , e “Mãe Preta” e a composição belíssima em que representava Iracema, o que, é do nosso entender, um dos seus mais extraordinários trabalhos. Sabe-se bem, que apesar da educação longe do Piauí, dos viagens à Europa, que tanta repercussão tiveram na sua carreira, Lucílio de Albuquerque nunca esqueceu a terra de seus ancestrais, como o demonstra a dedicação filial com que pinta a tela em que evoca a matriz da Padroeira de Barras, terra de seu nascimento , a qual já nos reportamos. É forçoso de triste ver um país, mesmo os mais cultos, raras vezes os homens de saber ter um tão permanente esquecimento pelos filhos que o enobrecem. Os descendentes de Lucílio de Albuquerque como admiradores de sua obra artística e de seu exemplo de educador, declaram-se dispostos a oferecer sua colaboração àqueles que se dever organizar a distribuição entre as pessoas abastadas do Estado. Os quadros do grande pintor para as festas do centenário, serão cedidos, certamente, com todo o prazer, por dona Georgina, incansável na dedicação com que cultua a memória do seu esposo. A exposição dos trabalhos de Lucílio de Albuquerque, será facilitada, ainda mais, pelos preparativos em organização para receber as telas de Renoir que o sr. Assis Chateaubriand pretende exibir à Imprensa do Piauí. Para patrocinar a nossa ideia, convidamos o Clube Telepinas, a interessante organização cultural de Teresina, que conta com as figuras de José Olympio de Mello, Ulysses Marques, Carlos Eugênio Poti e Clidenor Freitas Santos, o extraordinário construtor do “Meduna”, que ainda a capacidade do homem se opõe aos mais altos destinos artísticos e culturais, que nos fazem, por vezes, lembrar a figura de Rimbaud, que depois de deixar a língua francesa, dos mais belos poemas dedicou-se a atividades de ordem prática; e a surpreendente colaboração do cientista africano que, renunciando até mesmo a complexas manobras na política internacional aceitou marcar a sua existência com a missão de resistência contra a absorção das massas. É possível que, junto aos idealistas do Clube Telepinas, encontremos o apoio necessário para a realização do nosso intento: divulgar a obra e o exemplo de Lucílio de Albuquerque. O entusiasmo dos seus admiradores e discípulos é suficiente para dar impulso ao nosso projeto e cabe ao povo do Piauí a glória de estimular a iniciativa que se propõe, apenas, a dar expressão à memória de um dos maiores pintores brasileiros. *José Fernandes do Rêgo foi ativo jornalista barrense radicado no Rio, ocupando importante papel na imprensa escrita nas décadas de 1950 e 1960. Publicado originalmente em A Luta, em 3 de agosto de 1952. P.S.: A família barrense Rêgo Fernandes, natural de Barras e radicada no Rio de Janeiro, residiu, próximo à casa do pintor Lucílio de Albuquerque na Capital Federal, sendo Lucílio frequentador da residência do ilustre barrense, segundo relato do historiador e cronista Antenor Rêgo Filho, membro desse grupo familiar.
- Fuga para a Taumaturgo de Azevedo
Capa de Rua Grande de Barras do Marataoã [Chagas Botelho] Quando as águas do Rio Marataoã engordaram, toda acasa ficou em situação de enchente. Naquele instante fluvial, começava o drama da minha família, pois o nosso pedaço de chão estava completamente inundado. Quase todos os pertences, conquistados a duras penas, boiavam incontroláveis sobre a invasora turva e impiedosa. Meus pais juntaram o que puderam para, em seguida, numa trouxa amarrada às pressas, fosse jogada em cima de uma carroça balsâmica. Agora submersa, partimos da Rua Fenelon Castelo Branco em direção a um abrigo providencial. Desabrigados, seguimos banhados de lágrimas e lama. Um velho galpão, com cheiro de secos e molhados, era o nosso novo lar. A residência temporária dos mais recentes alagados da cidade mesopotâmica. Um exíguo espaço cedido pelo seu João Eulálio e a sua esposa dona Léia Eulálio, patrões de minha mãe, uma doméstica simples e dedicada. Seu Joãozinho, como era carinhosamente conhecido, nos amparou com comiseração e de certa forma comovido com a força das enchentes do finalzinho da década de 1970. Chegamos à nova morada, quase sem nada, maltrapilhos. Passei a dormir num único cômodo com meus pais e irmãos. Um amontoado de corpos desolados e entristecidos. Deveria ter lá os meus sete anos de idade. No primeiro dia, ao abrir o portão, que ficava nos fundos da loja do seu Joãozinho (loja que tempos depois virou Armazém Paraíba) me deparei com a rua larga e imponente. Tratava-se da Rua Taumaturgo de Azevedo. Na esquina, ficava a ponta da Praça da Matriz. Defronte ao nosso alento, funcionava o suntuoso prédio da prefeitura. Um pouco à sua direita, a descida para a Prainha que felizmente não transbordara. À direita de nossas instalações, outra descida, aliás, a descida da diversão que desembocava até o balão lá para os rumos da Boa Vista. Desse outro lado das cheias, meu mundo era melhor. Mais feliz. Leia a crônica do comunicador e cronista barrense Chagas Botelho, com memórias da Rua Taumaturgo de Azevedo , publicada na coletânea Rua Grande de Barras do Marataoã, organizada por Dílson Lages Monteiro, com textos para Barras jamais esquecer : CLIQUE AQUI e vá até a página 13. Chagas Botelho é radialista, cronista. Exerce o radialismo há 30 anos, com atuação em alguns dos principais veículos de comunicação do Piauí. Entre suas obras, Delito Intencional (crônicas, editora UICLAP) e Olhar de Casca de Banana, vencedora do concurso de novos autores promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Natural de Barras-PI. Conheça mais do trabalho de Chagas Botelho em entrevista:
- Os Castello Branco ontem e hoje
Capa de Os Castello Branco Ontem e Hoje de Homero Castello Branco (*) Dílson Lages Monteiro - da Academia Piauiense de Letras Em “Testemunha ocular da história: o uso da imagem como evidência histórica”, obra que se tornou clássica para pesquisadores, Peter Burker afirma: “Nos últimos tempos, os historiadores têm ampliado consideravelmente seus interesses para incluir não apenas eventos políticos, tendências econômicas e estruturas sociais, mas também a história das mentalidades, a história da vida cotidiana, a história da cultura material, a história do corpo etc. Não teria sido possível desenvolver pesquisa nesses campos relativamente novos se eles tivessem se limitado a fontes tradicionais, tais como documentos oficiais produzidos pelas administrações e preservados em seus arquivos” (2017:17). Conclui Burker: “Por essa razão, lança-se mão, cada vez mais, de uma gama mais abrangente de evidências, na qual as imagens têm o seu lugar ao lado de textos literários e testemunhos orais” (2017:17). Tais palavras, embora concentradas enfaticamente no valor da imagem, do texto literário e das narrativas orais como documento, endossam, também, o lugar social da genealogia, ao redimensionar a concepção, segundo a qual, qualquer fonte converte-se em instrumento válido para, não apenas se desdobrar vínculos causais, consequências e cronologia de fatos, mas também, e sobretudo, o modo de pensar de um tempo, referendando Robert Darton, para quem a história traduz uma maneira de pensar. A genealogia significou, historicamente, um dos fortes aliados aos mais diversos campos dos estudos em humanidades. Dela, até hoje historiadores se valem, entretanto, sua utilização passou por novos contornos. Se antes estava a serviço notadamente de perfis biográficos eivados da exaltação de grandes feitos ou a serviço do positivismo, foi, a par de novas metodologias e apropriações, convertendo-se como objeto válido para um entendimento mais exato das relações de poder, como o fez pioneiramente a historiadora Tania Pires de Brandão ao estudar a elite colonial piauiense e, modernamente, entre nós, a seu modo, o historiador e acadêmico Reginaldo Miranda. E mais do que a compreensão das relações de poder, verteu-se em objeto igualmente útil ao entendimento do próprio tecido social em crenças, costumes, valores e outras relações de ordem diversa, capazes de investigar conflitos sociais e identidades dos mais variados grupos. À luz de teorias recentes, a genealogia vem se constituindo como campo de conhecimento para a construção de autoidentidade. Sob essa ótica, o genealogista Gilberto de Abreu Sodré Carvalho explica: “A genealogia não é um assunto de interesse restrito a nobres estabelecidos há algum tempo ou há tempos, de arrivistas ou de genealogistas de jeito fidalgo, mas sim estudo seriíssimo para entender o desejo de poder e de imanência (sermos intrinsicamente especiais) de cada um de nós. O impulso pelo poder – que nos garante, ao menos na aparência sobreviver – estabelece a competição pela ascensão social e a fuga da descensão” (2017:28). A esse propósito, esclarece Sodré Carvalho: “A ausência de memória vinda de genitores, avós e além leva a invenção de um passado, uma vez que o passado real como conhecido é honrosamente vazio, restrito à expressão das mãos, dos olhos, da cor da pele, dos traços do rosto para dar as pistas. Os humanos, de regra, não aceitam de bom grado não terem um passado conhecido que os ajude a desenvolver uma mais completa identidade” (2017:237). Por essa razão, argumenta o genealogista que somos “roteiristas e atores de autobiografias em curso de encenação e ajustes”. *** As duas primeiras décadas do século XXI se desenharam como momento fértil e de surpresas com a publicação de dezenas de obras sobre famílias piauienses e seus entrelaçamentos familiares. Entre as famílias estudadas, poucas receberam atenção tão detalhada quanto os Castello Branco. Em 2008, Dr. Edgardo Pires Ferreira, um dos mais respeitados genealogistas brasileiros, cujo fôlego e vocação para estudos de família legaram um denso conjunto de livros nos quais o Piauí colonial e Imperial e outros estados se fazem representar, lançava o volume 5 de A mística do parentesco – uma genealogia inacabada, publicando tomo específico sobre Os Castello Branco, no qual agrupava mais de 13 mil verbetes. Nessa obra, ele ampliava os esforços dos demais volumes, reinterpretando verbetes por meio de ligações de diversas famílias estudadas aos Castello Branco e aos Carvalho de Almeida, alguns dos pioneiros na colonização do Norte piauiense. Escritor Homero Castello Branco, da Academia Piauiense de Letras, autor de duas dezenas de livros, entre os quais Os Castello Branco Ontem e Hoje. O estudo terminou por resumir os volumes anteriores de A mística do parentesco, cuja edição é 1987, e preencher lacunas, somente descobertas com a circulação dos primeiros cinco volumes da coleção. Por meio do volume específico dos Castello Branco, uma de suas metas era realizar uma releitura de “Apontamentos Genealógicos de Dom Francisco Castello Branco: seus ascendentes e descendentes”, organizada por Antônio Leôncio Ferraz e outros, editada em 1926, hoje rara, livro que a despeito de ter valor incomensurável para a área e seu tempo, exige grande esforço de leitura, muito mais própria aos entendidos no assunto. Ao mesmo tempo, Dr. Edgardo aprimorava mais e mais a metodologia que criou para catalogar verbetes de maneira a que o leitor comum consultasse a obra com relativa facilidade, o que, de fato, tornou-se real. A mística do parentesco é de fácil consulta. A inquietação em contribuir para um trabalho mais próximo possível dos anseios de pesquisador o conduziria a mover-se incansavelmente na descoberta das lacunas do quinto volume. Assim é que novas famílias descendentes dos Castello Branco do Sul ao Norte do Piauí, com ou sem o sobrenome incorporado ao nome, foram se somando a outras já registradas na obra. O resultado disso apareceu com o mais fascinante volume da Coleção. Poucos anos depois da 1ª. Edição do número 5 de A mística do parentesco, os piauienses e maranhenses receberiam a nova edição desse tomo, mais que triplicada de verbetes, reunindo mais de 45 mil nomes, a que se adicionou estudo do historiador Gilberto de Abreu Sodré Carvalho. Na esteira dessas publicações ou concomitantemente a elas, o historiador Valdemir Miranda publicava sobre a mesma família o volume 1 de “Enlaces de famílias”, uma genealogia em construção, com registro de quase 15 mil nomes e relações de parentesco. Ele concentrou a atenção na descendência de Antônio Carvalho de Almeida e Maria Eugênia de Mesquita Castello Branco, estabelecidos à época em região hoje pertencente ao município de Batalha em 1725. Interessava ao pesquisador, especialmente, famílias assentadas notadamente entre os munícipios de Piracuruca, Batalha e Esperantina, embora tenha, inevitavelmente, por força da cadeia de casamentos entre parentes, registrado famílias descendentes do casal em outros municípios. Graças a suas pesquisas, catalogaram-se grupos familiares cujo conhecimento de suas raízes jazia quase exclusivamente na poeira da memória oral. A esses dois estudos, as pesquisas do historiador Reginaldo Miranda, em diversos artigos que investigaram a fundo em fontes primárias não exploradas até então, entre outras questões, Dom Francisco Castello Branco e a história pessoal dele em São Luís do Maranhão, assim como a de outros destacados integrantes dessa família, abriram caminho para novas hipóteses úteis à história, à genealogia e ao memorialismo. Cumpre destacar que todas essas pesquisas se construíram ao tempo em que o genealogista carioca Gilberto Sodré Carvalho investigava em minúcias Os Carvalho de Almeida, família com a qual Os Castello Branco originalmente se consorciam por matrimônio no Piauí, originando uma descendência numerosíssima, aos milhares, descendência da qual muitos dos aqui presentes fazem parte. À margem do fechamento de uma década, quando o tempo vende a ilusão de que pouco ainda apareceria, pelo menos por enquanto, em torno dos estudos sobre essa família pioneira na colonização do Piauí, eis que a vocação do acadêmico Homero Castello Branco Neto ao memorialismo e à genealogia, vocação já expressa em vários livros de mesmo matiz, como “Ecos de Amarante”, surpreende e fascina, mais uma vez, com publicação que mais do que apenas um publicação vale pela obra completa que o é. Não apenas pela utilidade e importância aos interessados no assunto, mas principalmente pelo conjunto dos livros enfeixados em um só livro. Se em digressão me remeto a outras obras sobre Os Castello Branco, relativamente recentes, é, também, para pôr em relevo que algumas delas beberam na fonte da tradição oral, especialmente, recorrendo ao conjunto de textos basilares coligido nos diversos livros, reunidos, agora, em um só volume pelo escritor Homero Castello Branco Neto. Esses estudos, todos eles, completam-se e dialogam (um motiva a leitura do outro naquilo que traz de não sabido ou não revelado, naquilo que organiza ou seleciona sob outro paradigma, ou mesmo naquilo que corrige). *** Em “Fenelon Ferreira Castello Branco”, que se desdobra em duas publicações de feição complementar (uma delas, autoral, e outra, do próprio Fenelon, o biografado) e “Os Castello Branco ontem e hoje”, que condensa 4 outras publicações sobre a família, escritas por antepassados, em momentos diversos do passado, até chegar ao presente representado pela escritura de Homero Neto, genealogia e memorialismo se intercruzam. É possível lê-los separadamente, ao sabor do diletantismo, mas também a partir de percurso cronológico de escrita e edição. Independentemente da estratégia de leitura, conseguem os livros alcançar, para além de elementos da vida privada, a própria história da família Castello Branco e ramificações, por meio de realizações de dezenas de seus filhos ilustrados, cuja trajetória é resumida em notas biográficas. Soube o autor, frise-se, promover distanciamento dos textos reunidos, para que imperasse a voz da ancestralidade e um dos sentidos originais do conjunto da obra, o de promover o legado das antigas gerações, sobremodo. Do conjunto, por dever da satisfação pessoal da leitura, destaco no volume intitulado “Fenelon Ferreira Castello Branco” o telurismo que percorre todas as páginas da biografia, nas quais o amor pela figura do tio-avô se materializa em releitura terna, traduzindo em uma só pessoa tio-avô e neto. Em ambos, pela escritura telúrica, abundam “o amor à família, à terra, aos amigos e aos amores”, entre eles, o carinho desmedido pela antiga Barras do Marataoã, expresso em 4 sonetos intertextuais, escritos em 1925 e há muito absorvidos pelos barrenses em versos lidos e relidos quase como hino, entre eles: Barras Ó formosa cidade sertaneja Transbordante de graças campesinas, Banhadas pelas águas cristalinas Que o rio Marathaoan além despeja. Viva eu perto de ti, ou longe esteja, Com essas tuas delícias me fascinas E já velho revejo-me o traquinas Que brincou, por ali, no adro da igreja, Como recordo o barco à flor das águas! E os canoeiros numa trova antiga, Ao som dos remos, desfiando mágoas! Com essas lembranças minha mente escaldas! Ó ninho azul, ó minha Terra amiga, -- Berço de Thaumaturgo e David Caldas. Destaco ainda, no mesmo volume, a publicação, pela primeira vez, dos manuscritos de Fenelon, sob o título seminal “A cronologia da família Castello Branco”, manuscritos que originaram a clássica publicação de Antônio Leôncio Ferraz e outros, sobre a descendência de Dom Francisco Castello Branco. Embora hoje essas informações estejam disponíveis e desmembradas em diversas releituras, o acesso a essas anotações permite cotejar o que já se escreveu sobre esses grupos familiares e mesmo reparar impropriedades. Nos verbetes de Fenelon, agora publicizados em versão fac-símile, o autor optou por registrar as esposas com o acréscimo do nome dos esposos e não o de solteira, diferentemente do procedimento de boa parte dos genealogistas, o que pode gerar esclarecimentos a pesquisadores ou confrontar informações sobre laços de parentesco, embora a catalogação de Fenelon não obedeça ao rigor e ao aprimoramento da técnica de enumeração dos dias correntes. Em “Os Castello Branco ontem e hoje”, tal qual na biografia de “Fenelon Castello Branco”, a leitura é a da curiosidade que anestesia. Agora, pela transmutação do leitor a tempos e a espaços diversos, tendo como acalanto as velhas raízes rurais. Por isso, o livro tem o cheiro, o sabor, o vento e a visão das percepções do mundo rural e de tempos que somente existem na memória, essa fábrica fascinante de subversão da concretude enfadonha dos dias medidos em horas. Nos diversos apontamentos sobre a família, na teia da saga familiar de registrar para a posterioridade a saga dos tempos idos, Homero Ferreira Castello Branco, Herbert Marathaoan Castello Branco, Moisés Castello Branco Filho e Homero Ferreira Castello Branco Neto transformam-se em única voz, a do cotidiano que é a escrita de si, pretensiosamente interessada em segurar as lembranças nas palmas das mãos e repassá-las, o quanto possível, às novas gerações. Assim, o leitor percorre o lugar social dessa família na história, da casa-grande aos postos de poder do mundo cosmopolita, em variados campos da atuação humana, com um “parêntese” extenso para enumerar a grande quantidade de nomes do grupo familiar integrando a Academia Piauiense de Letras. O leitor, quando além de leitor, emprega a palavra escrita como meio de expressão estética, ou como registro utilitário do tempo e da memória, com ou sem o rigor científico, tem a convicção da excelência de um livro se, diante dele, explode a emoção inesperada e um anseio de posse positiva: “Este livro, eu desejaria tê-lo escrito!” Parabéns, Dr. Homero Castello Branco, este livro, desejaria ter escrito! Nós, seus pares nesta Casa de Lucídio Freitas e A. Tito Filho, desejaríamos tê-lo escrito. O mais a ser dito fica por conta da curiosidade dos leitores. Muito obrigado! (*) Dílson Lages Monteiro é literato e pesquisador, titular da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras Oração proferida em 26.10.2019 na sede da Academia Piauiense de Letras, por ocasião do lançamento de “Os Castello Branco, ontem e hoje” e “Fenelon Castello Branco” (edição conjugada), de autoria de Homero Ferreira Castello Branco Neto. Referências: BURKER, Peter. Testemunha ocular: o uso de imagens como evidência histórica . São Paulo: Unesp, 2017. CARVALHO, Gilberto de Abreu Sodré. Homo genealogicus: gênese e evolução do ser humano socialmente importante. São Paulo: Edição do Autor, 2017. CASTRO, Valdemir Miranda de Castro. Enlaces de família – uma genealogia em construção (volume I). Esperantina-PI: Edição do Autor/EDUFPI, 2014. COSTA, Lena Castello Branco Ferreira da. Arraial e Coronel: dois estudos de história social. Cultrix, São Paulo, 1978. DARNTON, Robert. O grande massacre dos gatos e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017. FERREIRA, Edgardo Pires. Os Castello Branco – a mística do parentesco (volume 5) . São Paulo: Línea B Editora, 2008. ________. Os Castello Branco e seus entrelaçamentos familiares no Piauí e no Maranhão (2ª. edição revista e ampliada) . São Paulo: Abc Editorial, 2013. FERREIRA, Homero Castello Branco. Os Castello Branco ontem e hoje/ Fenelon Ferreira Castello Branco (edição conjugada) . Teresina: Nova Aliança, 2019. MIRANDA, Reginaldo. Capitão Francisco da Cunha e Silva Castello Branco . Disponível em https://www.portalentretextos.com.br/materia/capitao-francisco-da-cunha-e-silva-castelo-branco,12977 > acesso em 25.10.2019.
- Um estudo sobre as influências do vaqueiro e da fé católica na formação do município de Barras-PI
(*)Ana Ligia Torres Correia Lima RESUMO Este trabalho apresenta um estudo sobre as influências do vaqueiro e dos festejos da padroeira na formação do município de Barras, no Estado do Piauí. Objetiva fazer uma análise da construção da sociedade barrense, a partir de aspectos históricos relevantes do povoamento do Piauí, invariavelmente realizado através da inserção do gado como vetor da expansão econômica, social e cultural que culminou com o surgimento das fazendas e currais; processo determinante para Barras se organizar enquanto povoação. Palavras Chave: Vaqueiro. Festejos. Cultura. Gado . INTRODUÇÃO Este trabalho aborda um estudo sobre a influência do vaqueiro e da fé católica na formação dos municípios e tem como objetivo geral fazer uma análise da construção da sociedade barrense. A pesquisa se constrói a partir de aspectos históricos proeminentes do processo de colonização do Piauí, constantemente realizado através da inserção do gado como vetor da expansão econômica, social e cultural que iniciou com o surgimento das fazendas e currais, e avançou enquanto povoação. Nesse estudo, busca-se também compreender como surge à profissão do vaqueiro na região Nordeste e na cultura piauiense. Compete, entretanto, dentro do objetivo geral adotado, como fio condutor deste trabalho, abordar a profissão do vaqueiro no âmbito cultural e sua relevância para o município, dos primórdios de sua rica e festejada história aos dias atuais. Como elemento de destaque na ocupação e desenvolvimento da cidade de Barras, pretende-se abordar a presença do vaqueiro nos festejos de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do povo barrense, cuja imagem é associada à procura de uma rês perdida, onde um vaqueiro anônimo teria encontrado a relíquia talhada em madeira, dentro de uma moita de tucunzeiro [1] . Conta à lenda que um vaqueiro, a procura de uma rés desgarrada encontrou uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição talhada em madeira, dentro de uma moita de tucum, localizada onde hoje está erguida a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Barras. O vaqueiro levou o fato ao conhecimento de seu senhorio, rico fazendeiro, filho da província da Bahia, dono de vasta gleba de terra – Coronel Miguel Carvalho Aguiar – que, como obstinado católico, deu início a construção de uma capela, com a finalidade de homenagear a imagem da santa, encontrada pelo vaqueiro, isto no ano de 1749. Entretanto, o rico coronel faleceu antes do termino da edificação da capela. Com a morte do Coronel Miguel Carvalho Aguiar, o sobrinho e herdeiro Manoel da Cunha Aguiar, sob orientação do Frei Manoel da Penha e do Padre Gabriel Malagrida, deu continuidade a construção da capela, com ajuda de alguns fiéis. ( FILHO 2007 p.35) [2] . Para consolidar uma real relação do vaqueiro com a fundação do município de Barras, é importante colocar em posição de destaque o encontro da imagem da santa citada na narrativa de Antenor Rego, a criação de um cenário lúdico inferido no imaginário popular local, ideal para a criação do mito do vaqueiro em busca do gado perdido e daí surge a capela que dá origem aos festejos da padroeira, atraindo assim populares que iniciam o processo de ocupação no entorno da edificação do templo religioso . A capela tornou-se a base para a formação do núcleo de povoamento, a partir da Fazenda Buritizinho. Naquela época, já existiam algumas casas de telha e várias de palha. Sempre em torno das atividades religiosas. ocorreu o início do processo de urbanização. As primeiras famílias que chegaram as terras que hoje constituem o município de Barras foram oriundas de Pernambuco e da Bahia. Aqui chegaram para fazer morada os Aguiar, os Cunha, os Rabelos, os Correia, os Rodrigues, os Melos, os Castelo Branco, os Carvalho de Almeida, entre outras. Ao introduzir inferência histórica à pesquisa, pretende-se reafirmar que a prática da criação de gado confunde -se com a formação e estruturação da sociedade barrense nos campos político, econômico e cultural. A cidade de Barras, como grande parte das vilas e povoados da época, nasce de um encontro emblemático entre um vaqueiro e a imagem de uma santa, no entorno de uma fazenda, com água e terras suficientes e capazes de suprir as necessidades dos rebanhos, propiciando dessa maneira expansão econômica com a engorda e a facilidade de transporte do gado e o comércio da carne, do couro e de outros derivados, para os principais centros consumidores do país e até mesmo exportando para a Europa. Para alcançar os objetivos da pesquisa, o estudo é constituído metodologicamente de uma pesquisa bibliográfica na qual se recorreu a obras de autores referentes à temática. Nesse sentido, foi importante o embasamento teórico de autores como Rego Filho (2007), Chaves (2013), Abreu (1988), Cunha (1993), Furtado (1963) entre outros. Também uma breve pesquisa junto à Igreja Católica, Paroquia de Nossa Senhora da Conceição pois tradicionalmente o vaqueiro apresenta destaque nas festas da padroeira do município de Barras, tendo um dia de sua novena dedicado exclusivamente para esta figura. Este trabalho visa contribuir para um melhor entendimento acerca da formação do município de Barras, que tem como três pilares fundamentais a fé católica, o rio e a figura do vaqueiro através da pecuária. Desse modo, o trabalho desenvolvido tem a intenção de ressaltar a importância social que o vaqueiro possui na formação deste município e também nas festividades da padroeira. O recorte temporal da pesquisa aborda todo o período histórico do século XVII, início da povoação das terras do Piauí, com a instalação dos primeiros currais e fazendas, aos dias atuais, destacando a fundação de Barras e o vaqueiro como sendo personagem marcante na cultura, religião e símbolo da organização social barrense. Em relação à abordagem que se faz da história local, são mencionados casos relevantes da participação do vaqueiro na formação da sociedade piauiense em geral, em especial na fundação de Barras, na participação das lutas, vitórias e compromissos com atividades de cunho cultural e econômica, além de ações que definem o seu fazer profissional, com um olhar crítico sobre a realidade no entorno da qual o simbologia do vaqueiro surge, como um ser forte e destemido. A discussão e as abordagens inseridas no processo de pesquisa têm origem no quadro qualitativo, vez que a mesma é materializada na abordagem direta da pesquisa com os meios nos quais são colhidas as informações, ou seja, a matéria é extraída de referências bibliográficas e comparadas com as realidades da zona rural e urbanas de Barras, através do olhar cotidiano. Em se tratando da abordagem dada aos fatos históricos, cabe ainda frisar que o contexto citado se espraia do povoamento das terras piauienses e perpassam as datas limites de 1749 e 1804, quando Barras começa ser desbravada e povoada, principiando seu caminho como núcleo social ligado aos coronéis e vaqueiros. É importante frisar que a análise documental e de outras matérias pesquisadas ajudaram no desenvolvimento deste trabalho. Para que os caminhos teóricos fossem encontrados, diante da metodologia proposta, as consultas de campo em conversas informais, colhidas no ambiente local, foram carro-chefe ao entendimento dos fatos atribuídos à importante participação do vaqueiro no desenvolvimento da história da cidade de Barras PI. Ao colocar todas essas passagens históricas na pesquisa, pretende-se reafirmar que a prática da criação de gado se confunde com a própria formação da sociedade piauiense em sua multiplicidade de aspectos. A cidade de Barras PI, como a maioria irrefutável das vilas do período de colonização semeadas em todo o território piauiense, nasce de um processo emblemático, erguendo-se no entorno de uma fazenda com curral, aguadas e terras capazes de suportar os inúmeros rebanhos, propiciando a engorda e a facilidade de transporte da carne, couro e outros derivados para os principais centros consumidores. Para justificar a relação do vaqueiro com o surgimento de Barras é importante salientar a descoberta da imagem de Nossa Senhora da Conceição, dentro de uma moita de tucunzeiro, quando o mesmo campeava uma vaca perdida, cenário ideal para a construção do mito e o levante da capela que, mais tarde, irá motivar os festejos da padroeira, que também será elevada à condição de herdeira direta de todas as terras no entorno da casa grande, num raio de uma légua. O PROCESSO DE POVOAMENTO DO SERTÃO E AS FAZENDAS DE GADO O cotidiano do vaqueiro, personagem principal do nosso trabalho, vive no espaço tradicionalmente conhecido como “sertão”. Segundo Pimentel [3] , o Sertão é abordado sempre com uma ideia de lugar afastado, distante, terra sem lei, local sem recursos, sempre colocado em contraposição ao litoral e à cidade, por visto em oposição à noção de civilidade, o sertão foi sendo assim imaginado e construído, a partir de 1500 até meados de 1930, por boa parte do imaginário popular e pensamento coletivo. O povoamento dos antigos sertões brasileiros durante o período Colonial teve como principal fator econômico a expansão açucareira que foi responsável pela implantação e desenvolvimento da pecuária de subsistência e teve papel importante no fornecimento de alimentos, força motriz e meio de transporte para a sobrevivência dos engenhos de cana de açúcar. Entretanto, essas economias, a pecuária e a açucareira, possuíam características e dinâmicas diferentes. Desse modo, a criação do gado teve de se deslocar das proximidades litorâneas onde se localizavam os engenhos e abrir caminhos para o interior dos sertões, visto que esta atividade era contrária aos interesses dos senhores de engenho e, por conseguinte, da coroa portuguesa, que por uma carta régia coibia a criação do gado a dez léguas da costa. Segundo Capistrano de Abreu: O gado vacum dispensava proximidade da praia, pois as vítimas dos bandeirantes a si próprio transportavam das maiores distâncias e ainda com mais comodidade; dava-se bem nas regiões impróprias ao cultivo da cana, quer pela ingratidão do solo, quer pela pobreza das matas sem as quais as fornalhas não podiam laborar. Pedia pessoal diminuto, sem traquejamento especial, considerando alta valia num país de população rala. Quase abolia capitais, capital fixo e circulante a um tempo, multiplicando-se sem interstício. Fornecia alimentação constante, superior aos mariscos, aos peixes e outros bichos de terra e água, usados na marinha. De tudo pagava-se apenas em sal; forneciam suficiente sal os números barreiros dos sertões (ABREU, 1988p.130) [4] . A pecuária acabou sendo favorecida por esse deslocamento devido a extensão de terras disponíveis e condições para a criação de gado. Essas terras eram conseguidas facilmente, bastava um pedido informal expressando o desejo de ocupação por parte dos posseiros para que a doação das terras acontecesse se formando imensas fazendas de gado. No entanto, a concessão de terras era muito superior à capacidade de exploração. Segundo Mott: [...] deve-se não somente à cobiça dos fazendeiros, desejosos de possuírem grandes glebas, mas também à necessidade inerente à dinâmica da pecuária extensiva que requer áreas de bom tamanho, dado o baixo nível técnico da exploração e a rarefação das pastagens nos períodos de estiagem (MOTT, 1985 p.140) [5] . Mesmo tendo se constituído no período colonial como uma atividade secundária e inicialmente inferior a produção açucareira e a mineração, a pecuária ganhou cada vez mais espaço no cenário social e econômico do Brasil, segundo advoga Sérgio Buarque de Holanda: “A pecuária constituiu, além da mineração, é óbvio a única atividade econômica rendosa para os sertões, pois o gado a si próprio se transportava” [6] . A disponibilidade de mão de obra para o trabalho nas fazendas não enfrentou muitas dificuldades. Era um ramo muito atrativo, sobretudo para aqueles que possuíam poucos recursos, pois o homem que aceitava trabalhar nas fazendas de gado recebia uma cria em quatro nascidas, podendo iniciar a sua própria criação e assim subir socialmente. Além do trabalho no engenho de açúcar, para suprir as necessidades mais básicas da vida cotidiana da população, o gado surge servindo como fonte de renda no comércio local, como ressalta Celso Furtado: O couro substitui quase todas as matérias-primas evidenciando o enorme encarecimento relativo de tudo que não fosse produzido localmente. Esse atrofiamento da economia monetária se acentua na medida em que aumentam as distâncias do litoral, pois dado o custo do transporte do gado, em condições de estancamento do mercado de animais, os criadores mais distantes se tornavam submarginais. Os couros passaram a ser a única fonte de renda monetária destes últimos criadores (FURTADO ,1963 p,133) [7] . Tentando um melhor entendimento dessa abordagem, foi preciso mostrar a realidade vivenciada pelo Estado, antes mesmo da chegada dos colonos, e alguns motivos que levaram homens a abdicarem de suas origens e se aventurar por terras desconhecidas, até então, do sertão piauiense. Importante frisar que quase nada se sabe sobre o Piauí, antecedente ao século XVII, a não ser que em suas terras viviam tribos indígenas que não conheciam os hábitos e os costumes dos colonos, e que isso gerou conflitos de grandes proporções , muitas dessas terras eram copiosas em águas e solos férteis com pastagens propícias à criação extensiva de gado sem muitas intempéries climáticas e a vegetação formada muitas vezes pela caatinga. E é na região norte do Piauí, onde se encontram as terras de Barras, caso deste estudo. Chaves relata: Para a parte norte confina estas com a costa do mar, correndo do Ceará para o Maranhão, para a qual tem dois caminhos, abertos ambos no ano de 95, um vai ao Maranhão e o outro à Serra da Guapaba, à qual tem ido moradores, e em companhia de alguns vieram os Padres da Companhia de Jesus, que nela assistem, fazer missão a esta povoação em o mês de dezembro próximo passado de 96, e se recolheram à serra em janeiro de 97... O documento é datado de 2 de março de 1697(CHAVES, 2013 p.125) [8] . O combate aos nativos, pela Casa da Torre, iniciado em 1674, culminou com o massacre e expulsão dos mesmos, na região do São Francisco, nos limites do sul do território piauiense. A Carta Régia de 1701 é outro fator que influenciou categoricamente na expansão da pecuária em direção ao Piauí, pois por este instrumento a coroa portuguesa determinou que os criadores retirassem os seus rebanhos, no prazo de um mês, para o interior, observando a distância de dez léguas. Essa vontade da metrópole surge como proteção à expansão da economia açucareira, em Pernambuco, e termina influenciando toda a região e entorno que conforme Celso Furtado “teria de acarretar consequências para as demais regiões” [9] . Os detalhes inseridos nesta pesquisa servem para reforçar a tese da expansão bovina em direção aos Sertões de Dentro, como era chamado o incógnito Piauí da época, tendo como resultado a descoberta de áreas mais aprazíveis que possibilitou que alguns fazendeiros com escravos e vaqueiros, construíssem ali seus currais e fazendas, células embrionárias de muitas cidades, como Barras, que surgiu dentro desse contexto histórico, econômico, cultural e social. A política que guiou, naquele período, o uso dos sertões pelos rebanhos de gado e instalação das fazendas é a mesma que vem assegurar o controle dessas terras por parte de ricos proprietários, agora denominados de sesmeiros, pelos governos provinciais, sob o comando da Coroa Portuguesa. Esses domínios territoriais passam então para o poder de uns poucos latifundiários que dispunham dos recursos, não para o desenvolvimento social, agrícola ou quaisquer outras atividades produtivas, mas para serem transformados em pastagens utilizadas para alimentação dos imensos rebanhos. Com essas modificações, surgem os coronéis e o regime político que marca esse sistema na transição entre o Brasil Colonial e o Império. Abordando esse assunto, ainda muito atual e em amplo debate no Piauí, consequentemente em Barras, onde o processo de ocupação não se deu de forma diferente, Barbosa Lima Sobrinho, estudioso e pesquisador renomado da história da colonização nas terras do Piauí, lembra que: Quando se fizer a história territorial do País, sobretudo na região nordestina, há de se verificar: 1) que os domínios reivindicados pelos potentados são muito mais extensos que as necessidades dadas: 2) que foi insignificante a proporção de sesmaria dadas aos povoadores efetivos da terra. Na história do devassamento do Piauí, esses fatos se patentearam de maneira mais precisa do que em qualquer outro episódio da conquista de nosso território. A concessão de sesmarias beneficiava a potentados baianos, nenhum dos quais pensaria em transferir as suas residências para essas paragens quase bravias. Domingos Afonso Mafrense, Julião Afonso Serra, Francisco Dias d’Ávila, Bernardo Pereira Gago, Arcediago Domingos de Oliveira Lima, Catarina Fogaça, Pedro Vieira de Lima, Manuel Ferreira, Manuel de Oliveira Porto não teriam, por certo, nenhuma ideia de morar ou trabalhar nos descobertos do Piauí, como não a teria aquele Garcia d’Ávila Pereira, que em 1684, com quatro ou cinco anos de idade, já se inscrevia como titular de sesmarias nas margens do Gurguéia e do Parnaíba(SOBRINHO,1972 p.141) [10] . O elemento vaqueiro, desde o princípio do processo de colonização, vai ser trabalhado por pesquisadores e estudiosos do assunto como figura singular para o desenvolvimento de um modo geral, do Piauí, e buscando o espaço mais específico desta pesquisa, o município de Barras, observamos que sua atuação dentro do processo transformador do sertão, enquanto agente cuidador de gado e guardador do espaço físico das fazendas, que se reflete na construção da cidadania do povo barrense, através do fortalecimento econômico e cultural. UM BREVE HISTÓRICO DO MUNICÍPIO DE BARRAS Barras está localizada no centro de seis barras de rios e riachos, o que deu origem ao seu topônimo. Segundo Fonseca Neto, “No nordeste brasileiro um dos significados da palavra BARRA diz ser ela a confluência de um rio e riacho. Barras é o seu plural. E é exatamente o que exprime o sugestivo polinômio BARRAS”. [11] ·. Barras localiza-se na bacia hidrográfica do Rio Longá e é banhada também pelo Rio Marataoã, além de vários riachos. Boa parte da cidade está na margem esquerda do Marataoã. Em se tratando de Barras, a fazenda Buritizinho estava situada em zona privilegiada coberta por matas de cocais, muitos buritizais, carnaubais, cerrado e uma pequena quantidade de caatinga, características da transição entre a Amazônia. Conforme estes relatos o fundador da cidade, coronel Miguel Carvalho de Aguiar, baiano de nascimento, saiu da região das barrancas do São Francisco e se arrisca na travessia do sertão, para instalar a sede do seu domínio territorial no vale do Longá, mas especificamente onde este rio encontra-se com o Marataoan, uma área rica de pastagens e solos férteis. A história se mistura com a lenda no momento em que um vaqueiro anônimo encontra a imagem entalhada de Nossa Senhora da Conceição nos arredores da Fazenda Buritizinho e a oferece a seu senhor, um rico fazendeiro, possuidor daquelas terras, baiano Miguel de Carvalho Aguiar, católico por devoção fervorosa decide que esta santa se tornará a padroeira daquele lugar e manda construir em homenagem à santa, uma capela, dentro da fazenda no local onde a imagem foi encontrada. Desse modo. dá-se a importante contribuição do vaqueiro na construção da base religiosa da sociedade barrense. A imagem encontrada e a capela construída vão orientar o desenvolvimento urbano de Barras, inclusive as feitorias rurais. Mais tarde, após o falecimento do coronel Miguel Aguiar, as terras e quase tudo que há em cima destas no tocante aos animais, passam para o domínio da Santa, Antenor Rego Filho nos revela que: Borges Leal assumiu a administração do patrimônio da Santa, em virtude do falecimento de Manoel da Cunha Carvalho, A pintura das portas foi contratada por Borges Leal por cinquenta mil réis. Estava, pois, concluída, em 1806, a capela, iniciando-se, assim, o povoamento. A fazenda Buritizinho dava lugar à “POVOAÇÃO DAS BARRAS”(FILHO, 2007 p.35) [12] . Neste caminho, beirando o mítico e povoando o imaginário popular, a localização da cidade e o seu crescimento, a partir da fundação da capela, deram-se de certo modo, pela influência do vaqueiro, pois a evolução de todo esse processo de urbanização e de todas as coisas que se sucederam à fundação, aconteceram por empenho do vaqueiro, na trabalho incansável para aumentar as riquezas do município, seja nos cuidados com os rebanhos, a produção dos derivados dessas criações e sua procura para comercialização com os principais centros consumidores dos produtos. Foram surgindo pequenos sítios e fazendas menores, tocadas geralmente por vaqueiros que constituíam família e retiravam a parte que lhe cabia como pagamento pelo cuidado da criação, crescendo e contribuindo para diminuir o tamanho dos latifúndios dos grandes proprietários de terras, contribuindo para o aumento populacional, fazendo surgir novas fazendas, diversidade e rotatividade das atividades produtivas, econômicas e sociais. Aos poucos, a povoação ganha características de Vila. Antenor Rego Filho em sua obra Barras Histórias e Saudades aborda um oficio do Presidente da Província do Piauí, de setembro de 1826, onde requere ao Governo Imperial que se fundasse uma Freguesia no local, como também o povoado ali existente fosse elevado à categoria de Vila: A povoação das Barras é formoseada pela natureza com um rio abundante de peixes, que vai lançar suas águas no caudaloso Parnahíba, com grandes matas que compreendem várias feitorias de algodão, mandioca, e outras gêneros, suas madeiras em maior parte são cedros e outros paus de construção além de belos edifícios e boa igreja que fazem digna de melhor sorte. Esta povoação, dista de Campo Maior 16 léguas, porém o seu distrito por essa parte excede a 30, que dificultam aos fazendeiros procurarem os recursos necessários onde existem as autoridades. (FILHO,2007p.36) [13] No ofício registrado pelo historiador, muitas das novas atividades que vão surgindo para complemento de vida, têm no vaqueiro sua inspiração, dado o dinamismo cultural que envolve sua imagem e pelas condições de vida desse sertanejo a partir desse momento histórico. Fé e devoção são elementos essenciais nesse processo formador da identidade local e cultural do povo barrense, pondo a religiosidade como a base que ampara esse começo de unidade, despontada na tradição anual dos festejos da padroeira e outras práticas típicas da região, aprofundadas na simbologia do vaqueiro, enquanto homem simples e defensor da vivencia do campo como um espaço plural e gerador de oportunidades. Ao observar a presença do vaqueiro na formação da sociedade barrense e partindo do objetivo geral deste trabalho, pode-se concluir, que desde o princípio do processo de desbravamento e colonização, sua participação foi fundamental na transformação social, sempre lembrado dos atos religiosos como um agente de atração popular, guardião da verdadeira identidade da cultura do povo, humilde e trabalhador como é o trabalhador do campo. Pode-se afirmar que o vaqueiro é um profissional a serviço do fortalecimento da cultura e da economia local. Este trabalho remete à figura do vaqueiro, na posição de um homem que busca preservar a tradição sertaneja secularmente vinculada ao projeto expansionista do gado em todo território do Piauí, sendo de suma importância para o surgimento em especial de Barras, campo desta pesquisa mas também de outros municípios, enquanto povoação, freguesia, vila e cidade, um lugar encravado em uma região de transição no norte piauiense, banhada por rios e riachos, que busca se fortalecer e preservar cotidianamente os aspectos cultural, social, econômico e político dessa gente. Compreender a importância do vaqueiro, como profissional e agente cultural, no cenário da formação e desenvolvimento do município de Barras, como um dos objetivos específicos da pesquisa, requer mergulhar na histórica façanha do desbravamento e povoamento do território piauiense, como esclarece a historiadora Claudete Dias “O vaqueiro não era um trabalhador comum e o “status” de vaqueiro atraia todos, a maior felicidade consistia em merecer algum dia o título de vaqueiro” [14] Desse modo, é edificado o processo de profissionalização do vaqueiro barrense na formação do município. Além disso é preciso definir que tipo de relação havia entre o vaqueiro e o fazendeiro, quase sempre movida pela cultura da paz, respaldada no princípio da cordialidade e da confiança. Nesse espaço histórico, os valores propagados são os da honestidade e fidelidade de um para com o outro, a quebra da palavra dada, invariavelmente levava à discórdia. O vaqueiro, normalmente assumia o papel de administrador, usando desse direito para comandar as tarefas, sendo o responsável por cuidar dos animais e de todos os homens envolvidos nas tarefas diária com as terras. Ainda é valioso ressaltar que não existia um senso jurídico, como hoje, que regula as relações trabalhistas, entre patão e empregado, pois o trabalho do vaqueiro não era pago com dinheiro, mas como percentual de crias nascidas vivas no rebanho sob seus cuidados, e com acordos formalizados e confiados na palavra dada. Por isso, é que nessas negociatas, a palavra tinha um valor muito grande, enquanto o inverso, como já foi dito, representava um conflito de valores morais, às vezes, políticos e sociais que fazia estremecer e ultrapassar as relações de amizade e laços criados. O VAQUEIRO NOS FESTEJOS DA PADROEIRA DA CIDADE Merece atenção especial, neste trabalho, o modo como a figura do vaqueiro influenciou e continua influenciando a religiosidade do povo barrense. O mito da imagem da padroeira encontrada entre espinhos em uma moita de tucunzeiro atravessa já quase dois séculos e continua a desafiar a própria história que o envolve. Ano após ano, as pessoas são embrulhadas por esse clima de fé, auxiliadas pela lenda na qual o vaqueiro aparece para o povo com a imagem da Imaculada Nossa Senhora da Conceição, a quem é dada o domínio material, espiritual e temporal sobre todas as coisas desta região. O trecho do testamento do coronel Miguel de Carvalho Aguiar, publicado nas páginas da obra de Antenor Rego Filho, é o relato que vem a confirmar essa parte da história de Barras: “... e mais lhe deixou pelo amor de DEUS ESTE MEU SITIO DA CONCEIÇÃO DAS BARRAS, com todas os seus gados vacuns e cavalares que nele se acharem de meu ferro e sinal com todas e mais gado e miúdos, carneiros, cabras, porcos e tudo o mais, como também a metade das peças de prata, casa e mais trastes...”(FILHO,2007 p.47) [15] Todas estas terras e coisas que nela existiam são deixadas em patrimônio à Santa em testemunho da grande devoção do coronel pela padroeira, consagrada a partir da construção da igreja, onde foi guardado o relicário sagrado. A manifestação religiosa dos Festejos no formato cultural que ainda hoje, em parte, é preservado não seria possível sem a ilustre presença do vaqueiro que é um dos personagens centrais dessa festa. Dentre os eventos da programação anual dos festejos alusivos à Padroeira de Barras, Nossa Senhora da Conceição, período que vai do dia 28 de novembro à 8 de dezembro, a missa dos vaqueiros, celebrada na manhã do dia 6, é um dos pontos de maior encontro de fé, da tradição católica enraizadas no local e adotadas por essa gente. Essa celebração da missa do vaqueiro tem origem dúbia, mas é pensamento recorrente, diante da falta de documentos, que a mesma nasceu da necessidade de se homenagear a capacidade desse trabalhador responsável pela ascensão econômica local na lida com a boiada e os fazeres na fazenda. Antes mesmo de o sol raiar, populares no geral, homens, mulheres, crianças e adolescentes, aos poucos invadem as praças e ruas da cidade, alguns vestem gibões, mocó (botas), peitoral e chapéus e em alguns casos alfoges de couro customizados. Dentre os fiéis, é possível distinguir aqueles que trabalham duro sob o sol escaldante do sertão. A procissão tem início e o andor é seguido por uma multidão que entoa hinos em louvor a padroeira, enquanto os vaqueiros acompanham majestosos e solenes em suas montarias, trotando no asfalto ou no paralelepípedo gasto, até o largo da Igreja, onde acontece o ato litúrgico dentro da Matriz. Sobre os Festejos da Padroeira Antenor Rego Filho diz que: Às cinco horas da tarde, é dado inicio ao cortejo. O mastro vai à frente, seguido pelo andor que carrega a imagem de Nossa Senhora da Conceição, acompanhada por enorme multidão. A banda segue tocando músicas sacras, a multidão cantando e rezando(...) O mastro chega à matriz por volta de dezoito horas, sendo recebido por verdadeiras chuvas de fogos de artifícios e foguetes.(FILHO,2027 p.230) [16] O mito da imagem vai se resguardar na realidade histórica e cultural do vaqueiro sempre presente na vida do município, embora seja preciso dizer que, nos festejos, sua presença esteja mais associada a uma representação mais simbólica, já que a maioria dos presentes aparece ao evento apenas na qualidade de guardiões da tradição popular, de uma época distante da verdadeira profissão de campear rebanhos nos campos. Portanto, é legitimo destacar que a presença do vaqueiro ao longo dos anos, nos festejos alusivos á Nossa Senhora da Conceição, culmina com um ato, onde vaqueiros e curiosos se misturam em meio à celebração, formando uma multidão unida apenas pelo ato da fé, no saudosismo do ressurgimento e fortalecimento da profissão quase desaparecida em meio à evolução urbana. CONCLUSÃO Este trabalho permitiu trazer uma análise da presença do vaqueiro na construção da sociedade barrense, a partir do estudo do processo de ocupação do território piauiense ocorrida a partir do século XVII. Nesse período, houve uma intensa campanha pela posse da terra, conflito este envolvendo índios e conquistadores portugueses, que procuravam novas áreas para implantar e expandir a pecuária, já que o governo português no Brasil, visando proteger a rudimentar indústria açucareira no litoral de Pernambuco e Bahia, determina que os rebanhos sejam retirados das regiões produtoras de açúcar e levadas para o interior, a uma distância de dez léguas. Inicia, assim, o processo de ocupação do Piauí pela atividade agropecuária, bem como as relações sociais, culturais e econômicas, dentre as quais o vaqueiro se destaca e é visto quase como um herói pela luta árdua na lida com os rebanhos que correm os sertões do Piauí em todos as direções, contribuindo para a formação de vilas e cidades nos lugares com boa cobertura de água e pastagens férteis para servirem de alimentação aos animais. Nesse contexto, tem origem a fazenda Buritizinho, célula embrionária da cidade de Barras, povoada a partir da chegada do coronel baiano Miguel Carvalho de Aguiar, à região do Vale do Longá. Percebe-se a partir daí que ao encontrar a imagem de uma Santa nos arredores da Fazenda, um vaqueiro anônimo passa a ter uma importância fundamental sobre as pessoas do lugar através de uma lenda que, ao longo dos anos, irá se transformar no ideário religioso de forte apelo sobre a sociedade barrense, com ressonância nos dias atuais. Desse modo, conclui-se que a história do vaqueiro que encontra a imagem de Nossa Senhora da Conceição, em um primeiro momento, nos mostra também a necessidade de entender o ordenamento da profissão dessa figura popular, presente em todos os cantos do Nordeste, nesse cenário especifico da formação do município barrense. O desfecho desse entendimento nos permite avaliar que nas propriedades de Barras, em sua grande maioria, a profissão de vaqueiro, mesmo sem a cobertura legal de hoje, tinha muitos atrativos, pois se tratava de uma classe trabalhadora com um certo privilegio social. Como ocorria em todo território dominado pela pecuária, permitia-se ao vaqueiro ter participação direta no fruto da produção do gado, vez que a cada quatro animais nascidos com vida, um era dado a ele pelo fazendeiro. Nas bibliografias consultadas para a realização deste estudo, constatou-se que essa partilha, ou seja, a divisão dos animais nascidas com pleno vigor físico, se tratava de uma formula primitiva de participação nos lucros da produção. Destaca que é dado ao vaqueiro, enquanto administrador do rebanho sob seus cuidados, nas ocasiões dos partilhamentos, quase sempre, um brinde especial pelo trabalho realizado. Sendo normalmente presenteado com uma rês já velha, mas em bom estado, para que a mesma servisse de alimento para si e seus familiares. A somatória de todas essas coisas descortinadas no cotidiano do vaqueiro barrense deixa transparecer que sua profissão é um tema relevante da discussão sobre sua participação na formação da identidade cultural do povo local. Compreender e assimilar essa importância significa, irremediavelmente, mergulhar na história da evolução social dos barrenses desde o povoamento aos dias atuais. Cabe destacar nas reflexões elencadas que a presença do vaqueiro nos festejos de Nossa Senhora da Conceição acontece entre altos e baixos, já que o dia 06 de dezembro, data da procissão e missa em homenagem a esse trabalhador, tem a participação dos não vaqueiros que, a cada ano, engrossa o rosário de fiéis no evento tido como tradicional. Observa-se, ao longo da pesquisa, que há pontos negativos na compreensão da problemática levantada, dentre estes o fato de que o vaqueiro, aos poucos, vem perdendo sua importância dentro da cadeia produtiva da pecuária local. Esse quadro negativo na economia local se agrava com a saída dos filhos e herdeiros dos proprietários de terras, para estudar em outros centros, muitas vezes não voltando mais às origens, deixando sem opção de continuidade o laço familiar dos coronéis que, sem domínio da tecnologia, perdem muitos dos seus espólios e domínios políticos. Notas [1] Pequena Palmeira espinhosa, cuja as folhasse obtêm uma fibra comprida e forte, semelhante a lã, muito comum na região. [2] 1 REGO FILHO. Antenor. Barras, Histórias e Saudades. EDUFPI, 2007. 246 p. 35. [3] PIMENTEL, Sidney Valadares. O chão é o limite: A festa de Peão de Boiadeiro e a domesticação do Sertão. Editora UFG. Goiás, 1997, [4] ABREU, João Capistrano de. Capítulos de história colonial: 1500 – 1800 & Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil. 2ª Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998, p. 130 [5] MOTT, Luiz R. B. Piauí Colonial: população, economia e sociedade. Teresina, 1985.[projeto Petrônio Portela], p. 140 [6] HOLANDA, Sérgio Buarque de. História Geral da Civilização Brasileira. Tomo I, A. Época Colonial. 2º Volume. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1960, p. 128. [7] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. Editora Universidade de Brasília, 1963, p. 133. [8] CHAVES, Monsenhor. Obra Completa, Teresina. Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves. 2013, p. 125 [9] FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 31ª edição, [1959] 2003, p.60 [10] SOBRINHO. Barbosa Lima. Devassamento do Piauí. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1972, p. 141 [11] FONSECA NETO, Antônio. In: Municípios Turísticos Piauienses – Barras. Teresina: Sebrae, 1996. p. 1719. [12] REGO FILHO. Antenor. Barras, Histórias e Saudades. EDUFPI, 2007, p. 35 [13] REGO FILHO. Antenor. Barras, Histórias e Saudades. EDUFPI, 2007, p. 36 [14] DIAS. Claudete Maria Miranda. Balaios e Bem-Te-Vis: A Guerrilha Sertaneja 2ª edição, Teresina: Instituto Dom Barreto, p. 77 [15] REGO FILHO. Antenor. Barras, Histórias e Saudades. EDUFPI, 2007, p 47 [16] REGO FILHO. Antenor. Barras, Histórias e Saudades. EDUFPI, 2007, p 23 REFERENCIAS ABREU. Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. ED. Da Sociedade Capistrano de Abreu. Rio de Janeiro. Briguiet, 1930. ABREU, João Capistrano de. 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