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  • A. Tito Filho: João Adélia, o músico, em 3 crônicas antológicas.

    A. Tito Filho JOÃO ADÉLIA Fevereiro do ano passado estive em Barras para as solenidades e as festas comemorativas do primeiro centenário de vinda ao mundo de velho e bondoso amigo de minha família, João carvalho, como eu nascido em Barras, pedaço de terra piauiense de muitas bonanças. Houve lançamento de delicioso livro de estórias, de cenários e tipos barrenses, escrito por um dos filhos do homenageado. Episódio no clube recreativo, gente fina, discursos bonitos, coquetel, danças. Festa boa de reviver. Animação constante pela banda de música municipal. Procurei por João Adélia, o herói do contrabaixo de quantos peraltas tiveram infância na cidadezinha tranqüila, de gostosos peixes do rio Maratoan. Trouxeram-me o tocador, morenão, dentes alvos, magro, andava já em maré de magrém, doente, desanimado. Não bebia mais a boa pinga e estava separado do seu querido bombardão de tantas lembranças de tempos antigos, nos forrós poeirentos, nos bailes familiares do sobrado da Prefeitura, dos festejos religiosos, das solenidades cívicas, das recepções de gente importante nas visitas à cidade de povo humilde. Não era possível João Adélia sem o instrumento de sopro. Corpo e alma os dois, inseparáveis. Carne e músculos. Irmãos siameses quase. À mesa de honra, na festa, onde me encontrava, sentou-se o amigo desde os instantes de ouro da infância ele já nos oitenta de idade. A imagem do bombardão do seu músico habilidoso fixou-se no meu subconsciente. Pelo anos adiante, nunca pude ver e ouvir contrabaixo que não enxergasse, com o instrumento metido pela cabeça e repousado no ombro largo, dedos direitos nas teclas provocantes das sonoridades mais altas e bem surdas, o João Adélia, olhos avermelhados de fogosa pinga, animando a minha infância. Conversei muito com ele o ano passado. Dei-lhe boa ajudazinha. O negro velho andou perto de chorar. De mim, chorei muito com o coração, nas lembranças do menino ao lado de João Adélia, no rumo da igreja, a banda a alegrar as tardes da minha terra. João Adélia morreu. Barras perdeu um pedaço das cousas boas do seu passado. Perdeu o músico que alegrou moças e rapazes mais de meio século. Barras ficou mais pobre. Foi-se o seu grande poeta do bombardão inimitável. A. Tito Filho, 27/05/1989, Jornal O Dia JOÃO ADÉLIA - II A banda de música de Barras, nos meus tempos de menino, tinha João Adélia no sopro do bombardão. Ainda jovem ele dominava o instrumento com pericia e arte. Era de ver e de aplaudir o músico estimado soprando no bocal do aparelho metálico também chamado de contrabaixo por cuja boca enorme saía o som grosso, abafado, de roncos curtos e intercalados. Os artistas humildes formavam em coluna por três e João Adélia na frente, olhos avermelhados de boa pinga derramada pelo gogó, antes das tocatas. Dias de novenas, no tempo dos festejos em honra de Nossa Senhora da Conceição, os integrantes da orquestra simples e modesta vestiam o fardamento bonito e bem lavada e passado na goma, para que ficassem durinho nas pernas dos homens. Cedo ainda, estavam no templo católico enfeitado e no adro se assentavam em bancos toscos de madeira. De vez em quando, executavam composições alegres, cercados os molecotes embevecidos com a sapiência dos seus ídolos caboclos. Iniciada a reza pelo vigário, fazia-se silêncio. Os músicos então praticavam o processo de esvaziar os instrumentos de sopro do cuspe acumulado no interior. Igreja cheia de gente alta e de matutos vindos de lugares próximos e distantes. Novenas de muita reza. Na hora da apresentação do Santíssimo Sacramento, antecedida das campanhas que mandavam ajoelhar, os músicos, de pé, executavam um dobrado entusiástico. No final, a bênção dos fiéis. Primeiro, padre Uchoa, joelhos no chão, com o rebanho, recitava a oração invocativa do Onipotente, assim: Deus e Senhor Nosso, protegei a nossa Igreja, dai-lhe santos pastores e dignos ministros. Era magnífico. Minhas estradas me levaram a outros mundos. Teresina, Fortaleza, Rio. Nunca mais revi João Adélia. As férias estudantis de fim de ano eu as gozava no velho Marruás, depois Porto. Antes tomou o nome de João Pessoa, uma comunidade de boas almas que possuíam banda de música própria chefiada pelo maestro competente na música e na cachaça, um dos povoadores de minha mocidade, o João Burundunga. Só em 1947 eu teria um encontro com João Adélia, na mesma dócil e afetiva Barras nos dias que não voltam mais. A. Tito Filho, 23/05/1989, Jornal O Dia JOÃO ADÉLIA - I Menino de calças curtas, na minha cidadezinha de Barras, eu muito me divertia nas festas da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, que se encerrava no dia 08 de dezembro de cada ano. Eram nove dias de novenas, celebradas pelo padre Uchoa, sacerdote de muitos amigos e que fazia os novenários em várias cidades do interior. No tempo dos festejos, muita gente. Depois das rezas na igreja, havia os animados leilões, com jóias oferecidas e arrematadas pelos fiéis em louvor da santa. A gente gostava dessa época, principalmente a meninada travessa do meu tope. Pelas cinco da tarde, já eu estava banhado e de fatiota bonita, e me dirigia ao largo da matriz. Comprava rebuçadas que as fazedoras da guloseima faziam em casa e mandavam vender embrulhados em papel de seda. Eram dez balas gostosas numa tira só e cada qual separada da outra pelo embrulho torcido. Custava um tostão ou cem réis, como se denominava a mais humilde moeda metálica brasileira nesses recuados anos a da minha infância. A grande animação dos festejos estava, porém, na banda de música. Pouco mais das cinco da tarde o bombo chamava os músicos. Fazia-se pequeno ensaio, um por experimentando os instrumentos do seu mister. Assim rumavam para a igreja, pois a novena se iniciava às sete horas. A garotada acompanhava a banda, com entusiasmo, admirando os tocadores mágicos que executavam músicas tão bonitas. Lembro-me de Simplício Paquinha, magro, esguio, tocador de PIFE, denominação popular desse instrumento soprado por uns buraquinhos. Não sei se a memória me trai, mas acho que da banda fazia parte o Paulino, negro novo, batedor de pratos. Tinha um defeito: umbigo se mostrava direitinho como se fosse um pequi, grandão, imenso. Minha impressão maior vinha de João Adélia, o meu herói do bombardão, instrumento de boca enorme e sons baixos como roncos surdos e abafados. João Adélia ainda hoje povoa as lembranças que guardei de Barras, cidadezinha do meu nascimento, pequena, de uma comprida rua, o largo da matriz, e uns becos feios, como o da Tripa. Adélia é outra história. A. Tito Filho, 20/05/1989, Jornal O Dia Crônicas coligidas pelo historiador Jordan Bruno, para o Acervo A. Tito Filho, blog que reúne toda a produção em crônica do "Cronista da Cidade Amada".https://acervoatitofilho6.blogspot.com/

  • Barras em memória: série de podcast revisita arquivos do Museu Virtual de Barras do Marataoã

    Histórias que o tempo quase levou — mas a voz resgata. Entre retratos, documentos e lembranças que atravessam gerações, o podcast Barras em Memória abre as portas do passado para iluminar o presente. Cada episódio é um encontro com personagens, lugares e acontecimentos que moldaram a identidade de Barras do Marataoã. Dê o play e escute o eco da história.

  • O casarão da família Barros: marco na arquitetura de Barras do Marataoã

    Reinaldo Barros Torres - da ALVAL À sombra da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde o vento trazia o cheiro das águas do Rio Marathaoan, o ano de 1950 marcou o início de uma lenda de pedra, vergalhões de ferro, cimento e cal em Barras, tradicional cidade do norte do Piauí. O patriarca Raimundo de Sousa Barros, não via apenas um terreno castigado por dezenas de elevações de barro com cupins de formigueiros; ele enxergava o alicerce de um império familiar. Enquanto a cidade de Barras pulsava timidamente entre as ruas David Caldas e General Taumaturgo de Azevedo e nas laterais da Igreja Matriz. Aquele trecho onde seria a nova morada nos fundos da Igreja era onde Senhor Barros imaginava grandes os sonhos da vida. Na vizinhança, o casarão do poeta Otávio de Castro Melo, irmão do governador Leônidas de Castro Melo, conferindo ao lugar um ar aristocrático. Para erguer seu sonho, Raimundo Barros não poupou esforços. A construção tornou-se o assunto das calçadas: exatos 1187 sacos de cimento foram consumidos para dar forma às paredes robustas e ao destino da linhagem. Cada saca de cimento que chegava era um desafio à logística da época e uma afirmação de permanência. À medida que os montes de barro dos formigueiros davam lugar aos andaimes, a estrutura se erguia soberana. O casarão não era apenas uma moradia, mas um triunfo da nova arquitetura barrense. Quando as portas finalmente se abriram, o cenário havia mudado: o que antes era um terreno de pouco valor tornara-se o epicentro de uma nova era urbana. Nos finais de tarde e início de noite, era comum dezenas de jovens se postarem na Praça Senador Joaquim Pires, em frente ao casarão, para apreciarem a novidade da cidade, e claro, para ouvirem as mais belas canções da época tocadas via discos de vinil, numa radiola alemã comprada em Recife por Raimundo Barros. Hoje, o Casarão da Família Barros permanece como um guardião silencioso da história local. Suas paredes guardam o eco das prosas de meados do século XX e o legado de um homem que, com mil cento e oitenta e sete sacos de cimento, cimentou para sempre o nome de sua família na arquitetura e na memória de Barras - também como próspero comerciante, já que ao lado do casarão, edificou outro prédio onde instalou a "Casa Barros", loja especializada na venda de tecidos e mobília doméstica. (*) Texto de Reinaldo Barros Torres, escritor membro da Academia de Letras do Vale do Longá - ALVAL

  • Memória e identidade: palestra de Elmar Carvalho destaca legado de historiadores em tributo a Barras

    Lívia Maria - Free Lancer ao Museu Virtual de Barras Em uma das edições do projeto Tributo à Cidade Natal, a memória histórica de Barras do Marataoã foi o eixo central da palestra conduzida pelo poeta e ensaísta Elmar Carvalho. O encontro reuniu referências da cultura local para refletir sobre os nomes que consolidaram a historiografia do município, com ênfase nas trajetórias de Wilson Carvalho Gonçalves e Antenor Rego Filho. Durante a exposição, Elmar Carvalho destacou que a compreensão do presente de Barras passa necessariamente pelo trabalho rigoroso de seus historiadores. Nesse contexto, a obra de Wilson Carvalho Gonçalves foi apresentada como um marco incontornável para os estudos piauienses. Autor de títulos de referência, como o Dicionário Histórico-Biográfico Piauiense e o Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado, Wilson é reconhecido por sistematizar informações que hoje servem de base para pesquisadores, professores e estudantes. Seu trabalho, desenvolvido ao longo de anos de pesquisa individual, foi descrito como um esforço enciclopédico de preservação da memória regional. A palestra também ressaltou o vínculo de Wilson com sua terra natal. Parte significativa de sua produção foi dedicada ao mapeamento de figuras ilustres de Barras, reforçando a importância da cidade no cenário cultural do estado. Além da atuação intelectual, o historiador teve papel relevante na administração pública e acadêmica, tendo integrado a Academia Piauiense de Letras e exercido funções como a chefia da Escola Superior de Administração Fazendária no Piauí. Na abordagem sobre a contemporaneidade, Elmar Carvalho destacou a atuação de Antenor Rego Filho como um dos principais guardiões da memória de Barras. Com forte presença institucional, Antenor consolidou-se como liderança cultural ao presidir, por três mandatos, a Academia de Letras do Vale do Longá, sendo responsável por uma conquista histórica: a sede própria da entidade no município. Sua obra Barras, Histórias e Saudades foi apontada como referência essencial para quem deseja compreender a formação da cidade. No livro, Antenor reconstrói a trajetória local desde os seus primórdios, abordando personagens fundadores, costumes, manifestações folclóricas e o patrimônio arquitetônico. A palestra também enfatizou sua atuação como sócio fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Barras, entidade dedicada à salvaguarda da identidade cultural barrense. Ao final, Elmar Carvalho sintetizou a relevância desses dois nomes para a continuidade da memória coletiva. Segundo ele, o trabalho de Wilson Carvalho Gonçalves e Antenor Rego assegura que a história de Barras — do século XIX aos dias atuais — permaneça acessível e viva para as futuras gerações. O tributo, mais do que uma homenagem, reafirmou o papel da historiografia como instrumento de pertencimento e valorização cultural. Ouça O Podcast Barras do Marataoã em Memória, analisando a palestra de Elmar Carvalho. https://www.podbean.com/ep/pb-gz53d-1aab09b

  • Theodoro Castello Branco e A harpa do Caçador

    Theodoro Castello Branco é um nome referencial da literatura piauiense da segunda metade do século XIX. Viveu toda a existência na Vila de Barras do Marataoã, publicou um livro que está entre os clássicos da literatura piauiense, de título A Harpa do Caçador, festejado desde a sua publicação, que conta com três edições, uma edição ainda do século 19, segunda edição organizada pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, na década de 90, e uma edição mais recente da Academia Piauiense de Letras, uma vez que a obra integra a coleção centenária. Quem vai falar sobre a poesia de Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco é o professor e crítico literário Carlos Evandro Martins Eulálio, da Academia Piauiense de Letras. O professor Carlos Evandro é um veterano dos estudos de crítica literária no Piauí e nos legou, ao longo dos últimos 30, 40 anos, um substancial número de ensaios sobre os principais escritores de nossas letras. https://www.youtube.com/watch?v=SAYTJ0MjJzo

  • David Moreira Caldas: um perfil Biográfico

    https://www.youtube.com/watch?v=SqrOZKIi7Yg

  • Barras, 184 anos: Museu Virtual de Barras do Marataoã lança Tributo à Cidade Natal 2025.

    Pelo quinto ano consecutivo, sob organização do pesquisador e literato da Academia Piauiense de Letras Dílson Lages Monteiro, ocorre Tributo à Cidade Natal, no mês em que o município de Barras do Marataoã aniversaria. A iniciativa, agora integrada ao Museu Virtual de Barras do Marataoã, é uma união de vozes para resgatar memórias e a histórias do Município, especialmente de seu passado mais remoto. Neste ano, a participação nas atividades será certificada com 12h de palestras pelo Museu Virtual de Barras do Marataoã. Para obter a certificação, é necessário preencher a ficha de inscrição a seguir: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdCCuGU2IsEI-V2VsbqeWnZzslaQ5hs-4b3Z0HmKnJFcBD79g/viewform?usp=header Além de responder ao conjunto de 50 questões sobre as palestras veiculadas, a emissão está condicionada à índice de acertos a partir de 60 por cento. O questionário será hospedado em museudebarras.com.br no dia 30 de setembro e encaminhado aos e-mails cadastrados e os inscritos terão 15 dias corridos para responder às questões. A palestras e atividades acontecem, geralmente, ao vivo, desde 12 setembro, às 20h,  e são informadas diariamente no blog do Museu Virtual de Barras do Marataoã, às 15h. Em 24 de setembro, quando Barras faz 184 anos, as palestras serão reproduzidas ininterruptamente por 24 horas na rádio web zonadamatafm.com.br   Veja a programação de Tributo à Cidade Natal 2025.   Palestras: 1.Torquato Torres: A família Barboza Ferreira – contribuições à história de Barras do Marataoã   2.A Barras do Marataoã de Leônidas Mello: o cotidiano das três primeiras décadas do século XX. Dílson Lages Monteiro (APL/MUSEU VIRTUAL DE BARRAS)   3.David Caldas: professor, jornalista e homem público Reginaldo Miranda (APL/IHGPI)   4.Av. Pinheiro Machado: coração comercial de Barras do Marataoã Francisco de Assis Alves Oliveira   5.A Poesia de Teodoro Castello Branco Carlos Evandro Martins Eulálio (APL)   6.A Criação, A Harpa e A lira Póetica (Os Castello Branco: três poetas na história) – Valdemir Miranda (Secretário da Educação de Esperantina-PI)   7.Babaçu em foco: um mapeamento essencial Dra. Valdira de Caldas Brito Veira (IFPI/ ALVAL/ ACPI)   8.Os Castello Branco Ontem e Hoje Dílson Lages Monteiro (APL/MUSEU VIRTUAL DE BARRAS)   9.A natureza de Barras nos Haicais de Dilson Lages Conversa com o autor.   10.Antepassados patrilineares de meu pai (Rego Barra/ Castello Branco/Rodrigues de Carvalho/Borges Leal) Dr. Gilberto de Abreu Sodré Carvalho   11.Barras do Marataoã no "Diário incontínuo" Elmar Carvalho (APL/ALVAL/APAL/ACALE/AMAPI)   12.O centro de Barras em imagens: uma conversa polissêmica Dílson Lages Monteiro (APL) 13. Os Rebello: a gênese de uma família em Barras do Marataoã Frederico A. Torres Rebello (ALVAL/AHMOCAMPI) 14.Ezequias Gonçalves Costa: um perfil biográfico Dr. Nelson Nery Costa (UFPI/APL/Conselho Estadual da Cultura) 15.Dr. Aécio Carvalho: o médico, o professor, a vida familiar. Manoel Carvalho Monte Filho (UFPI/ALVAL) 16.Rosa da Cunha Barros: uma educadora que marcou Barras do Marataoã Reinaldo Barros Torres (ALVAL) 17.ATIVIDADES CULTURAIS ·  “Sem palavras”: técnica e arte no média-metragem barrense  Bate-papo com os cineastas Joaquim Neto e prof. Marcos Valle Mediação: Dílson Lages   ·  Representações de Barras do Marataoã em poemas-canções de Francy Monte. Bate-papo com o poeta e compositor Francy Monte Mediação: Dílson Lages   ·  Memórias Sonoras – gênese e criação Bate-papo com o cronista Chagas Botelho Mediação: Dílson Lages   ·  Leituras compartilhadas de poemas e crônicas sobre Barras – organização do Museu Virtual de Barras do Marataoã O morro da casa-grande, capítulo a capítulo em narração do autor, Dílson Lages   ·  Lançamento oficial do Museu de Barras do Marataoã   Obs.: programação sujeita a alterações.   A HISTÓRIA DE BARRAS DO MARATAOÃ  – “A ocupação da faixa de terra que compreende a antiga Barras se iniciou em meados do século XVIII, tendo a primeira capela que dá início ao povoamento construída em 1759. Um dos primeiros colonizadores foi o fazendeiro bahiano Miguel Carvalho de Aguiar, aqui estabelecido a partir de vários condicionamentos do contexto da época, entre os quais, a ligação familiar com Bernardo  Carvalho de quem era filho. Bernardo fora o fundador de Bitorocara, hoje Campo Maior, região da qual Barras fazia parte, e com a família Carvalho de Almeida, entre os quais os padres Miguel, Tomé e Inocêncio de Carvalho. A organização do núcleo urbano se prolonga, sucessivamente, por meio de nomes como Manoel Carvalho, Manoel José da Cunha  e por laços de parentesco a Francisco Borges Leal e sua descendência. A esse tempo, algumas fazendas vão então se formando na extensa área que compreenderia Barras, uma faixa de terras que ia, na primeira metade do século IXX, de Cabeceiras a Luzilândia, margeando a porção esquerda do Rio Parnaíba, no sentido norte. Barras do Marataoã construiria uma forte história de tradições que se manteria firme até meados de 1950, quando os referências econômicos e a representatividade política, social, cultural e financeira do município, no plano estadual e nacional, sofrem severas mudanças. Sua história de tradições, a abundância de recursos naturais e o desejo de sua gente de construir uma sociedade justa e de igualdade permanecem, porém, imorredouros. Por mais um ano, o Tributo à Cidade Natal vive memórias de narrativas que se cristalizaram como representação da identidade e da construção do tecido social, sempre se reinventado em busca de uma cidade, a cada dia melhor, mais participativa, inclusiva e humana” (Dílson Lages Monteiro). ACESSE EDIÇÕES ANTERIORES DE TRIBUTO À CIDADE NATAL https://www.museudebarras.com.br/blank-5 Acompanhe a programação de Tributo à Cidade Natal 2025 pelo canal Tributo à Cidade Natal no You Tube ✨ Convite especial aos barrenses!  ✨ Você já conhece o espaço “Tributo à Cidade Natal” ?É lá que estão reunidos vídeos que resgatam memórias, histórias, tradições e a beleza de Barras.Cada produção é um pedaço vivo da nossa identidade, um elo entre o passado, o presente e o futuro da nossa terra. 🎥 Ao seguir os vídeos, você:✅ Revive lembranças que marcaram gerações;✅ Descobre curiosidades e personagens que fizeram a história da cidade;✅ Reforça o orgulho de ser barrense. 👉 Siga, compartilhe e faça parte desse movimento de valorização da nossa cidade natal. Porque lembrar Barras é manter viva a nossa essência! https://www.youtube.com/@tributoacidadenatal7570 (ASCOM MUSEU VIRTUAL DE BARRAS DO MARATAOÃ)

  • João Paulo Diniz e seu genro José Pires Ferreira, no espaço colonial

    [Gilberto de Abreu Sodré Carvalho] Escrevo com informações de Edgardo Pires Ferreira (2013) e de Reginaldo Miranda ( João Paulo Diniz, pioneiro da indústria de charque no Piauí, no portal Entretextos, em 2017). João Paulo Diniz nasceu em Portugal. Faleceu depois de 1792, provavelmente em Parnaíba. Veio do Reino para o Maranhão no final da década de 1750. Com a expulsão dos jesuítas do Brasil, em 1759, por ordem do marquês de Pombal, João Paulo Diniz ocupou a fazenda da Santa Cruz das Pedras Preguiças e respectiva casa-grande, propriedade dos padres em Barreirinhas, no Maranhão. Foi fazendeiro de criação, agricultor, industrial e comerciante. Antes de 1758, ele já se encontrava no que logo seria a vila da Parnaíba, no Piauí, criada oficialmente como vila de São João da Parnaíba em 18 agosto 1762. Em 1768, foi nomeado, pelo Capitão-General Dom Fernando da Costa de Ataíde Teive, para o cargo de administrador da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão, no vale do rio Parnaíba, estabelecendo-se na vila de São João da Parnaíba. Por volta desse mesmo ano, o de 1768, João Paulo Diniz tinha convidado seu parente Domingos Dias da Silva, radicado no Rio Grande do Sul, a entrar nos negócios de charqueadas no Piauí. Em 1769, é encarregado, pelo mesmo Dom Fernando, de ajudar no abastecimento de carne de Belém do Pará, que consumia entre 28.000 e 30.000 bois por ano. Em tudo está evidente o papel de João Paulo como protagonista da indústria de charque, seja no então Estado do Grão-Pará e Maranhão, seja no Estado do Brasil, ao sul. Logo, em 1770, abria novos caminhos para trazer seus rebanhos da região de Balsas e Pastos Bons, no sul do Maranhão, onde possuía várias fazendas de gado, até a foz do rio Parnaíba. Organiza açougues e oficinas de carne seca na foz do rio Balsas, para onde vaqueiros tocam imensas boiadas, que ali eram abatidas; o sal vinha rio acima. A carne, depois de retalhada e salgada, era transportada em barcos pelo rio Parnaíba abaixo, até o Porto das Barcas, de onde seguia em sumacas para Belém. Tornou-se, rapidamente, o maior fazendeiro da região em geração de receita, com a verticalização do processo produtivo: desde o boi em pé até o charque, o couro e os solados para sapatos e botas. De rigor, foi o pioneiro da industrialização da carne-seca em todo o Brasil, precedendo nessa atividade o Ceará e o Rio Grande do Sul. Seus produtos eram enviados para Alcântara, São Luís, Belém, Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Seu couro e seus solados de couro iam para o Reino. João Paulo Diniz foi ainda pioneiro na produção do algodão no Maranhão. Em 24 de abril de 1776, ele firmou contrato com a Câmara Municipal de Tutóia, no Maranhão, para o arrendamento da ilha do Caju, onde introduziu o gado vacum. Sabe-se que João Paulo Diniz, com outros, desenvolveu a feitoria do Porto das Barcas, antes Porto Salgado, em Parnaíba, para a comercialização e exportação, especialmente, da carne-seca. No que importa a atividade militar, que todos os poderosos deviam desenvolver àquele tempo, João Paulo foi capitão-mor de Parnaíba. Em 9 de março de 1777, foi-lhe passada a patente de mestre de campo da cavalaria de ordenanças do Piauí. Na qualidade de militar, foi membro da Junta Trina de Governo da capitania do Piauí, em 1788. João Paulo Diniz casou-se em São Matias de Alcântara, Maranhão, com Rosa Maria Joaquina Pereira de Castro, nascida em São Matias de Alcântara e falecida em Parnaíba. Rosa Maria seria herdeira de abastado comerciante estabelecido em Alcântara. Em Parnaíba, João Paulo Diniz e esposa construíram a capela-mor da igreja matriz de Nossa Senhora da Graça, na Praça da Graça, depois de terem mandado refazer a nave central, o teto e o forro. Em 1777, a Cúria metropolitana de São Luís autorizou a bênção do templo reformado. No ano seguinte, o casal doou à paróquia uma casa na praça da igreja. O empreendedorismo de João Paulo Diniz era estranhado pelas autoridades. O Capitão-General Dom Fernando da Costa de Ataíde Teive, acima referido, escreveu ao seu subalterno o governador do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, em 1770: Um dos homens de negócio da Parnaíba, chamado João Paulo Diniz, veio aqui trazer duas sumacas de carne-seca para a Fazenda Real, tendo-se-lhe encarregado este transporte o ano próximo passado. E havendo na referida Vila alguma implicância como ele me informa, sucedeu duvidarem-lhe um piloto, que necessitava, para dar rumo a uma das embarcações, o qual, com efeito, recebeu a bordo dela, não obstante os embaraços que achou. Agora, porém, receia que na mesma Vila lhe façam alguma alcavala, de que saia prejudicado. E para evitar qualquer acontecimento contrário ao giro de seu negócio, passará V. Sa., as ordens que forem conducentes a este fim, visto andar o dito homem em serviço de S. Maj., e de tanta ponderação, que dele se deveu muita parte desta navegação até o presente ignorada (CABA Cap. Livro 2. 2.ª Parte. p. 51-51v). João Paulo Diniz foi o pioneiro da indústria de charque no Piauí, e também em toda a América Portuguesa. Antecedeu a Domingos Dias da Silva, que, logo mais tarde, iria ser conhecido na indústria e comércio parnaibano, sendo mais festejado que João Paulo, em vista da abundância material a que atingiu. Faleceu em ano ainda ignorado, provavelmente em sua casa, na antiga vila de São João da Parnaíba.   ***   Conforme Pires Ferreira (1987) escreve, José Pires Ferreira nasceu em 1757, no Recife, e morreu no povoado de Barra do Longá, no Piauí. Foi comerciante em Pernambuco e ia duas ou três vezes ao ano ao Piauí, em pequenos navios carregados de mercadorias (tecidos, sapatos, perfumes, porcelanas, especiarias etc.). Vendia ao longo da costa nordestina até chegar à cidade de Parnaíba, grande centro do comércio da carne seca. É importante esse dado, uma vez que a carne seca poderia ser trocada pelas mercadorias de José Pires Ferreira, que a transportaria em sua sumaca para o Recife, no retorno. Ainda a acrescer, como comentário meu, que José Pires Ferreira era um mercador a grosso, ou seja, não era comerciante de porta de rua ou de varejo, como hoje se diria. Casou-se em 1786, em Buriti dos Lopes, Piauí, com Mariana de Deus Castro Diniz, nascida na fazenda de Santa Cruz das Pedras Preguiças (Barreirinhas, Maranhão), falecida na fazenda de Santo Agostinho, no atual município de Magalhães de Almeida, Maranhão. Mariana de Deus Castro Diniz era filha de João Paulo Diniz e Rosa Maria Joaquina Pereira de Castro. Como informa Pires Ferreira (1987), Mariana de Deus estava viva em 21 de novembro de 1832, quando do batismo de Liberato, filho de escravos de seu filho João de Deus Pires Ferreira, conforme assentamento da igreja matriz de Parnaíba. O casal José e Mariana de Deus foi residir primeiramente na propriedade de Santa Cruz das Pedras Preguiças. Essa herdade tinha sido do pai de Mariana de Deus, o muito rico João Paulo Diniz. Com o tempo, José Pires Ferreira e Mariana de Deus Castro Diniz foram ter domicílio na cidade de Parnaíba, mas também residência na Barra do Longá, em Buriti dos Lopes, na confluência dos rios Longá e Parnaíba, de onde José controlava o seu comércio. Penso que, durante sua vida, cada vez mais sua ocupação se tenha fixado no gado, na carne-seca e no couro. A sua ligação com o Recife, mediante a ida e vinda de sumacas com mercadorias, deve ter esmaecido e cessado. O rio Preguiças, logo acima mencionado, foi assim chamado por ser lenta a sua correnteza. Desde sua foz até a Santa Cruz das Pedras Preguiças, permitia a navegação de embarcações médias. Indo para cima da fazenda, quando o volume de água se reduzia, os barcos tinham de ser de pequeno calado. A terras da região eram fertilíssimas e o clima agradável pela proximidade do mar. Havia chapadas para a criação de gado vacum que, penso, poderia ser vendido para carne-seca ou transformado nesse produto por ordem do próprio José Pires, para ser levada à cidade de Parnaíba. A fazenda de Santa Cruz das Pedras Preguiças era parte das antigas terras da Companhia de Jesus, sendo os escravos negros abundantes e decisivos para a geração de muita produção. No ano de 1795, José Pires Ferreira se encontra em Barra do Longá, ocasião em que estava na posse de terras herdadas por sua esposa, Mariana de Deus, e outras terras devolutas em torno da lagoa do Bacuri e também ao longo do rio Parnaíba, do lado maranhense. Também nesse referido ano, tinha o domínio das terras herdadas por seu pai, o notável mercador Domingos Pires Ferreira. A par dessas terras referidas, José Pires Ferreira foi obtendo a posse de grandes áreas na margem piauiense do rio Parnaíba. É preciso tratar de Domingos Pires Ferreira para melhor entender o filho José Pires Ferreira, e o que significa o aporte Pires Ferreira. Domingos Pires Ferreira nasceu no lugar Bustelo, freguesia de Santa Madalena da Vila da Ponte, Chaves, Portugal, em 1718. Chegou ao Recife, em 1725, aos sete anos de idade, para estar sob a guarda do tio materno Manuel Alves Ferreira, comerciante, ou como diziam então, mascate. Casou-se, no Recife, em 05 de fevereiro de 1748, com Joana Maria de Deus Correa Pinto, nascida no Recife, filha do comerciante e familiar do Santo Ofício Antônio Correa Pinto e de Leandra da Costa Lima. Domingos Pires Ferreira faleceu em 1792, no Recife, Pernambuco (Pires Ferreira, 1987). Os filhos homens de Domingos Pires Ferreira, como Antônio, Domingos, Manuel, João de Deus, Joaquim e Gervásio, foram estudar em Coimbra. José Pires Ferreira não seguiu para Coimbra para estudar, mas, com certeza, teve boa educação no Recife. Ficou no Nordeste, especialmente no Piauí. Domingos adquiriu fazendas de gado na região norte do Piauí, no território do então município de Parnaíba. Observe-se que a razão para o interesse em carne bovina e, consequentemente, na carne-seca estava no enorme movimento humano no centro do Brasil, com a atividade mineira do ouro. O valor relativo da carne cresceu enormemente durante o século 18, ao ponto de fazer fortunas. O ouro dos mineradores pagava muito bem. José Pires Ferreira teve um primo muito importante, na mesma faina da ocupação econômica do Nordeste, sendo muito provável, se não certo, que os dois tenham se encontrado nos negócios de gado, sal e carne seca. Esse primo de José foi Domingos Affonso Ferreira, o qual inaugurou o apelido duplo “Affonso Ferreira”.  Domingos Affonso Ferreira nasceu a 14 de fevereiro de 1737, no lugar Bustelo, freguesia de Santa Maria Madalena da Vila da Ponte, Portugal. Faleceu a 05 de fevereiro de 1804, no Recife, sendo sepultado na capela da Ordem Terceira de São Francisco, onde era irmão e ministro. Domingos Affonso Ferreira era filho de Simão Affonso e de Isabel Pires (nascida no lugar Bustelo), irmã de Domingos Pires Ferreira. Domingos Pires Ferreira e Isabel Pires eram filhos de Domingos Pires (do Penedo), batizado em 6 de abril de 1681, em Bustelo, e de Domingas Gonçalves Ferreira, nascida na freguesia de São Tomé da Parada do Outeiro, Chaves. Eles se casaram em 6 de outubro de 1700. Os irmãos Domingos e Isabel eram netos paternos de Antônio Pires e de Isabel Ferreira, do lugar Bustelo. Netos maternos de Pedro Gonçalves e de Maria Álvares, moradores de Parada do Outeiro, casados em 4 de maio de 1670. Domingos Affonso Ferreira, filho de Simão Affonso e Isabel Pires (irmã de Domingos Pires Ferreira), chegou ao Recife, Pernambuco, para morar na casa do tio Domingos Pires Ferreira, na loja de fazendas de que esse último era proprietário. Com a ajuda do tio, Domingos Affonso Ferreira prosperou e teve sua própria loja. Chegou a ser um dos homens mais ricos de Pernambuco em sua época. Como pode ser pesquisado em www.parentesco.com.br , fundado por Edgardo Pires Ferreira, Domingos Affonso Ferreira e o seu genro Bento José da Costa foram sócios em grandes empreendimentos rurais, principalmente na pecuária no Rio Grande do Norte. Domingos Affonso Ferreira recebeu duas cartas de data e sesmaria sobre partes do sítio chamado Madeira e do Amargoso nas Salinas, e a outra de sobras de terra do sítio da Entrada e das terras de Nossa Senhora do Carmo, na barra do Rio Mossoró. Domingos Affonso Ferreira e seu genro Bento José da Costa adquiriram as terras de dona Francisca Rosa da Fonseca, com as fazendas de gado que possuía no sertão e na barra do Rio Assú, que incluía Cacimbas do Viana (hoje, Porto do Mangue) e a atual Macau, além de várias pequenas ilhas, como a desaparecida ilha de Manuel Gonçalves. Sobre a importância dos Pires Ferreira, no qual se inclui o ramo “Affonso Ferreira”, observa-se que a junta governativa de Pernambuco, por ocasião da Revolução Pernambucana de 1817, comportava vários parentes de Domingos Affonso Ferreira: Filipe Nery Ferreira, seu filho; Gervásio Pires Ferreira, seu primo e irmão de José Pires Ferreira; Bento José da Costa, seu genro; e o padre Laurentino Antônio Moreira de Carvalho, que era Secretário da Junta, possivelmente seu cunhado, pois o sogro de Domingos foi o capitão Laurentino Antônio Moreira de Carvalho, mesmo nome do padre. Sobre os empreendimentos rurais de Domingos Affonso Ferreira e Bento José da Costa, no Rio Grande do Norte, e sobre as escrituras, inventários e testamentos destes, deve-se consultar Ilha de Manoel Gonçalves, vida e morte,  de João Felipe da Trindade, de 2016. Além disso, o testamento de Domingos Affonso Ferreira encontra-se no Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano no Recife.   Assista à palestra no canal Tributo à Cidade Natal no You Tube.

  • Babaçu: um mapeamento essencial para Barras do Marataoã

    Esse foi o tema da palestra da professora do Instituto Federal do Piauí, a barrense Valdira de Caldas Brito Vieira, doutora em Agronomia e pós-doutora em sensoreamento remoto, ao Tributo à Cidade Natal 2025. O babaçu, além de elemento de identidade, constitui-se em elemento importante na vida econômica do Município. Leia transcrição de trecho da palestra da professora Valdira de Caldas: "(...) Nós fizemos levantamento de, acho, 64 municípios no estado todo. Municípios que teriam uma produção, que de alguma forma apresentavam uma produção do Babaçu. Mas era uma área muito grande. Terminamos fazendo alguma seleção e aqui dentro da área que a gente trabalhou, eram 42 municípios.  Dentro dessa seleção, nós tivemos que reduzir por conta das dificuldades. Nós mapeamos, de qualquer forma, 25 municípios. Então, 25 municípios foram mapeados em busca de área de Babaçu. Esse mapeamento foi feito com imagem de satélite. Nós usamos uma imagem de um satélite que se chama RapidEye. (...) A gente sabe que a cadeia produtiva do Babaçu é uma das mais representativas do Brasil. Tem uma área de entre 13 e 18 milhões de hectares, distribuídos em 279 municípios e 11 estados. Então, realmente é um trabalho de importância a questão do extrativismo do Babaçu. Muitas famílias sobrevivem dessa renda que é tirada do Babaçu. Então, aí dentro tem uma coisa que é social, que é muito importante e que a gente chamou atenção aqui nesse trabalho, a grande importância da sobrevivência dessas famílias que vivem a partir desses produtos e subprodutos do Babaçu. E hoje a gente está com preocupação cada vez maior. Nós temos associações. Segundo a Embrapa, o Babaçu é considerado um dos recursos extrativistas do Brasil e existem muitas pesquisas tratando já da fabricação de biocombustíveis, como biodiesel, bioquerosene, a partir do Babaçu, embora isso seja um tema que precisa ser muito estudado, porque, de qualquer forma, a gente tem que ter muita cautela para não prejudicar a parte ambiental. Bem, pessoal, vou passando aqui na parte de revisão bibliográfica. A gente vê um pouco da caracterização botânica do Babaçu. Eu vou me ater mais lá nos resultados. Então vou passando um pouco para vocês aqui sobre o Babaçu, um pouco sobre quais são as partes que são aproveitáveis do Babaçu. Na verdade, quando a gente diz que do boi aproveita até o chifre, do Babaçu se aproveita tudo também; tudo é possível de gerar um produto, e a gente trabalha muito com isso para, exatamente, gerar novos produtos farmacêuticos, cosméticos. Tudo isso é possível; todos esses são subprodutos do Babaçu. (...) Fizemos essa seleção aqui e decidimos trabalhar com 25 municípios. Aqui a gente tem a produção de 2006 a 2013, o período do trabalho. Percebemos os maiores produtores: Barras, Miguel Alves e União. Temos uma média que é a seguinte: Barras, de 819,88 toneladas, Miguel Alves, 821 e União, 715.Esperantina, com 324, Campo Largo, 208. Então, vai reduzindo a produção. Assista à palestra "Babaçu: um mapeamento essencial para Barras do Marataoã", ministrada pela professora Valdira de Caldas Brito Vieira.

  • 1795: Habilitação de gênere de Manoel Tomaz Ferreira e de seu irmão Antônio José de Sampaio

    Dr. João do Rêgo, autor de "O menino do Canto Escuro". Nota preliminar: o acesso a esse documento se tornou possível em face a pesquisas de dr. João do Rêgo, barrense, que generosamente o socializou para conhecimento de seus conterrâneos e pesquisadores interessados. Dr. João do Rêgo é advogado de longa data e autor de O menino do Canto Escuro. ***** Arquivo Público do Estado do Maranhão Setor de Códices - Fundo da Arquidiocese do Maranhão Lista nominal - nº 9 - Genere - Documento 1705 [fl.1] 1795 Habilitandos de genere                                          Antonio Joze de São Paio e seo irmam Manoel Thomaz Ferreira Autos de habilitação de genere Camera Ecc lesiastic a Escr iv am Beckman Autuam en to Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil sete centos e noventa e cinco aos oito dias do mez de Julho do dito anno nesta Cidade do Maranhão em o meu escriptorio autuei e preparei huns autos de inquirição de genere dos habilitandos acima nomeados, a que por comissão deste Juizo se procedeu na Freguesia de Campo-maior deste Bispado, e assim mais dous instrumentos de genere vindos do Arcebispado da Bahia e do Bispado de Pernambuco em virtude das Requisotorias expedidas deste mesmo Bispado do Maranhão. Tudo he o que adiante se segue e vai junto; Tudo he o que adiante se segue e vai junto; e para constar fiz este autuamento eu o Padre Joze João Beckman Escrivão da Camera Ecclesiastica que o escrevi. [fl.2] 1793 Vila de Santo Antonio de Campo-maior Autuamento de hum Mandado de inquirição de genere dos abilitandos Antonio Joze de Sam Paio e seo Irmão Manoel Thomas Ferreyra Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil sete centos e noventa e tres annos aos sette dias do mes de fevereiro do ditto anno nesta Villa de Santo Antonio de Campo maior, commarca da Cidade de Oeyras, Capitania de São José do Piauhy, e cazas de rezidencia do Muito Reverendo Vigario da Vara Miguel Lopes Madeyra [ilegível] aonde eu escrivão do seo cargo fui vindo, sendo ahy pello ditto me foi entregue hum Mandado de Comissão para se inquirirem testemunhas sobre a inquirição de genere dos Abilitandos Antonio Joze de São Paio e seo Irmão Manoel Thomas Ferreyra e hua certidão do dito Reverendo Vigario da Vara com hum rol de seis testemunhas nomeadas mandando-me autuasse junto com o ditto Mandado, preparasse e processasse para efeito de continuar os ditos das testemunhas por Elle nomeadas, o que visto por mim autuei e preparei e processei que he tudo o que adiante se segue do que para constar fis este termo eu Alexandre Rodrigues Lixboa escrivão Eccleziastico, que o escrevi. [fl.3] Mand ad o de segredo dos habilitandos Antonio Joze de Samp ai o e seo irmão Manoel Thomaz Ferreira João Maria da Luz Costa Conego da Cathedral desta Cidade do Maranhão, Comissario do S. Off. Provisor Vigario Geral e Governador do Bispado com Jurisdição Ordinaria no espiritual e temporal ad universitatem causarem por S ua Ex celenci a R everendissi ma Etc. Faço saber q’ Antonio Joze de Sampaio e seo irmão Manoel Thomaz Ferreira naturais da Freguesia de Santo Antonio da Vila de Campo maior deste Bispado, filha legitima de Francisco Xavier de São Euzebio do Bispado de Pernambuco e de Maria Barboza de São José do Arcebispado da Bahia, netos paternos de Manoel Duarte de Sampaio do Bispado de Coimbra e de Ignez Rodrigues da Costa do dito Bispado de Pernambuco; e maternos de Manoel Barboza Ferreira do Rosário, natural do Bispado do Porto e de Catharina Pereira da Silva do Arcebispado da Bahia; se pertendem habilitar de genere: portanto fiz passar o prezente Pelo qual mando ao Padre Serafim Pereira de Carvalho prezentemente encarregado do Officio Parochial da dita Freguesia de Campo Maior que com todo o segredo sem q’ nisso intervenha a parte ou outro por ella se informe [ilegível] da dita Freguesia. [...] João Maria da Luz Costa [fl.5] [...] não axei quem me informasse dos Avos paternos dos abilitandos mas sim dos maternos q’ são Manoel Barboza Ferreira do Rozario e sua mulher Catarina Pereira da Silva, informarão-me ser o pay dos abilitandos natural de Pernambuco e a may da Bahia e o dito Manoel Barboza dizia era natural do Bispado do Porto e sua mulher Catarina Pereira natural da Bahia e viverão sempre os sobreditos Pais e Avós maternos dos abilitandos nesta freguesia de sua fazendas de gados; sempre com boa nota, tidos e avidos por cristaons velhos, muito tementes a Deos e não me consta q’ nenhum deles incorresse en crime de Leza Magestade me forão penitenciados pelo Santo Officio; nem q’ fossem Ereges, infieis e Apostatas da Nossa Santa Fé e menos q’ incorrerem em infamia alguma, de fato ou de Direito nem de Judaísmo e nem outra nação infeta e por tais sempre forão tratados. E por me ser tudo constante e assino em fé de Parocho. Vila de Santo Antonio de Campo maior aos 2 de fevereiro de 1793. O Vig a rio Miguel Lopes Mad ei ra Rol das T es t emunh as 1   Ant oni o da Roxa Soares        4ª M ano el Borges Lial 2   Inacio Pinto da Cunha          5. Fran cis co Borges Lial 3   Joze Borges Cord ei ro            6. Bernardo Borges Lial [fl.6] Assentada Data: 07.02.1793 Local: Vila de Santo Antônio de Campo Maior, comarca de Oeiras, Piauí. Testemunha 1ª Antonio da Rocha Soares homem branco cazado, e morador nesta freguezia da Villa de Santo Antonio de Campo Maior deste Bispado de São Luis do Maranhão, de idade disse ser setenta e quatro annos pouco mais ou menos, que vive de sua fazenda de gados vacum e cavallar e suas lavouras testemunha a quem o Muito Reverendo Vigario da Vara Miguel [fl.6v] Lopes Madeyra [ilegível] defferio o juramento dos Santos Evangelhos em hum livro delles em que pos Sua mão direyta e prometteo dizer verdade do que soubesse e lhe fosse preguntado e co costume disse nada. [...] Dice que conhecia muito bem a Antonio Joze de Sam Paio e Seo irmão Manoel Thomas Ferreyra, pois erão nascidos e baptizados nesta freguezia de Santo Antonio de Campo maior deste Bispado de São Luis do Maranhão e a rezão do seo conhecimento he conhece-las desde meninos e mais não dice. Do terceiro dice que conhece muito bem a Francisco Xavier de Santo Euzebio, já defunto, e conhece a Maria Barboza de São José inda viva, pais dos Abilitandos, aos quais viverão sempre de suas fazendas de gados e o dito Francisco Xavier de Santo Euzebio foi Mamposteiro das Bullas da Santa Cruzada e que o Pay dos Abilitandos era natural do Bispado de Pernambuco e a May dos ditos he natural do Archebispado da Bahia e a rezão do seo conhecimento he por ter elle testemunha tido conhecimento e a amizade com os pays dos abilitandos desde que chegara nesta terra ou freguezia e mais nao dice deste. Do quarto artigo dice que não tem nenhum conhecimento e noticia dos avós paternos dos abilitandos mas sim conheceo muito bem [fl.7] a Manoel Barboza Ferreyra do Rozario, já defunta, que dizia era natural das partes de Lixboa, e conhece a sua mulher que inda he viva Catharina Pereyra da Sylva que dis he natural do Archebispado da Bahia da freguezia de Agoafria, avos maternos estes dos Abilitandos e a rezão do seo conhecimento he a amizade q’ sempre teve a muitos annos com elles e nada mais dice deste. [...] Do septimo dice que os Abilitandos e seos Pais e avós nunca cometterão crime de Leza Magestade Divina. [...] [fl.7v] Testemunha 2ª Ignacio Pinto da Cunha homem branco cazado morador nesta freguezia de Santo Antonio de Campo Maior e de idade dice ser de Secenta e oito annos pouco mais ou menos, que vive de suas fazendas de gado, testemunha a quem o Muito Reverendo Vigario da Vara Miguel Lopes Madeiro [ilegível] defferio o juramento dos Santos Evangelhos em hum livro delle em que pos Sua mão direita e prometteo dizer verdade do que soubesse e lhe fosse preguntado e do costume dice nada. [fl.9] Testemunha 3ª Joze Borges Cordeiro homem branco cazado morador no termo dest Villa de idade dice ser de setenta pouco mais ou menos que vive de sua fazenda de gado vacum e de suas lavouras, testemunha a quem o Muito Reverendo Vigario da Vara Miguel Lopes Madeira [ilegível] defferio o juramento dos Santos Evangelhos em hum livro delles em que pos sua mão direita e prometeu dizer verdade do que soubesse e lhe fosse preguntado e do costume dice nada. [...]  Do terceiro dice que conheceo muito bem a Francisco Xavier de Santo Euzebio, já falecido, e conhece a Maria Barboza de Santo Jozé, pais dos Abilitandos, sabe que o sobredito Francisco Xavier era natural do Bispado de Pernambuco e sua mulher Maria Barboza natural da freguezia de São João de Agua Fria Arcebispado da Bahia e moradores nesta freguezia de Campo maior donde se cazarão e viverão sempre de suas fazendas de gados e conhece-os a vinte a tantos annos a outra parte e a rezão de seo conhecimento he porque fora vizinhos e mais não dice deste [fl.9v] dice desta parte.   [...] Data: 08.02.1893 Assentada [fl.10] Local: Vila de Santo Antonio de Campo Maior, comarca de Oeiras, Piauí. Testemunha 4ª Francisco Borges Leal homem branco [partes corroídas] morador nesta freguezia de Santo Antonio de Campo Maior de idade dice ser de quarenta annos pouco mais ou menos que vive de sua fazenda de gados, testemunhas que o Muiro Reverendo Vigario da Vara defferio o juramento dos Santos Evangelhos em hum livro delles em que pos sua mão direita e prometeu dizer verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado e do costume disse nada. [fl.11v] Testemunha 5ª Manoel Borges Leal de Castelo Branco homem branco e morador no termo desta Villa de Campo Maior e de idade dice ser de secenta [?] e dous annos pouco mais ou menos que vive de suas fazendas de gados testemunha a quem o Reverendo Vigario da Vara defferio o juramento os Santos Evangelhos em hum livro delles em que pos sua mão direita e pormetteo dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado e do costume dice nada. [...] Dice que conhecia aos abilitandos Antonio Joze de São Paio e Manoel Thomaz Ferreyra e forão nascidos e batizados nesta freguezia de Santo Antonio de Campo Maior e a rezão de seo conhecimento he pelos ter visto muitas vezes e mais não dice deste. [fl.11v] Testemunha 6ª Bernardo Borges Leal de Castello Branco Tenente de Cavalos. Almotacel actual nesta Villa de Campo maior homem branco solteiro e na mesma morador de idade que dice ser de quarenta e quatro annos pouco mais ou menos que vive de sua fazenda de gados; testemunha a quem o Muito Reverendo Vigario da Vara defferio o juramento dos Santos Evangelhos em hum livro delles em que pos sua mão direita e prometeu dizer verdade do que soubesse e lhe fosse preguntado e do costume disse nada. [...] Dice que conhecia aos abilitandos Antonio Joze de São Paio e seo irmão Manoel Thomas Ferreira e que erão nascidos e baptizados nesta freguezia de Santo Antonio de Campo Maior e os conhece desde meninos e mais não dice deste. Do terceiro dice que conheceo a Francisco Xavier de Santo Euzebio já defunto e sua mulher Maria Barboza, pay dos abilitandos, mas ignora elle testemunha onde sejão suas naturalidades e sabe que sempre viverão nesta freguezia de suas fazendas de gados sempre tidos e havidos por brancos, christãos velhos sem notta algua e a rezão que tem de assim saber he por conhece-los a dezaseis annos pouco mais ou menos e mais não dice deste.

  • Artigo: As Habilitações de Genere dos Padres Antônio José de Sampaio e Simpliciano Barbosa Ferreira

    Torquato Oswald-Torres     Resumo : Este artigo analisa dois documentos históricos raros que tratam da habilitação de genere dos padres Antônio José de Sampaio (1793) e Simpliciano Barbosa Ferreira (século XIX), tio e sobrinho, membros da tradicional família Barbosa Ferreira de Sampaio, do piauiense. A partir da transcrição dos depoimentos e da análise genealógica, o estudo investiga aspectos sociais, religiosos e políticos do Piauí colonial e imperial, revelando como os mecanismos de pureza de sangue funcionavam como estratégia de legitimação e manutenção do poder pelas elites locais.   Palavras-chave:  Habilitação de genere. Pureza de sangue. Genealogia. Piauí colonial. Elites eclesiásticas.   1.    Introdução Durante os períodos colonial e imperial brasileiros, o acesso aos cargos eclesiásticos estava condicionado à comprovação de “pureza de sangue”, ou seja, a ausência de ascendência judaica, moura, africana ou herética. Esse processo, originado na Península Ibérica, foi formalizado nos chamados autos de habilitação de genere, que reuniam certidões, depoimentos testemunhais e avaliações da moral e linhagem do requerente¹. Este sistema jurídico-religioso, herdado do Império Português, visava garantir que apenas indivíduos socialmente tidos como “cristãos-velhos” pudessem integrar as estruturas de poder eclesiástico, um reflexo direto da política discriminatória de origem ibérica². Neste artigo, comparamos dois processos: o do padre Antônio José de Sampaio, iniciado em 1793, e o de seu sobrinho, o Cônego Simplíciano Barbosa Ferreira, no século XIX. Ambos pertencem a linhagens tradicionais do Piauí e suas habilitações ilustram como o capital genealógico e simbólico era mobilizado pelas elites para garantir posições de prestígio no seio da Igreja e, por extensão, da vida pública regional³. 2.    A Habilitação de Antônio José de Sampaio (1793) Em 1793, na vila de Santo Antônio de Campo Maior, foram iniciados os autos de habilitação de genere do jovem Antônio José de Sampaio e de seu irmão Manoel Thomaz Ferreira. O procedimento foi conduzido pelo vigário da vara Miguel Lopes Madeira e registrado pelo escrivão Alexandre Rodrigues Lisboa, conforme os protocolos eclesiásticos da época. 2.1.       Origem Familiar Os habilitandos eram filhos de Francisco Xavier de Santo Euzébio, natural de Pernambuco, e de Maria Barbosa de São José, natural da Bahia. Os avós paternos, Manoel Duarte de Sampaio (Coimbra, Portugal) e Ignez Rodrigues da Costa (Pernambuco), e os maternos, Manoel Barbosa Ferreira do Rosário (Porto, Portugal) e Catarina Pereira da Silva (Bahia), compunham uma linhagem considerada branca e cristã-velha — atributos fundamentais para a aprovação nos exames eclesiásticos da época. 2.2.       Depoimentos das Testemunhas Foram ouvidas seis testemunhas, todas residentes na vila, com idades entre 40 e 74 anos. Os depoimentos revelam forte preocupação com a reputação moral e a condição de “brancura” dos requerentes, aspectos que, na lógica da época, validavam sua inserção na Igreja: 1.    Antônio da Rocha Soares, de 74 anos, declarou conhecer os habilitandos desde a infância, afirmando que seus pais e avós eram “brancos, cristãos-velhos, sem mácula e sem fama de desonestidade, criadores de gado, vivendo de seus bens”. 2.    Ignácio Pinto da Cunha, 68 anos, reforçou a boa reputação dos pais e sua vida dedicada à atividade rural. 3.    José Borges Cordeiro, 70 anos, declarou que Francisco Xavier era pernambucano e Maria Barbosa da Bahia, ambos “de boa fama”. 4.    Francisco Borges Leal, 40 anos, confirmou o batismo dos habilitandos na freguesia local. 5.    Manoel Borges Leal de Castello Branco, 62 anos, declarou conhecer os irmãos desde jovens. 6.    Bernardo Borges Leal de Castello Branco, 44 anos, afirmou que os pais eram reconhecidos como brancos e cristãos-velhos, sem qualquer fama de infâmia. O padrão dos depoimentos revela uma prática típica dos autos de genere: a ênfase na branquitude, na religiosidade e na ausência de máculas morais. Tal insistência está diretamente ligada às hierarquias raciais e sociais construídas no Brasil colonial, nas quais a Igreja operava como um dos principais vetores de distinção simbólica⁴. Ao fim do processo, os habilitandos foram considerados aptos à ordenação, tendo seus nomes aceitos como moral e genealogicamente idôneos. 3.    O Cônego Simplíciano Barbosa Ferreira Nascido por volta de 1830, o Cônego Simplíciano Barbosa Ferreira era filho de João Barbosa Ferreira e Maria Arcângela Castelo Branco, neto paterno de Francisco Xavier de Santo Euzébio e Maria Barbosa de São José, e neto materno de Marcelino José da Cunha Castello Branco e Maria Florência Lopes Castello Branco, portanto por via paterna era sobrinho do padre Antônio José de Sampaio. Sua formação religiosa e moral estava profundamente vinculada ao prestígio familiar e à tradição católica herdada. 3.1.       Herança Familiar e Formação Padre Simpliciano Barbosa Ferreira era descendente das seguintes famílias: Sampaio, oriunda de Coimbra, Barbosa Ferreira, da cidade do Porto e dos Castello Branco, do Piauí. O prestígio familiar ia além da dimensão religiosa. Entre seus tios paternos, destacavam-se também: Manoel Thomaz Ferreira – combatente da Batalha do Jenipapo (1823), condecorado por Dom Pedro I, e José Francisco de Sant’Anna – grande latifundiário da região norte do Piauí. A articulação entre genealogia, religião e propriedade fundiária era comum no Nordeste brasileiro, onde as elites locais utilizavam sua linhagem como base para consolidar influência política e econômica⁵. O acesso ao sacerdócio, nesse contexto, era também uma via de mobilidade simbólica e de reprodução do poder familiar. 4.    Considerações Finais Os documentos analisados revelam que os autos de habilitação de genere funcionavam como instrumentos de controle social, reforçando as hierarquias raciais e morais exigidas pela Igreja⁶. Ao mesmo tempo, atuavam como mecanismos de acesso ao poder para os membros das elites locais, que ali encontravam espaço para projetar sua influência e consolidar suas redes familiares. A trajetória de Antônio José de Sampaio e de Simpliciano Barbosa Ferreira demonstra como as linhagens familiares e a construção de reputações morais eram elementos indispensáveis ao ingresso na vida religiosa⁷. Representam, assim, duas gerações de uma elite rural do interior piauiense que articulava genealogia, religião e política para manter sua hegemonia em um Brasil ainda marcado pelas distinções coloniais. Notas 1.    Ver: MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2003. 2.    BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português, 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. 3.    NOVAIS, Fernando A. (org.). História da Vida Privada no Brasil – Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 4.    SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 5.    MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. 6.    MATTOSO, op. Cit.; SCHWARCZ, op. Cit. 7.    NOVAIS, op. Cit.   Referências FONTES PRIMÁRIAS ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO MARANHÃO. Fundo da Arquidiocese do Maranhão. Autos de Habilitação de Genere, 1793-1795. DOCUMENTO GENEALÓGICO sobre o Cônego Simplíciano Barbosa Ferreira. Arquivo particular. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português, 1415-1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. MATTOSO, Kátia de Queirós. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2003. MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. NOVAIS, Fernando A. (org.). História da Vida Privada no Brasil. Império: A Corte e a Modernidade Nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.   Torquato Oswald-Torres Torquato Oswald-Torres (Pesquisador, heráldico e genealogista)   Descendente colateral dos Padres Antônio José de Sampaio e Simplíciano Barbosa Ferreira. É Membro Fundador da AHMOCAMPI – Academia de História dos Municípios Oriundos de Campo Maior – PI e da AML – Academia Miguel-Alvense de Letras, além de Sócio Vitalício do Instituto Maranhense de Genealogia, História e Heráldica. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Uninassau – Piauí. Pós-graduado em Direito Previdenciário pela Faculdade Legale – São Paulo e em Direito Eleitoral pela Escola do Legislativo Prof. Wilson Brandão – ALEPI.

  • Plataforma Parentesco: Barras viva em dados genealógicos de todos os tempos.

    Dr. Edgardo Pires Ferreira e o historiador Reginaldo Miranda, da Academia Piauiense de Letras, em registro de 08.09.2025, em São Paulo. Em 2016, o idealizador deste Museu de Barras do Marataoã conversou com o antropólogo e genealogista dr. Edgardo Pires Ferreira sobre o projeto que então lançava: a Plataforma de Genealogia Parentesco. O trabalho, além de visar reunir as pesquisas de Dr. Edgardo Pires Ferreira e expandi-las com fontes primárias de matrizes diversas, enseja novos usos do rico acervo sobre famílias diversas e não apenas os Pires Ferreira, matriz de seus estudos. Ouça: https://soundcloud.com/ortalntretextos/wwwparentescocombr-entrevista-com-o-genealogista-edgardo-pires-ferreira?si=3254d77e76f84b34bd1b00c9ad6a63d3&utm_source=clipboard&utm_medium=text&utm_campaign=social_sharing Visite Parentesco e descubra um mundo de informações do passado de Barras do Marataoã

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