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- Os Três Silvestres
[A Tito Filho] José de Arimathéa Tito Filho Não conheci o meu avô paterno. Quando vim ao mundo, ele já se havia despedido desta vida para outra que suponho pior. Chamava-se SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO. Foi vereador em Barras do Marataoã, uma vilazinha pacata do norte piauiense. Pobre, mas respeitado. Família de muitos filhos, mulheres e dois varões. Estes se educaram com a ajuda de amigos. Quando morreu, meu pai lhe herdou as dívidas e as saldou, um por uma. No livro de memórias ÚLTIMAS PÁGINAS, Cristino Castelo Branco escreveu este trecho: "Lembro-me agora em março do desembargador José de Arimathéa Tito, meu antigo companheiro do Tribunal de Justiça do Piauí, cinco anos mais velhos do que eu, pois nascera a 18 de março de 1887. Pertencia à família Castelo Branco, filho que era de Silvestre Tito Castelo Branco, mas o pai, brigado com os parentes, tirou dos filhos o nome de família". De feito, meu avô não quis que nenhum dos filhos se assinasse CASTELO BRANCO, homens e mulheres. O primeiro varão chamou-se SILVESTRE, por extenso SILVESTRE TITO FILHO. Deveria ser SILVESTRE TITO CASTELO BRANCO FILHO, mas o pai, teimoso que nem mula, lhe decepou o nome familiar famoso. Na família foi o segundo SILVETRE. Bem alvo, olhos azuis, andou pela capital no Pará feito funcionário público. Adquiriu banhas. Um tanto buchudo. Gostava dos livros, sobretudo os de direito. Danou-se de saudades e regressou à casa paterna, em Barras. Tornou-se advogado, embora sem diploma de faculdade. Escrevia bem. Apreciava uma boa pinga, como de modo geral sempre a apreciaram os barrenses de todas as categorias. Silvestre Tito Filho nunca se casou. Era meu padrinho, boníssimo padrinho, que sempre me presenteava uns tostões para os rebuçados e os bolinhos que as doceiras de Barras faziam com requintes da difícil arte culinária. Nunca me esqueci do episódio. Noitinha do dia 6 de fevereiro de 1933 eu me despedi do meu querido padrinho e tio, e ele me deu uma moedinha de bom metal, de mil réis, que na época se denominava CENTENÁRIO, cunhada em homenagem aos primeiros cem anos da independência nacional. Trazia de um lado as efígies de Pedro I e Epitácio Pessoa, o presidente das festas comemorativas. Dia 7 de fevereiro, madrugada, viajei no caminhão do Crueira, motorista mito conhecido e estimado dos barrenses. Nove da noite, cheguei a Teresina, no Colégio diocesano, como aluno interno, e o padre Joaquim nonato, bom amigo, diretor do educandário, me transmitia a notícia triste que tio Silvestre havia falecido de modo repentino. Faz poucos dias faleceu em Teresina um terceiro SILVESTRE, nome todo SILVESTRE TITO NETO. Deveria ser Silvestre Tito Castelo Branco Neto. Morreu-lhe a mãe muito cedo, irmã de meu pai, e o pai viúvo logo se casou de novo e deixou com duas tias solteironas os dois filhos havidos do primeiro casamento. Largou a segunda esposa, e tornou-se comissário do Lóide Brasileiro, em cujos navios transitava pelos mares do planeta. Faleceu no começo da década de 50. Silvestre Tito Filho criou-se sempre pobre, sustentado pelas tias, que lhe davam afeto e carinho. Não teve recursos para estudar. Garoto ainda prestou concurso de carteiro e empregou-se nos Correios de Teresina, fez carreira e aposentou-se. Sempre de exemplar honestidade. Dedicado chefe de família. De inatacável fidelidade à palavra empenhada. Meu companheiro de férias, ao velho Marruás, aonde fomos com os outros primos, no final de cada ano, para os festejos religiosos promovidos pela humilde igrejinha da vila, depois cidade. Ma(i)s um bom Castelo Branco dos bons que se foi. A. Tito Filho, 05-06/05/1991, Jornal O Dia Crônica catalogada pelo prof. Jordan Bruno e reproduzido em Acervo A. Tito Filho. Saiba mais sobre as origens do professor e escritor A. Tito Filho na plataforma de genealogia Parentesco , um projeto de vida do Dr. Edgardo Pires Ferreira.
- Celso Pinheiro em três dimensões
(*) Elmar Carvalho Celso Pinheiro em 1917, quando da fundação da Academia Piauiense de Letras I . Panorama teresinense e o poeta Em 1902, aos 15 anos de idade, Celso Pinheiro já morava em Teresina, vindo de Barras, sua terra natal, para continuar seus estudos. Contudo, sequer veio a concluir o curso ginasial. A capital piauiense era uma pequena cidade, ainda muito acanhada, situação que perduraria até a morte do poeta, em 1950. A pequena urbe se estendia do entorno do Cemitério São José até os arredores da Igreja de Nossa Senhora das Dores, no sentido Norte para Sul; no sentido Oeste para Leste ia da margem direita do rio Parnaíba até a margem esquerda do Poti. O teatro, que fora uma das principais atividades culturais e de entretenimento, desde a fundação da cidade até o final do século XIX, já começava a perder espaço para o cinema, que se tornou uma das principais diversões teresinenses. É de se supor que o bardo tenha assistido a algumas representações teatrais e sessões cinematográficas, que até o final de sua vida foi se aperfeiçoando na tecnologia e na utilização de efeitos especiais nas filmagens. Outras sociabilidades da capital eram os saraus, literários e/ou musicais, realizados em estabelecimentos públicos ou particulares, inclusive na casa de Clodoaldo Freitas (e suas rodas de conversa). Também não devem ser esquecidos os festejos de santos católicos, com suas quermesses e leilões, na parte profana; tampouco devem ser esquecidas as apresentações circenses, que costumavam ter no seu final uma peça de dramaturgia. Sem dúvida tomou conhecimento das polêmicas anticlericalistas dos maçons, que recebiam o revide das principais lideranças do catolicismo. Chamado de o milionário do verso pela profusão de poemas que produziu, sobretudo sonetos, com certeza os publicou nos poucos jornais da cidade, quase sempre pertencentes a partidos políticos. Nesses periódicos a política tomava sua feição mais feroz, em que os inimigos e desafetos não tinham boas qualidades morais nas catilinárias desabridas, e em que os amigos e apaniguados não tinham defeitos nas matérias laudatórias ou apologéticas. Houve também a moda das conferências. Alguns conferencistas vinham de outros estados, mas também as proferiam intelectuais do Piauí. Nogueira Tapety, poeta oeirense, pronunciou uma bela palestra sobre a luz, que tive a oportunidade de ler. Acredito que Celso deva ter comparecido a algumas, e certamente foi o responsável por uma ou outra dessas conferências. Em 30 de dezembro de 1917 foi fundada a Academia Piauiense de Letras. Celso, aos 30 anos, foi um de seus fundadores. Foi o primeiro ocupante da cadeira nº 10, de que tenho a honra de ser o atual titular. E é o patrono da cadeira nº 5 da Academia de Letras do Vale do Longá – ALVAL, da qual hoje tenho a posse. Muitos desses fundadores e primeiros acadêmicos eram intelectuais egressos da Faculdade de Direito do Recife, herdeiros do positivismo e das lições do professor, erudito e poeta Tobias Barreto. O nosso bardo não teve formação superior, numa época em que poucas pessoas conseguiam se formar, a maioria em Direito, Medicina, Engenharia, Odontologia ou Farmácia. Na segunda década do século XX, aproximadamente, vários poetas piauienses louvaram em magoados versos elegíacos lindas e belas moças, que morreram precocemente, entre as quais Mocinha Araújo, Santa Martins e Iaiá Pearce. A última era filha do inglês Thomas Pearce e noiva do aluno do curso de Direito e poeta Pedro Borges da Silva, que depois se tornou vice-governador do Piauí, membro da APL, juiz federal e ministro do Tribunal de Segurança Nacional. Antônio Chaves, que a pranteou em lindos e melodiosos versos, impregnados de saudade e paixão, no eu lírico de soneto elegíaco que leva o seu nome, chegou a considerá-la noiva: “Eras a minha fé soberba, indefinida, / Eras a minha crença, ó lírio imaculado, / Tu, que trazias n’ alma inocente e querida / A ária do nosso amor e do nosso noivado.” Celso Pinheiro também escreveu algumas elegias, em que chorou essa formosa e alva flor de carne, tão cedo ceifada dessa vida descontente, para evocar aqui os imortais versos camonianos. Quando o poeta faleceu, já existia o Clube dos Novos, a nossa geração de 45. Os poetas e escritores dessa agremiação literária fundaram a revista Caderno de Letras Meridiano e discutiam literatura, mormente na Praça Pedro II, onde costumavam se encontrar. Não sei se esses rapazes tomaram conhecimento do grande e velho poeta, e se este chegou a conhecê-los ou porventura tenha lido algum texto literário desses moços. II.Alguns dados biográficos e cronológicos Dois paralelos quero traçar entre Celso Pinheiro e Antônio Francisco da Costa e Silva, no referente às datas de nascimento e de morte deles. O primeiro nasceu em Barras, em 24 de novembro de 1887 e o segundo, em Amarante, em 23 de novembro de 1885. Por conseguinte, Celso era dois anos e um dia mais moço que o Poeta da Saudade e do Velho Monge. E faleceram no mesmo dia, ou seja, em 29 de junho de 1950; Celso na capital do Piauí e Da Costa e Silva na capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. Tiveram elogio póstumo na Academia Brasileira de Letras, em discursos pronunciados respectivamente por Múcio Leão e Olegário Mariano. Era filho do capitão-mor João José Pinheiro, que veio morar em Teresina em 1857, quando esta capital tinha apenas cinco anos de fundada, e de sua mulher Raimunda Lina Pinheiro. O capitão viera da Vila do Rosário – MA para assumir a administração dos Correios. Era irmão dos escritores e contistas João Pinheiro e Breno Pinheiro, ambos pertencentes à Academia Piauiense de Letras. Cedo o poeta Celso Pinheiro se tornou órfão e teve que trabalhar ainda jovem para se manter em Teresina. Como dito, em 1902 já ele morava em Teresina, de onde nunca se ausentou, a não ser por curto período. Ganhando pouco, em determinada época teve três empregos (professor de Literatura da Escola Normal, escriturário da Chefatura de Polícia e revisor do jornal O Piauhy). De um deles, o de professor, foi demitido pelo governador Eurípides de Aguiar, pelo simples fato de ter sido nomeado pelo governador Miguel Rosa, seu adversário. Sofrendo uma crise de insônia, cansaço e doença nervosa, em 1917 viajou para o sul do estado, em busca da saúde psicológica e física. Nessas andanças pela hinterlândia piauiense escreveu alguns poemas sobre essas paragens. Perambulou pelas longínquas cidades do sul piauiense, Santa Filomena e Gilbués. Nesta última passou cerca de dois meses. O certo é que essa viagem, a maior parte feita em lombo de cavalo, concorreu para a recuperação de sua saúde. Um tanto boêmio quando jovem, alto, magro e nervoso, julgou haver contraído a tuberculose, então uma doença quase sempre fatal. Uma pessoa minha amiga, de alta respeitabilidade, me informou que uma neta dele lhe fizera a revelação de que essa tísica foi apenas uma doença imaginária do poeta, que na realidade nunca fora inoculado por bacilos de Koch. A mesma fonte me revelou que ele chamava a sua suposta tuberculose de Dindinha, que era o nome da velha babá de sua infância. E, carinhosamente, apelidava a morte de Dona Branca. O milionário do verso cometeu inúmeros poemas, entre os quais mais de quatro mil sonetos, forma fixa de sua predileção, que ficaram dispersos em jornais e revistas. Alguns foram reunidos no livro Poesias, cuja publicação foi feita em 1939, sob a chancela da APL. Recentemente, através da Coleção Centenário, publicada por ocasião das festividades alusivas ao centenário da Academia Piauiense de Letras, foi dada à estampa a segunda edição desse seu livro. Casou-se com Liduína Mendes Frazão em 1914, que veio a falecer em 1932. Portanto, o poeta foi casado durante 18 anos e permaneceu em viuvez durante outros 18 anos. Outro fato que muito magoou o poeta foi a prisão de Celso Pinheiro Filho, aos 24 anos de idade, quando era 3° sargento do Exército, pelo Tribunal de Segurança Nacional, sob a acusação de ser comunista, em virtude de haver tomado parte do levante da Praia Vermelha (3° R. I.), em novembro de 1935. Em 1946 Celso Filho foi nomeado prefeito de Teresina pelo interventor federal Vitorino Correia. Segundo Herculano Moraes esse filho primogênito do poeta sofreu “uma das mais acirradas campanhas de difamação da época”, o que teria levado Celso Pinheiro, em defesa do filho, “a publicar versos ofensivos e insultuosos contra Eurípides Clementino de Aguiar, que liderava os opositores ao filho do poeta”. Além de Celso Filho o poeta teve as seguintes filhas: Edméa, Maria, Wanda e Diva. III.Comentário crítico Como epígrafe do excelente livro Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo, de Teresinha Queiroz, encontramos um lapidar e paradigmático trecho de um poema incluído na parte do livro Poesias titulada Poema das Noites, de cuja epígrafe transcreverei apenas os quatorze versos iniciais: Na idade, Em que se é todo um hino à Mocidade E a vida sabe a trínulo perfeito Contraí dentre todas as doenças, Aquela cujas chagas são imensas... Ai, doença das Letras no meu peito!... Eram febres de luz de muitos graus, Entrecortadas de lampejos maus... Às vezes, nos ásperos reveses da Febre, Do Martírio, Satanás dirigia o meu delírio: E eu morto, de pés juntos, Escutava risadas de Voltaire E via, Assomos de magia! Lendo-se o poema acima referido na íntegra, pode-se constatar que nele estão todos os principais ingredientes e condimentos da poética simbolista. Nele se nota certa vagueza, feita mais de sugestões, que de afirmações peremptórias; certo clima de nívea frialdade, de penumbra nevoenta, de brancura lirial; uma métrica, que lhe dá musicalidade e certa variação rítmica; uma quase profissão de fé, quando ele cita suas admirações literárias; e uma espécie de devoção ao sofrimento e à morte. Aliás, todo o poema é referto de metáforas, palavras e símbolos caros à Escola Simbolista, entre os quais, em rápida enumeração, apenas exemplificativa, citaria: lívida, unge-me, turíbulo, sonhador nevoento, cidade dos pés juntos, Corujões, pântano, Tísicos, Luz, Sinos, Coveiro, demônio do Tédio etc. Atente-se ainda para as personificações tipicamente simbolistas, com muitas palavras iniciadas por maiúsculas. A crítica, em seu entendimento predominante, tem considerado que Celso Pinheiro era um simbolista. Eu diria que ele foi sobretudo um adepto do simbolismo, e que viveu num período em que o Modernismo praticamente não chegara ao Piauí; em que os poetas praticavam um sincretismo, um amálgama do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo, com predominância, talvez, da Escola mais velha. Como disse, o nosso bardo foi essencialmente um simbolista, mas pelo apuro de seu estilo e forma, de sua linguagem esmerada, de sua métrica e ritmo melodiosos, considero que ele recebeu um saudável influxo do melhor parnasianismo, despido de exageros e de certos rebuscamentos e preciosismos. Sobre ele disse com muita propriedade o saudoso amigo e notável poeta Hardi Filho: “Não há negar que Da Costa e Silva foi um grande poeta, o mais culto do Piauí. Celso Pinheiro foi o mais autêntico, o de inspiração mais constante, o mais humano (...). À poesia de Celso Pinheiro faltaram as oportunidades de divulgação que teve a de Da Costa e Silva.” Acredito que se ele tivesse nascido no Rio de Janeiro ou em São Paulo, talvez o seu nome formasse uma trindade simbolista, ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. Quando tomei posse da cadeira n° 5 da Academia de Letras do Vale do Longá, da qual o poeta é patrono, em solenidade ocorrida no dia 23.05.97, no IATE CLUBE de Campo Maior, tive a oportunidade de dizer sobre ele e sua poesia: A exemplo do Parnasianismo Brasileiro, a Escola Simbolista deveria também ter a sua trindade, em que a estrela de primeira grandeza e de fulgor extraordinário – Celso Pinheiro – brilharia ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens. O poeta, ironicamente, em sua pobreza de metais, era chamado de milionário do verso, pela facilidade com que urdia os mais belos poemas e sonetos, nos quais eram vazados o seu delicado pessimismo e o seu suave lirismo, através de melodiosas palavras e de inusitadas e por vezes extravagantes imagens e metáforas. Simbolista sim, mas também um cultor da forma, percebendo-se em sua poesia uns leves laivos de saudável parnasianismo. A crítica o tem, merecidamente, em elevada conta. Bugyja Britto o alinha entre os maiores poetas do Brasil. Hardi Filho, que escreveu um livro sobre ele, considera-o entre os três principais aedos de sua predileção. Herculano Moraes, poeta, crítico e membro desta Academia e da Academia Piauiense de Letras, assim se referiu a esse excelso poeta: “A poesia de Celso Pinheiro pode ser incluída entre os melhores momentos do simbolismo brasileiro, ao mesmo nível de Augusto dos Anjos e Cruz e Sousa. São poucos os poetas que conseguem ser tão sublimes e torturados ao mesmo tempo.” Sua portentosa poesia aí está para ser fruída e degustada e para comprovar o que dissemos a seu respeito. Não bastasse ter sido o admirável poeta que foi, também foi um exímio prosador, tendo escrito notáveis crônicas, discursos, artigos e conferências, que se coligidos formariam um excelente livro. Soube que Celso Filho ainda teria organizado essas peças literárias. Todavia, lhes desconheço o paradeiro. Portanto, faço questão de repetir como um corolário de tudo o que disse: o excelso poeta Celso Pinheiro bem poderia compor uma trindade simbolista brasileira, ao lado de Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa. Obras consultadas: Poesias (2ª edição – 2015) – Celso Pinheiro Três Artífices do Verso (1991) – Bugyja Britto Nebulosas (2ª edição – 2013) – Antônio Chaves Os Literatos e a República: Clodoaldo Freitas, Higino Cunha e as Tiranias do Tempo (3ª edição – 2011) – Teresinha Queiroz Visão Histórica da Literatura Piauiense (6ª edição – 2019) – Herculano Moraes Dicionário Enciclopédico Piauiense Ilustrado (2003) – Wilson Carvalho Gonçalves (*) Elmar Carvalho é literato e crítico literário, descendente de barrense e membro da Academia Piauiense de Letras.
- Saiba quem foi José Nelson de Carvalho Pires
Foto histórica - Jantar oferecido em Parnaíba a Jânio Quadros na sua campanha vitoriosa para a presidência da República, em 1960 . Na foto, vemos também o prof. José Nélson de Carvalho Pires , então Presidente da UDN, ao centro; além de Ribeiro Magalhães e a líder política de Buriti dos Lopes, Zezita Sampaio. Cortesia do escritor parnaibano Diego Mendes Sousa. Saiba quem foi José Nelson de Carvalho Pires em palestra de Diego Mendes Sousa, por ocasião dos 100 anos do ilustre barrense em 2024.
- Antenor Rêgo Filho e a tradição imorredoura da memória
Bafute, de Antenor Rêgo Filho (*) Dílson Lages Monteiro Somos seres de linguagem. Significa dizer: somos fabulação. Representamos a vida por meio de narrativas que dão sustentação à nossa identidade e nos integram à convivência humana e à natureza. Com ou sem tecnologia, encontramos meios de materializar pensamentos e emoções em narrativas que, ao ecoarem entre semelhantes, proliferam-se a ponto de projetar-se aos nossos olhos um modo de ver o tempo, os costumes e as nós mesmos. É na literatura que essas marcas de nossa subjetividade como seres de linguagem refletem-se com mais fidedignidade. Saindo da esfera utilitária para a da plurissignificância imaginativa, a palavra potencializa a capacidade de ativar, também, mundos que não conheceríamos de outra forma que não pela representação da escrita literária, em seu modo único de revelar subjetividades. Assim é que tudo que nos cerca passa a ser humanizado e nos comove profundamente, seja pelo lirismo, seja pela crítica social, seja pelo humor. Uma das matrizes de tudo isso está no conto popular e na crônica. As lendas, as crendices, as superstições, os fatos do cotidiano cristalizados de significado coletivo encontraram formas de dizer sobre comunidades e culturas inteiras e foram se modificando a darem forma a gêneros mais complexos dos quais até hoje se alimentam, revigorando a força da tradição. Antenor Rêgo Filho é autor que, possuidor de projeto literário e memorialístico contínuo e consistente, vem nos presenteando ao longo de sua trajetória com contos populares e crônicas que servem tanto à literatura quanto à história e à memória. Em sua prosa agradável e rica, em um jeito de corporificar a alma, o léxico e a essência de sua terra natal, reverbera toda a tradição de uma gente alegre, festiva e avessa à indignidade. Nele, espelha-se a histórica Barras do Marataoã, em textos que vão além de sua vocação para o memorialismo, a uma escritura em que o espaço-físico e temporal subvertem-se em nomes e histórias, cheios de humor cativante. Antenor Rêgo Filho, historiador, memorialista e cronista Assim se consagrou entre nós o volume de crônicas e contos Jacurutu, saudado efusivamente por escritores como Herculano Moraes e José Ribamar Garcia. Assim são as novas narrativas que ele dá conhecimento à sua grande legião de leitores-admiradores no volume “Bafute”, que agora publica. Em 29 textos de refinado humor, o leitor encontrará, principalmente, uma gente e uma Barras de antanho, com costumes, hábitos e valores bem diferentes dos que vivem as gerações correntes e, por isso, mais significativo é o sentido social desta obra. O leitor se encantará pelas referências geográficas, ou mesmo por tipos humanos, em que se representa o caráter universal da literatura mesmo de textos que reproduzem a cosmovisão da aldeia. A oralidade é estilizada pela fusão entre referências temporais e espaciais, que se unem ao retrato social de tipos humanos bem característicos. Além, claro da explicitação da identidade de Barras do Marataoã, por meio do léxico, que empregado com naturalidade, dá graça e leveza às narrativas. Nelas, figuram o município das décadas de 1930 a 1960. Lugares como o Bairro Boa Vista, a ponta da Rua Grande, o perímetro mais central da urbe, em meio à vivacidade do Marataoã, antigas fazendas se somam ao cotidiano em seus acontecimentos triviais personalísticos, a prostíbulo, à sátira ou à crítica bem-humorada ao comportamento das elites políticas e econômicas, a lugares da vida citadina como a quitanda, o bar, a barbearia, às rodas nas calçadas, às contradições do aparelho policial, à influência dos pequenos comércios na vida da cidade, aos hábitos da aristocracia rural em um tempo de predomínio da força do campo sobre a cidade, às crendices e às supertições, às festividades religiosas e costumes a elas relacionadas. Entre os tipos humanos, encontra-se a humanidade do médico empreendedor sem limites para o altruísmo (em vários textos, há muitas referências a figura ímpar e inesquecível do médico José do Rêgo Lages). Também se lê o lado cômico do exercício desarrazoado do poder político; a contradição humana de valentões e velhacos; a malandragem dos que arranjam um jeitinho de afastar a qualquer custo a adversidade; a graça de lugares que não deixam chances e oportunidades para tempos infelizes nem para o falso moralismo. Nos contos e crônicas de Antenor Rêgo Filho, tudo é leveza, graça e espontaneidade. Entre os muitos méritos de cada uma dessas narrativas, está o humor que escorre em cada texto e a reinserção no cotidiano da memória, agora em palavra escrita, de dezenas de estimadas figuras da vida social de Barras dos últimos 70 anos, sobretudo. Destacamos, ainda, a naturalidade com que apresenta um leque extenso de palavras bem nossas; ditas de maneira bem nossa. Deixamos para o leitor a tarefa prazerosa de descobrir o que aqui dissemos, porque as narrativas de sucesso deste volume dizem infinitamente mais do que qualquer explicação que venhamos a realizar sobre elas. O humor é subversivo; disso sabemos. O hábito de recontar (ou recortar) é a força viva da memória; disso também sabemos. Que o humor e os recortes de cada uma dessas histórias ressoem em nosso sentimento como as águas tranquilas e cristalinas do Marataoã e nos contagiem do amor incondicional ao lugar que é nossa origem. Viva “Bafute” e a vocação de Antenor Rêgo Filho para nos trazer de volta a presença imorredoura da memória! (*)Dílson Lages Monteiro, curador do Museu Virtual de Barras do Marataoã, é literato, professor e autor de obras de ficção, de ensaios e memorialismo. É membro da Academia Piauiense de Letras. Assista à análise da obra em vídeo:
- Rua Grande da Memória
Capa da coletânea Rua Grande de Barras do Marataoã, organizada por Dílson Lages [Francisco de Assis Carvalho Filho] Quando criança, na década de 1970, eu e meus irmãos passávamos férias em Barras na casa de meus avós, Seu Conrado Amorim de Sousa (Corando) e Dona Olga Fernandes de Amorim. Entre todos os entretenimentos que realizávamos, ir à casa das amigas e parentes de minha avó, as Morais, na Rua Grande, era um dos momentos mais prazerosos. Além da hospitalidade e do carinho dispensados por todas da casa, em especial a Tia Neusa, brincar no quintal era um sonho para toda criança, havia uma diversidade enorme de frutas e árvores. Lembro-me do pé de groselha, de limãozinho, de sapoti e de goiaba. Deliciávamo-nos com essas frutas: subíamos nas árvores para retirá-las. A Rua Grande é rua de memórias imorredouras. A principal artéria onde o fluxo de pessoas, mercadorias e relações socioculturais se desenvolvem e contribuem para a organização espacial da minha cidade. É a rua apoteótica por onde se desfilam todas as manifestações; sejam elas religiosas, com suas procissões; sejam políticas, com suas passeatas, sejam culturais, pois é passagem obrigatória dos “Bois de Pano” e suas matracas, bem como, dos blocos de sujos no Carnaval. Rua Grande e larga, com seus paralelepípedos (pelos menos assim o é na memória dos que a conheceram sem o asfalto) perfeitamente talhados em rochas areníticas e bem aplainados, sem necessidade de outro tipo de pavimentação, pois essa técnica de construção de calçamentos é mais uma característica de nossa Barras do Marathaoan, motivo de orgulho de todo barrense. A organização espacial da nossa cidade de Barras está intrinsecamente voltada para a fazenda de gado do primeiro fazendeiro que aqui se instalou, Miguel Carvalho de Aguiar, nas margens do rio Marathaoan. A Rua Grande passou a ter uma função preponderante como via de escoamento de nossas riquezas oriundas do extrativismo vegetal (a amêndoa do coco babaçu, o pó da carnaúba e o tucum), como também da pecuária (animais para o abate, a pele de caprinos e o leite) e tantos outros derivados dessas atividades que foram os alicerces da nossa economia. Leia toda a crônica do professor e geógrafo Francisco de Assis Carvalho Filho sobre a Rua Grande de Barras do Marataoã, na página 56: https://drive.google.com/file/d/1fVn2BfhzdZfSQqgwIVJcs90rHOmBxTm7/view
- Quem reconhece essa família do final do século XIX e da primeira metade do século XX?
Até bem pouco tempo, a fisionomia do patriarca dessa família de Barras do Marataoã era desconhecida das gerações de barrenses da segunda metade do século XX à atualidade. Ele foi expressiva liderança comercial e política de Barras do Marataoã. Para manter o suspense de que família está retratada na fotografia, também omitiremos de onde partiu a doação, por enquanto. Muitos detalhes, em novas atualizações de Barras de todos os tempos e de todas as gentes. Faça sua aposta: Quem é o patriarca e a matriarca nesta imagem? Quem são as crianças? PARA DOAR FOTOS DE PESSOAS E LUGARES DE BARRAS OU RELACIONADOS A ELES, ENCAMINHE ZAP PARA (86) 9.8876-9230, ESPECIFICANDO ABAIXO DA IMAGEM(NS), AUTORIZO PUBLICAÇÃO. Encaminhe ainda pelo email museudebarras@gmail.com Ao encaminhar, descreva o que consta na foto e, se souber, o ano em que foi realizada e autoria.
- Zé Doido
Estátua erigida em homenagem ao andarilho Zé Doido, tombada depois de acidente de trânsito. Atualmente, consta no mesmo local nova estátua do andarilho. (*)Dílson Lages Monteiro – Não sou doido, não, sou é tarado né, siô? – era assim que repetidamente, sem qualquer sinal de cansaço, Zé Doido abordava quem passasse na rua. Em voz hesitante, esperava dos interlocutores, quase sempre ausentes de contato visual, um sinal de confirmação da pergunta. Um ou outro troçador alegrava-se de sadismo: – Tu não é doido, não. É muito é sem-vergonha! E ele, em impaciência angustiante, se punha a repetir: – Sou doido, não; sou é sem-vergonha! Nunca se soube seu nome. Apenas uma vaga referência à cidade de origem. Quaisquer alusões a ele, sempre pelo qualificativo que o diminuía. O que o identificava também o anulava. Como pessoa. Como criatura do mundo das sociabilidades. Que triste! Zé Doido habitou os temores de muita criança. E de mulheres, em especial. Vez ou outra, saía dizendo que elas estavam apaixonadas por ele. Costumeiramente, nu da cintura acima, punha-se a atritar pedras entre si ou contra calçadas. Mãos sobre a testa, olhando para o céu à procura do sol. Dizia que o estava esquentando. “Sol quente da mulesta, siô. Sol quente! Eu que esquentei”. De tempos em tempos, desaparecia. A natureza andarilha o levava à cidade natal no pé da Serra Grande, a mais de 100 quilômetros. Quando não, aos lugarejos no entorno. Certo é que voltava a ir à porta do empresário que, nascido no mesmo canto que ele, carregando o peito cheio de borboletas e admiração pelo mundo, tratava de diminuir os padecimentos do conterrâneo. Um homem bom. Muita gente ainda lembra do tanto que bem fez. Quem vai esquecer bondade enquanto ainda existir sinal de vida em forma de recordação? Para além de viver nas ruas admirando o sol escaldante, o andarilho era visto com frequência na beira do rio. Escondido detrás de moitas em um tempo de abundante vegetação. Tempo sem máquina de lavar roupas. Multidão de lavadeiras nas margens batendo roupa em lages que até propriedade e lugar certo tinham. A pedra da dona Maria. Da dona Francisca. Da dona Joana. Anônimas da vida social, a não ser quando, de trouxa na cabeça, carregavam também a roupa limpa dos patrões. Aqui e acolá, punham Zé Doido a correr das moitas, receosas de que promovesse um ataque, o que nunca aconteceu com esse voyerista da imaginação sem fim. Era um tempo de lazer na beira dos rios também. Em churrascarias que marcaram época. Uma delas tinha o nome de Beira rio. Casa no alto do morro. Mesa de lages dispostas em filas debaixo de frondosas mangueiras. Gente de toda idade na areia branca à margem. Conversas animadas ao som de “La Belle de jour”, “Morena Tropicana”, “Da Manga Rosa, quero o gosto e o sumo”, de Alceu Valença. Gente bebericando pinga. Comendo Peixe frito. Enormes piranhas que desapareceram. Surubim ao molho. Coisa rara. Zé doido zanzava por ali, nas imediações, detrás de moitas. Os adolescentes buliçosos se aproveitavam... Rio tomado de banhantes e eles lá, os comportadinhos, a se fartarem. Mergulhavam fundo e passavam as mãos nas pernas das mulheres. Ou beliscavam forte. Elas saíam em disparada. Praguejavam. Diziam nome feio. “É o Zé Doido, vi ele mergulhando, tarado”. A molecada tratava de espalhar que o andarilho tinha fôlego grande e estava na ilha a sorrir seu riso ingênuo de pena e compaixão. O riso natural da admiração da luz e da natureza. Ficava sendo Zé Doido o beliscador. Certa vez, parado nas imediações de uma chácara nas proximidades da cidade em início de noite, lá estava ele do nada. A luz do dia já rareava e as corujas sentavam na ponta dos mourões de cerca. Ele aproximou-se como um raio que cai dos céus antes de chuva inesperada. Queria carona para a cidade. Disse logo ao irmão que não o levaria. “Que é isso? Ele vai entrar e fica quieto... Não vamos deixá-lo nessa escuridão à mercê de maldosos, vamos?” – convenceu-me, mas não sem antes fazer uma advertência: “Olha, Zé Doido, tu não vai morder ninguém aqui, não!”. – Mordo não, mordo não! Quero ir pra casa do vereador! Vereador é amigo! Amigo, amigo! Com fome, com fome! – tratou de responder, me convencendo por completo de que não era ameaça. Apenas uma barriga roncando. Dali a pouco mais de um quilômetro, descia na porta do vereador. Bateu palmas. Chamou pelo nome. Foi a última vez que o vi. Tempos depois, soube do fatídico desastre. Por duas vezes, ele morreu, você acredita? Duas vezes, o povo não cansa de repetir. O desastre verdadeiro na margem da rodovia do município vizinho... O caminhão atirando-o longe como bicho. A comoção ligeira de toda a região. Ergueram em sua homenagem um busto. Veio um veículo em disparada. Cheio de armas e ladrões de banco. A imaginação diz que Zé Doido, do além, entrou na frente do carro e provocou o desastre... A estátua pulou longe... Morte por duas vezes. Duas vezes. A morte Real. A morte da estátua esfarelada. Mas logo o andarilho voltaria a enfeitar à margem da rodovia sob a forma de estátua nova. Com direito à inauguração pelo senhor prefeito. Quando vejo uma dessas figuras que dizem doido, esquecido pelas ruas, penso no que já viveram de desprezo. De acolhimento. Nas histórias surpreendentes pelas quais passaram, em caminhos que a fatalidade ou o desamor construiu, sem que se tivesse possibilidades de escolhas. Penso nas famílias. Ou na inexistência delas. Lembro-me de Fernando Pessoa e seu Banqueiro Anarquista. Seria realmente aceitável, sem indignidade, que se nascesse assim ou nisso, no ser quase invisível que mete medo ou provoca risos, se transformasse? Lembro-me de Zé Doido. E antes de sorrir ou evitando essa ação, olho para o céu e me pergunto se não poderia ser tudo diferente. (*) Dílson Lages Monteiro, curador do Museu Virtual de Barras do Marataoã, autor de obras de ficção, poemas e ensaios. Pesquisador da memória e da história de Barras do Marataoã-PI.
- Celso Pinheiro para brincar: um poema para as mães.
Poesia, a obra completa de Celso Pinheiro, reeditada pela Academia Piauiense de Letras Leia atentamente o poema de Celso Pinheiro, em homenagem à sua mãe, para responder às questões. De olhar de mel e beijos de torcazes, A minha mãe, coitada! talvez fosse A dindinha dos cravos e lilases!... No seu ventre bendito Ela me trouxe Nove meses... E um dia, sob audazes Raios de sol primaveril, notou-se Que surgira um bebê de olhos vivazes... Era eu! era um poeta extravagante, Que nascera sem festas nem alardes, Quando o dia era um límpido diamante... A minha mãe... matou-a o mês de Agosto! E é por Ela que eu vou todas as tardes Rezar na capelinha do Sol-posto!... Celso Pinheiro 1.O poema expressa o sentimento do eu lírico pela mãe principalmente como: A) Inveja B) Indiferença C) Ternura D) Culpa E) Ressentimento 2.A principal emoção que o eu lírico expressa ao final do poema é: A) Alegria B) Alívio C) Raiva D) Tristeza E) Ironia 3.A linguagem do poema é marcada por: A) Frieza e objetividade B) Coloquialismo exagerado C) Simbolismo e lirismo D) Uso técnico e científico E) Repetição e cacofonia 4.A imagem da criança no poema é associada a: A) Um herói mitológico B) Um sábio ancião C) Um poeta sensível D) Um guerreiro forte E) Um desconhecido comum 5.A religiosidade aparece no poema quando o eu lírico: A) Vai à missa aos domingos B) Confessa-se em um templo C) Lê a Bíblia ao amanhecer D) Reza pela mãe falecida E) Frequenta procissões Gabarito: c, d, c, c, c, d. 6.A partir das respostas de cada questão, responda as charadas. 1.Sou o sentimento doce, que mora no coração. Quem ama com leveza, me dá sem condição. Quem sou eu? 👉 2. Chego com despedida, fico quando há saudade. Sou cinza, sou silêncio, sou dor e não sou vaidade. Quem sou eu? 👉 3. Falo por entre imagens, sugiro, mas não explico. Sou linguagem encantada, um segredo bem artístico. Quem sou eu? 👉 4. Nasci sensível e estranho, sem festa ou clarim no ar. Faço versos de emoção, e vivo a rimar. Quem sou eu? 👉 5. Sou gesto de fé sincera, feito em silêncio ou em voz. Te elevo ao que é divino, quando estás a sós. Quem sou eu? 👉 7.Releia o poema de Celso Pinheiro e divirta-se com as respostas de cada questão.
- BAR DO FILHO CRENTE, O TCHEKA: A história de um bar como espaço de sociabilidade e entretenimento no Piauí
(*) Francisco de Assis Alves de Oliveira O presente artigo toma o bar do Filho Crente, o Tcheka e suas particularidades curiosas como objeto de estudo. Esse recinto é um dos espaço de sociabilidade na cidade de Barras-PI. Ao eleger esse espaço como objeto de análise, objetivamos estudar a capacidade de se relacionar e interagir do cidadão barrense no contexto de um bar. Frequentadores do Bar do Filho Crente numa manhã acalorada de conversas . Os bares da cidade se constituem em lugares de sociabilidade. O Bar é transformado literalmente em uma roda de conversas, espaço de lazer e demonstrações comportamentais de práticas da vida em comum. O aspecto de maior relevância observado no bar é as práticas da vivência em comum, quer dizer, momentos são vividos em comunhão de amigos. Também, são observáveis gestos nobres de habilidades sociais de quem frequenta o bar. Pessoas que nunca tinham se visto antes e logo passam a conversar como se já fossem amigos de longas datas; compartilhando entre si comidas que na maioria das vezes já são trazidas prontas de casa e servidas como tira-gosto. Nesse particular, o José Antônio, (o Vela) é tido como o rei do tira-gosto, ou seja; o que mais leva comida. Entre outros aperitivos, que também são abundantes. O tira-gosto, após entregue no balcão para o proprietário do bar, deixa de ser unicamente de quem levou e passa a ser compartilhado entre todos os presentes. Tcheka é uma das expressões utilizada para apelidar o dono do Bar. Essa expressão refere-se a um estrangeirismo aportuguesado que significa uma pessoa legal, pessoa cheque. Para além disso, observa-se que a forma que a palavra é escrita, Tcheka com a letra “K” remetente para o nome da primeira organização de polícia secreta da União Soviética, a Tcheka. O bar se trata de um estabelecimento comercial de tamanho reduzido, localizado na Rua Duque de Caxias, por trás do Banco do Brasil, quase esquina com a Rua Leônidas Melo, no centro de Barras-PI. Clientes em pé no balcão dentro do bar Foto: Arquivo pessoal do autor, 2023 O espaço funciona desde 1994. É um local sem identificação, de pouca estética. Porém, conseguiu fidelizar uma grande clientela, que visita com bastante frequência. Uma pequena mesa de madeira no centro do bar rodeada de amigos é cenário constante, mudando apenas os personagens. Ir para o bar do Tcheka não é visto apenas como um simples lazer. É também oportunidade para contemplar artefatos de importância histórica, que são preservados no local. É um ambiente bastante modesto que vende secos e molhados, juntos e misturados. Uma mistura de Bar com quitanda, museu, troca-troca e exposição iconográfica. Um lugar que se vende de tudo um pouco. Antes de se tornar um dos bares de maior movimento, no centro da cidade, deu seus primeiros passos 28 anos atrás em um cômodo de sua própria residência, na Rua General Taumaturgo de Azevedo. No pequeno bar, o empreendedor recebia somente pessoas próximas. Em pé, o proprietário do bar com alguns dos frequentadores mais assíduos. Foto: Arquivo pessoal do autor, 2023 A cerveja é servida ao clientes em um pequeno espaço, em que se bebe quase sempre de pé no balcão ou sentado em cadeiras tamborete. O balcão era uma peça usada no Banco do Brasil para atender os clientes. Descartada pelo banco, foi aproveitada como uma espécie de mesa, que se destina geralmente a servir bebidas. Muitos frequentadores são assíduos, cadeira cativa. Vez ou outra, é o próprio cliente que se serve, abre o freezer e pega a sua cerveja predileta. Ali, ressalte-se, cerveja, de todas as marcas. Depois do fechamento do Bar A Cubana, bar tradicional estabelecimento na rua Leônidas Melo por longos anos, o bar do Tcheka passou a ser um dos mais antigos em funcionamento, no centro da cidade. Em um espaço mais recuado, após o balcão, funciona uma cozinha improvisada. É neste local onde o proprietário do bar prepara o tira-gosto, geralmente levado pelos próprios clientes. Na área externa, um pequeno quintal no fundo do bar vem em socorro ao apertado espaço interno, onde o proprietário coloca algumas mesas debaixo do limoeiro. No meio do terreno, existe um frondoso pé de limão-azedo, que frutifica com abundância; atendendo as necessidades do bar e dos apreciadores de uma boa cachaça com limão. Uma mesa rodeada de amigos no bar do Tcheca ainda é a melhor rede social Foto: Arquivo pessoal do autor, 2023 Os envolvidos no mundo etílico que marcam presença no bar, dependendo do seu grau de embriagamento, deixam escapar algumas verdades e informações de primeira mão sobre temas diversos da sociedade barrense. Além do bate-papo animado que se estabelece, todo mundo fica sabendo das notícias e novidades que circulam na cidade. Assim se manifesta um cadeira cativa: “Venho para o bar do Filho para me atualizar das notícias da cidade”, ou seja; informações que circulam na boca do povo e nas ruas da cidade, cuja fonte é desconhecida. Porém, a sua veracidade pode ser autenticada. As regras de conduta do Bar são rígidas, quais sejam; quando um cliente está com o humor alterado e as emoções à flor da pele, o proprietário entra em ação para impor ordem na casa, o que faz com certo grau de rispidez. Isso termina por afastar temporariamente o freguês. Porém, tão logo reconhece o seu erro o cliente pede para voltar. E todos são bem-vindos e acolhidos ao retornar. Exposição de objetos históricos nas prateleiras do bar Foto: Arquivo pessoal do autor, 2022 Também, não podemos deixar de mencionar o apito como parte constituinte das regras do Bar. Diante de um debate acalorado, não é necessário o proprietário do estabelecimento pronunciar nenhuma palavra. Basta acionar o apita para avisar que alguém extrapolou as regras. O som do apito serve para advertir que está na hora de concluir a discussão e harmonizar o ambiente. O apito entra em cena para defender a pacificação e tolerante convivência entre as mais diversas opiniões. Destaca-se outra característica inerente ao bar do Filho que regula o funcionamento: o momento de fechar. Quase que de forma repentina, o proprietário do Bar simula o fechamento da porta e diz: “Rumbora pra casa!”. O Bar é fechado independente de quem esteja dentro, sem tolerância para tomar a saideira. Antes, porém, é dado o tempo necessário para os clientes terminarem o restante da cerveja que se encontra na garrafa; em seguida, o portão se fechar por completo. O bar é um ambiente familiar e de amigos. Assim afirma um frequentador: “O que me atrai aqui é os amigos, as histórias, as conversas que rolam aqui, não tem confusão”. Outro freguês afirma: “O que me atrai é a amizade que eu tenho com o filho e alguns amigos que frequentam aqui”. Também, o Bar do Filho trata de pautas quentes que vão de futebol à política. É palco de debates políticos acirrados, contudo respeitosos. Cada um defendendo o seu lado. Uns meio de esquerda e outros meio de direita. Exposição iconográfica e objetos antigos na parede do bar Foto: Arquivo pessoal do autor, 2023 Do ponto de vista político trata-se de um espaço plural e de perfil democrático, frequentado por um público mais adulto; constituído em sua maioria por quem possui diploma de curso superior; cidadãos com elevado grau de letramento. São eles professores, advogados, empresários, profissionais liberais autônomos e servidores públicos em geral; dos quais se destacam o professor Assis Mesquita e professor Vagner. O último, foi suspenso provisoriamente por falta disciplinar. Para a lista não ficar muito extensa, cito apenas alguns cadeira cativa. O dia mais indicado para comprovar os fatos narrados é a sexta-feira. Em umas dessas tradicionais e movimentadas sextas-feiras, estava presente o senhor Estevão Teixeira Marques, um animado frequentador que tem mais de 80 anos; um senhor de temperamento divertido, bem–humorado, simpático, que demostra facilidade para de se socializar e fazer amizades. “Aqui não tem preto e nem branco, não tem rico e nem pobre, aqui tem amigos”. (Estevão Marques. 31 de março de 2023.) . Ele pedia música na Alexa e passava a cantar como se fosse um karaokê. No momento de pedir a música, é um grande alvoroço. Duas ou três pessoas solicitam música ao mesmo tempo. No embaraçar das vozes, a Alexa não consegue entender o que foi solicitado. Não toca a música. Fica todo mundo chamando a alexa de burra. Misturados aos litros de bebidas, encontramos nas prateleiras, artefatos antigos e fotografias que transformam o bar do Filho/Tcheka em uma espécie de museu e memorial; preserva o passado por meio de objetos antigos. O acervo conta com variados modelos de rádio: Moto rádio de madeira, rádio Semp Toshiba (apelidado de rádio Jabuti). Também, faz parte do conjunto de objetos antigos um lampião a gás. Em 2025, o secretário da educação do município, prof. Ramon Vieira, adquiriu parte desse acervo para seu museu particular. Além do disso, existe à exposição diferentes modelos de celulares antigos. Entre os frequentadores, o ilustre professor de gerações de barrenses e comunicador Assis Mesquita. Na parede, do lado direito de quem entra no bar, existe uma exposição iconográfica, um painel fotográfico que, segundo o proprietário, fora montado sua montagem de forma natural e espontânea. Cada um dos frequentadores encarrega-se de afixar no painel a fotografia de sua preferência. A maioria das imagens advém dos próprios frequentadores que fazem questão de deixar registrado sua passagem pelo local. É possível ver imagens de alguns personagens históricos de Barras e do estado do Piauí. A exposição de objetos antigos e as fotografias na parede é uma atração à parte. É oportuno registrar que, entre um gole e outro de cerveja, existe a possibilidade de fazer uma troca de celular, relógio moto, televisão etc. Além de tudo isso, é ocasião oportuna para comprar vassoura de palha de carnaúba, lamparina, rede, chapéu, aparelho de barbear, tapete de chão, pneu de carro usado, conserva de pimenta-malagueta curtida na cachaça, entre outras miudezas. O bar do Filho crente, o Tchecka, tornou-se um indispensável ponto de encontro para os amigos do malte e de uma boa cachaça. Copo cheio, comida na mesa e amigos sentados ao redor, é cenário de rotina no bar. O público predominante dos frequentadores é de Homens, “só macho”, como diz um freguês do estabelecimento. Raramente se vê uma mulher. Para o bom cliente, existe até a possibilidade de deixar a conta anotada no caderno, ou seja, para se pagar depois. No entanto, para se cogitar essa possibilidade, é necessário que o bom freguês esteja com o score de crédito alto perante ao estabelecimento. O autor deste artigo, também frequentador, à direita É possível afirmar que o bar em estudo se constitui em um espaço de sociabilidade e de contato diário de pessoas que se divertem e fazem negócios em Barras-PI. Afinal, lugares de sociabilidade são espaços em que as pessoas se reúnem, para conversar, se divertir, conjecturar sobre assuntos variados e galhofar com os amigos. Bares, ruas, parques e praças são exemplos desses espaços. O bar do Tcheka se constitui em ambiente sociável, onde todos se alegram, bebem, degustam um bom tira-gosto e ouvem músicas, até recentemente executadas pela assistente virtual, Alexa. Vale ressaltar que a alexa foi recentemente vendida. O dono bar diz que está arrependido por ter vendido a assistente virtual e promete para breve o retorno da mediadora das músicas. Essa narrativa continua diariamente no entra e sai do bar, no que se conta e ouve ali, no riso do reencontro de amigos, na bebida sem excessos e na dinâmica da vida social. Com ou sem a Alexa, o bar do Tchecka é um espaço de tradição em Barras-PI. (*) Francisco de Assis Alves de Oliveira é pesquisador, graduado em História, com especialização em História do Brasil e Docência no Ensino Superior.
- A pergunta de abril
Quem sou eu? Ele foi um jornalista de expressão. Radicou-se no Rio de Janeiro, onde construiu bonita carreira. Faleceu jovem. Veja o registro visual e, se sabe ou imagina quem é a ilustre figura dessa foto, deixe seu comentário. Em maio, o Museu Virtual de Barras do Marataoã traz detalhes sobre o trabalho deste barrense em outras terras. Deixe aqui seu comentário. #barras #outrasterras
- Algumas lembranças barrenses de meu pai
(*) Elmar Carvalho Miguel de Carvalho e filhos, quando da comemoração de seus 90 anos. Miguel Arcângelo de Deus Carvalho é o nome completo de meu pai. Ele nasceu em Barras, no dia 5 de janeiro de 1926, filho único de João de Deus Nascimento e Joana Lina de Deus Carvalho. Perdeu seu pai quando tinha apenas 13 anos de vida, e cursava o ginásio no Colégio Diocesano, em Teresina. A infausta notícia lhe foi transmitida, com as cautelas de praxe, pelo Monsenhor Chaves, que depois viria a se tornar um dos maiores historiadores do Piauí, do qual vim a me tornar amigo, quando fui o presidente do conselho editorial da Fundação Cultural que leva o seu nome. Recebeu a impactante notícia da morte de seu pai logo após concluir a prova parcial do dia 30 de setembro de 1939. Padre Chaves foi afetivo e cuidadoso ao lhe dar a notícia, proferindo palavras de conforto e resignação; recomendou que meu pai fosse repousar. Diante desse inesperado acontecimento, papai voltou para Barras, a chamado de sua mãe, e só veio a concluir o ginásio muitos anos depois. Meu avô paterno se chamava João de Deus Nascimento; era filho de Emiliana e Silvestre Ribeiro do Nascimento. Graças a seu esforço e labor, fez prosperar uma gleba de terra, situada na data Luiz de Souza, e conseguiu amealhar algumas reses, engenho de cana e casa de farinhada. Era respeitado em sua localidade e na cidade de Barras, onde era muito conhecido. Portanto, cedo meu pai teve que trabalhar, para sustentar-se a si e a sua mãe, que morou em sua companhia até quando faleceu em Campo Maior, no início dos anos 1960. Fora outros empregos, trabalhou na Casa Marc Jacob e na Casa Inglesa, em Campo Maior, para onde se transferira aos 26 anos. Morava na vizinhança de meu avô uma sua parenta, creio que sobrinha, cega de nascença e entrevada, como se dizia antigamente. Levava a vida a cantar hinos religiosos e a rezar, em perpétua vigília e penitência. Meu avô, falecido em 1939, pedira para ser enterrado perto da cova de sua sobrinha. Talvez tenha sido recebido por ela, sarada de seus males, coberta pelo manto de glória e beatitude que deve ornar os que levaram uma vida de sofrimento, renúncia e conformação. No cemitério campestre da chapada de Luiz de Souza, perto de faveiras, sambaíbas, paus-d’arcos e pequizeiros, repousam, lado a lado, os restos mortais de meu avô João de Deus e dessa parenta, que aceitou com fé e resignação o sofrimento que lhe coube, e que viveu como um anjo, a orar e a entoar cânticos e “excelências” a Deus. Meu avô conheceu minha avó na cidade de Barras, onde ela morava em companhia de seu irmão Elpídio Lucas Furtado de Carvalho. Chamava-se Joana Lina de Deus Carvalho e nascera em Piripiri. Era filha de Miguel Furtado do Rego e de Izabel Lina de Carvalho, ambos de antigas estirpes piauienses. Muitas décadas após meu pai deixar o seu pago, fui com ele conhecer o local onde ele nascera, uma gleba encravada na data Luiz de Souza, que fica a poucos quilômetros da cidade de Barras. Vi meu pai tomado de profunda emoção, com os olhos marejados, a olhar o olho-d'água de sua infância, que ainda corria perene, a rever o buritizal da várzea e o morro verdejante onde se erguera outrora a casa de seu pai. Meu pai, ainda bem moço, veio para Campo Maior, onde trabalhou na Casa Marc Jacob e na Casa Inglesa, como já disse. Posteriormente, ingressou no antigo Departamento de Correios e Telégrafos - DCT, através de concurso público, no ano de 1958. No início de sua vida de casado e de servidor público, morou no povoado Papagaio, hoje cidade de Francinópolis, por cerca de um ano. O DCT virou ECT, nos anos 1970, e meu pai terminou indo para Parnaíba, onde por vários anos chefiou a agência local dessa empresa. Mas, amante inveterado e incondicional de Campo Maior, após sua aposentadoria, terminou regressando mais uma vez a minha terra natal, onde morou até o falecimento de minha mãe, Rosália Maria de Melo Carvalho, ocorrido em 2013, quando se mudou para Teresina, onde faleceu em 5 de novembro de 2017. Nos seus últimos anos de vida morou em companhia de meu irmão Antônio José e de sua esposa Maria de Jesus. Dentre os seus parentes mais próximos residentes em Barras, meu pai tinha especial consideração e estima por Elpídio Lucas, seu tio, e aos seus primos José, dito José Lucas, Salomão, Domingos Lucas, Noca, João Cardoso e certamente outros, cujos nomes esqueci, passados tantos anos. Em minha infância, estive de férias escolares em Ameixas, zona rural, hóspede de dona Noca e João Cardoso. Em minha adolescência passei, em algumas ocasiões, dias de férias na cidade, acolhido por Salomão de Sá Furtado. Em 1970, representando meu pai, fui para a posse de Salomão, como vice-prefeito, que, na legislação da época, passava a ser o presidente da Câmara Municipal. Salomão era um exímio operador de aparelho morse. Funcionário do antigo Departamento de Correios e Telégrafos - DCT. Ele não precisava ver a fita com os sinais gráficos do morse. Só pelo som, ele sabia o conteúdo da mensagem recebida. Coisa rara na época, ele tinha uma biblioteca em sua casa. Entre outros volumes, possuía uma coleção do detetive Sherlock Holmes, da autoria do célebre Conan Doyle, e uma de livros sobre a Segunda Guerra Mundial. Folheei e li algumas páginas desses volumes. Além de amante da leitura, ele tinha uma redação admirável, elegante, escorreita, e uma linda letra, estilizada, digna dos melhores calígrafos. Muitos anos após, quando participei da obra coletiva Galopando, lhe mandei um exemplar. Poucos dias depois, ele acusou o recebimento, através de uma bela missiva, em que dizia antever o meu futuro literário. Qual seria esse “futuro” não serei cabotino para revelar. Mas essa previsão alvissareira sem dúvida era fruto da amizade que ele tinha por meu pai, e que era correspondida na mesma intensidade. Dentre os parentes não residentes em Barras (a maioria morava em Teresina), meu pai fazia referência com mais frequência ou tinha mais contato com os seguintes: Mariá, casada com Deusdete Castro, comerciante, Socorro Lages Furtado, casada com o Kidniro, funcionário INCRA, gostava de ler romances; em minha adolescência me emprestou o livro Brocotós, da autoria de Fontes Ibiapina, João Berchmans, que foi escolhido por meu pai para ser meu padrinho de crisma, mas que por fatores adversos, terminou não acontecendo, Sebastião Aécio, médico e gestor de órgãos da Saúde estadual, e Bilé Carvalho, de voz forte, grave, estentórica, vibrátil, quase um trombone, que em suas agradáveis conversas desfiava um vasto anedotário sobre fatos e pessoas de Barras. Entre os vários parentes e amigos de meu pai, os seguintes, para minha satisfação e honra, também se tornaram meus amigos: Wilson Carvalho Gonçalves, notável historiador e dicionarista biográfico, membro da Academia Piauiense de Letras, auditor fiscal da Receita Federal e chefe na ESAF no Piauí, Adolfo Uchoa, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Piauí - TJPI, Walter de Carvalho Miranda, meu professor no curso de Administração de Empresas (UFPI), desembargador do TJPI e presidente do Tribunal Regional Eleitoral-PI e Geraldo Majella Carvalho, sobre o qual já tive oportunidade de dizer o seguinte: “Foi meu professor no curso de Direito (UFPI). Casou-se em 1954 com Maria Augusta Nunes, com quem passou a morar em Barras. Após o trabalho precursor e de consolidação de Helena Carvalho, Geraldo Majella, com o apoio de sua esposa, impulsionou o teatro em Barras, oportunidade em que atuaram no palco figuras como Bilé Carvalho, Francisca Araújo, Lourdinha Lustosa, Necy Araújo, Cauby Carvalho, Leônia Brasil e outros. Organizou e dirigiu o coral da matriz. Foi diretor do Barras Clube. O padre Lindolfo Uchoa, Geraldo Majella Carvalho e José Alencar Lopes (Zé do Honório) desenvolveram intenso trabalho em prol da criação do Ginásio N. Sra. da Conceição, que foi instalado no prédio do Grupo Escolar Matias Olímpio, onde passou a funcionar no turno da noite. Foram seus primeiros professores Geraldo Majella, Maria Augusta Nunes, Eliseu Albano, Raimundo Baptista, Conrado Amorim e sua esposa Olga Fernandes. Foi tabelião em Barras e Teresina. Exerceu o cargo de Juiz de Direito em Regeneração, ocasião em que se tornou um dos fundadores do Ginásio da CNEC nessa cidade, terra natal de sua esposa.” Essas são, em síntese, algumas das lembranças mais recorrentes de meu pai, referentes a Barras, sua amada terra natal, e que consegui reconstituir para uma live realizada por Dílson Lages Monteiro, que se encontra disponível no You Tube e no seu notável Museu de Barras. (*) Elmar Carvalho é membro da Academia Piauiense de Letras e de diversas academia regionais, entre elas, a Academia de Letras do Vale do Longá, cuja sede é em Barras do Marataoã-PI. Assista a "Miguel de Carvalho: memórias de um barrense recontadas pelo filho Elmar Carvalho".
- 60 anos do pé de figueira da Fazenda Guaribas
Soraia Alves Torres, neta de Olavo Ribeiro Torres, no pé de figueira da Guaribas, (*) Reinaldo Barros Torres Construída há cerca de 190 anos, a casa grande da Fazenda Guaribas, localizada na divisa dos municípios de Barras com Nossa Senhora dos Remédios, norte do Piauí, foi o local onde meus avós Olavo Ribeiro Torres e Zenobia Barbosa Torres criaram seus rebentos em terras herdadas do meu bisavô Fernando Ribeiro Torres, o Fernandinho (para mais informações, consulte plataforma de dr. Edgardo Pires Ferreira. CLIQUE AQU I). Por toda sua extensão, a estrada que passa em frente a casa é o marco divisório de Barras e Nossa Senhora dos Remédios, hoje Povoado Santo Antônio. Do lado da antiga casa de Olavo e Zenobia (hoje, 2024, sobre a administração de Iracema Torres), está o município de Barras; do outro lado o município de Nossa Senhora dos Remédios. Em 13 de janeiro de 1964 meu pai José Ribeiro Torres casou-se com minha mãe Maria Inês da Cunha Barros Torres e como um marco da união conjugal, plantou um pé de figueira em frente a casa da fazenda (do lado do município de Nossa Senhora dos Remédios), trazido da cidade de Barras como doação do "Senhor Caboclo", dono de uma conhecida lanchonete situada em frente a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, onde hoje (2024) está a sede do Banco do Brasil. Casa-grande da Fazenda Guaribas, hoje pertencente à Iracema Rodrigues Torres, prima de Olavo Torres. Com 60 anos completados em 2024 o pé de figueira pode ser derrubado. É que a Equatorial Energia @equatorial.pi resolveu fazer uma linha energizada que passará exatamente por cima do decano pé de figueira, destruindo um marco divisório entre dois município e apagando uma história da vida do meu pai José Ribeiro Torres, que no dia 30 de janeiro deste ano (2024), completou seus 83 anos bem vividos. Na foto minha prima Soraia Alves Torres, emprestando sua beleza para deixar o pé de figueira ainda mais bonito. . (*) Reinaldo Barros Torres, jornalista e poeta, ocupa uma das cadeiras da Academia de Letras do Vale do Longá. .











