Antônio Carvalho de Almeida: história familiar e a ocupação da antiga Barras
- dilsonlages
- 23 de jul.
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Gilberto de Abreu Sodré Carvalho - genealogista, historiador e ficcionista
Não atingi as origens remotas do sobrenome Carvalho, na minha genealogia patrilinear, para além do século 17 e, geograficamente, em lugar anterior ao seu surgimento em Ribeira de Pena. O apelido é toponímico e pode ser uma ramificação descendente, por homem ou mulher, daqueles da honra de Carvalho, terra com privilégios passados e reconhecidos pelo rei, em Celorico de Basto, lugar próximo a Ribeira de Pena, na mesma região do rio Tâmega. O primeiro adotante dessa sobrenomeação foi o cavaleiro Paio de Carvalho, no século 12.
No Piauí, fomos voltados para a terra do gado vacum e do algodão, para a produção da carne seca e o comércio a grosso. Fomos povo do sertão e das agruras da vida simples; muito católicos. Não fomos barões nem intelectuais.
Essa história é dos séculos 18 e 19. No século 20, há empobrecimento na minha linha genealógica patrilinear. pelo fato de meu bisavô José Carvalho de Almeida (segundo do nome) ter morrido cedo, com o que se perdeu a riqueza que poderia ser havida se tivesse tempo.
Um grupo de homens de apelido “Carvalho”, configurados como “Carvalho de Almeida”, veio ao Piauí na passagem do século 17 para o 18, e durante esse último século.
Os primeiros párocos no território atual do Piauí foram os padres Miguel Carvalho de Almeida (vigário de Rodelas), Tomé de Carvalho e Silva (vigário da Mocha) e Inocêncio Carvalho de Almeida (vigário da Barra, com jurisdição no médio e alto Gurgueia e Curimatá, território que iria se constituir no antigo termo de Parnaguá), todas paróquias da jurisdição do bispado de Pernambuco. Algum tempo depois, a freguesia da Mocha recebe o território do médio e alto Gurgueia em permuta pelo território do São Francisco, que lhe pertencia.
Contemporaneamente a esses três Carvalho, também chegava Bernardo de Carvalho, possivelmente parente dos três referidos. Beranrdo iria ser mestre-de-campo do novo território, plantaria fazendas e geraria descendência.
Duas décadas depois, chegavam Manuel Carvalho de Almeida e Antônio Carvalho de Almeida (segundo do nome), ambos militares reinóis. Portanto, são seis portadores da sobrenomeação Carvalho, todos portugueses, três religiosos e três militares.
Muito havia de fantasia e erro quanto ao parentesco entre esses seis personagens históricos, no entanto, com o acesso a um inventário por iniciativa de Gustavo Conde Medeiros, em 2017, e a um processo de habilitação de um sobrinho à herança do tio vigário, no caso, o padre Tomé de Carvalho e Silva, muita coisa é desvendada. A esses dados, junta-se um estudo revelador publicado pelo medievalista português Manuel Abranches de Soveral, que traz a origem dessa gente no Reino (Famílias de Ribeira de Pena: subsídios para a sua genealogia – séculos XV a XVIII).
Fica elucidado o parentesco entre os três padres que chegaram ao bispado de Pernambuco, no final do século 18, sendo o padre Miguel Carvalho de Almeida – o famoso padre Miguel de Carvalho - irmão do padre Inocêncio Carvalho de Almeida, e ambos primos do padre Tomé de Carvalho e Silva.
Também, o parentesco destes com o nosso capitão-mor Antônio Carvalho de Almeida (segundo do nome), que colonizou o Norte do Piauí e deixou grande parentela Carvalho e de apelido Castelo Branco. Ele era sobrinho, protegido e herdeiro do padre Tomé de Carvalho e Silva. Teve um homônimo, Antônio Carvalho de Almeida (primeiro do nome) que foi capitão-mor do Rio Grande do Norte. Esse Antônio, mais velho, foi irmão dos padres Miguel e Inocêncio.
A família Carvalho teve ao menos três padres com o nome de Miguel, em homenagem a um ancestral comum, sendo que dois destes se vincularam ao Piauí.
Reginaldo Miranda anota que ainda não foi esclarecida a descendência de Antônio Sanches de Carvalho, filho de Isabel de Almeida e Domingos Dias da Silva, e sobrinho e herdeiro por testamento do Pe. Tomé, que também se fixou no Piauí. No testamento do padre Tomé de Carvalho e Silva, observa-se que o padre André da Silva, coadjutor em Oeiras, era seu sobrinho-neto, por algum caminho.
O Comissário Geral da Cavalaria Manuel Carvalho de Almeida, vivente entre os séculos 17 e 18, pode ser filho do padre Miguel; com nascimento no Reino, o padre ainda muito novo; e entregue ao casal Belchior Gomes da Cunha (um pai oficial emprestado) e Isabel Rodrigues (mantida ainda como possível verdadeira mãe).
Não seria possível a um popular (fosse Manuel um popular) obter a patente regular do Exército de “comissário geral da cavalaria”, uma condição análoga à de major ou mesmo de tenente-coronel, nos tempos de hoje.
Hoje, penso, de conformidade com Manuel de Soveral, respeitabilíssimo genealogista português, que seria improvável que alguém, sem alguma origem nobre, pudesse ser um oficial superior do Exército, no período dado. Daí, Soveral propõe que Manuel foi filho do padre Miguel, possivelmente com a referida Isabel Rodrigues. Belchior teria servido como pai emprestado. O fato de o padre Miguel ser religioso, nobre que era no sentido praticado no século 17 português e antes, não prejudicaria em nada a passagem de nobreza para um filho seu, nascido antes ou após ser consagrado sacerdote. A doutrina da nobreza entendia desse modo.
O filho primogênito de Manuel, de nome completo Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco, omitiu os nomes de seus avós paternos (os pais de Manuel) em sua justificação de nobreza de 1765 (aos seus 49 anos), feita em Campo Maior, na capitania do Piauí[1]. A única referência aos avós paternos de Francisco era de serem de Videmonte, Linhares. Por que Francisco teria omitido os seus nomes? Francisco casou-se com a filha mais velha do nosso Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo) e de Maria Eugênia Mesquita Castelo Branco (neta de Dom Francisco de Castelo Branco), de nome Ana Rosa Pereira Teresa do Lago. Francisco, por via de sua mulher, tinha acesso a toda memória dos Carvalho de Ribeira de Pena. Curioso o nome completo de Ana Rosa, que não sabemos as razões para o ter adotado quando moça. Sei apenas, como um frágil esboço de palpite, que a mulher de Antônio Carvalho de Almeida (primeiro desse nome completo) se fez chamar Maria Teresa Pereira Rebelo Leite.
Voltemos a Francisco, marido de Ana Rosa.
Ainda que Francisco não tenha nomeado os pais de Manuel em 1765, indicou-os em uma petição, datada de 1787, dirigida à rainha de Portugal, Dona Maria I, na qual pedia o início dos procedimentos para a obtenção do hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo.
Em 1787, Francisco da Cunha e Silva Castelo Branco tinha 71 anos de vivo. No requerimento, de 1787, ele declara, como pais de Manuel, seu pai, Belchior Gomes da Cunha e Isabel Rodrigues. O fato de Francisco não ter querido dizer os nomes de seus avós paternos (os genitores de Manuel) na justificação de 1765, foi superado pelo fato de os ter finalmente identificado na petição à rainha Dona Maria I, em 1787.
A hesitação de Francisco ou, no mínimo, a sua falta de assertividade e de detalhes sobre os genitores de seu pai Manuel, levam-me à solução de que o pai seria o padre Miguel Carvalho de Almeida (o famoso cronista do Piauí do século 17).[2]
O padre Miguel de Carvalho, também conhecido como padre Miguel de Carvalho e Almeida, e ainda como padre Miguel Carvalho de Almeida[3], nasceu em 1664, em Ribeira de Pena, no antigo arcebispado de Braga, no norte do Reino.
Hoje, o lugar Santo Aleixo, onde nasceu, é a freguesia de Salvador e Santo Aleixo de Além-Tâmega. Está no concelho de Ribeira de Pena, agora no distrito de Vila Real.
O padre Miguel Carvalho de Almeida possivelmente morreu em Lisboa, tendo passado um longo tempo, quando jovem (entre 1693-1698), na então circunscrição do bispado de Olinda, também referido como bispado de Pernambuco, na América Portuguesa.
Miguel Carvalho de Almeida (pai do padre Miguel) foi filho de Domingos Carvalho (ou de Carvalho), moço da câmara da Casa Real, juiz de órfãos de Ribeira da Pena e senhor da Quinta de Bragadas de Além-Tâmega, em Santo Aleixo, onde faleceu em 7 de julho de 1668, e de Catarina de Almeida (primeira desse nome completo), nascida cerca de 1608. Essa Catarina foi filha de Antônio Gonçalves de Matos e de Maria Leitão de Almeida, nascida em Santa Marinha de Ribeira de Pena.
O padre Miguel Carvalho de Almeida, primogênito, teve três irmãos inteiros:
Domingos Carvalho de Almeida[4] — moço da câmara da Casa Real (12 de janeiro de 1699), cavaleiro da Ordem de Cristo (9 de março de 1699), capitão-mor de Ribeira de Pena, familiar do Santo Ofício (16 de setembro de 1700), senhor da Quinta de Bragadas, em Além-Tâmega, Santo Aleixo, e da Quinta de Senra de Cima, em Salvador, Ribeira de Pena. Teve, em 4 de outubro de 1710, carta de cota-de-armas para “Carvalho” e “Almeida”. A Quinta de Senra de Cima foi armoriada de escudo partido de “Carvalho” e “Almeida”.
Antônio Carvalho de Almeida — moço da câmara da Casa Real (12 de janeiro de 1699), cavaleiro da Ordem de Cristo (9 de março de 1699), capitão de infantaria, mestre de campo dos auxiliares de Chaves, capitão-mor de Natal, no Rio Grande do Norte, familiar do Santo Ofício (8 de março de 1702), escrivão proprietário do cartório do concelho de Cabeceiras de Basto e dos coutos de Refoios e Abadim (16 de maio de 1745). Casou-se com Maria Teresa Pereira Rebello Leite.
Inocêncio Carvalho de Almeida — capelão-fidalgo da Casa Real (12 de dezembro de 1699).
Este Antônio, irmão do padre Miguel e do padre Inocêncio (e também de Domingos, que não nos importa aqui), é referido como tendo substituído a Bernardo Vieira de Melo e tendo sido sucedido por Sebastião Nunes Colares, como capitão-mor do Rio Grande do Norte. Sua designação para esse posto ocorreu quando a capitania foi passada da Bahia para Pernambuco[5]. Sobre Antônio Carvalho de Almeida (ou de Carvalho e Almeida), o capitão-mor, conforme consta dos assentamentos da Torre do Tombo, ele foi feito moço de Câmara, pelo rei Dom Pedro II, em 1699, tal qual tinha sido seu avô Domingos Carvalho ou de Carvalho, o qual é dito como tendo sido, a seu tempo, moço da Câmara.
O nosso Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo) teria morrido em 1775 e ingressou na América Portuguesa pela Bahia, tendo como lugar de sua primeira residência, Jacobina, onde foi capitão de ordenanças[6]. O outro Antônio Carvalho de Almeida (primeiro desse nome completo) seria alguém já maduro no ano de 1701, quando foi diretamente para o Rio Grande do Norte. O padre Miguel é referido como missionário naquela capitania[7]. Pode ser que o padre Miguel tenha ido ao Rio Grande do Norte, vindo do Piauí.
Em suma, os irmãos Miguel, Antônio e Inocêncio, filhos de Miguel Carvalho de Almeida (sênior) e de Helena Gonçalves de Matos, estiveram juntos no Nordeste, no mesmo período ou aproximado, entre o final do século 17 e início do século 18.
Domingos Carvalho de Almeida, o irmão segundo que sucedeu ao pai, ficou em Ribeira de Pena, como senhor de solar, esquivando-se de aventuras no Novo Mundo. De rigor, conforme os costumes, o sucessor da tradição não se movia da sua sede.
O padre Tomé de Carvalho e Silva, o padre Miguel de Carvalho e Silva e o sobrinho desses dois, Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo), seguiram na segunda leva da parentela Carvalho de Almeida. Este Antônio era, como já dito, filho de uma irmã inteira dos dois padres, de nome Isabel de Almeida, com Domingos Dias da Silva.
Pode-se ainda trazer para esse rol de personagens, o provável parente, o valoroso Bernardo Carvalho de Aguiar, de quem Manuel foi homem de confiança. Esse, não por coincidência inexplicável, era de Vila Pouca de Aguiar, concelho que em sua formação territorial originária continha o povoado da Ribeira de Pena[8].
No final do século 17, o ouro achado onde hoje está a cidade de Jacobina (conhecida também como Jacobina do Norte ou Jacobina Velha), na Bahia, atraiu os bandeirantes paulistas. No início do século 18, a exploração ainda era clandestina, mas, a partir de 1722, a mineração passou a ser controlada pela governação régia. Em 1726, por provisão do Conselho Ultramarino, foi construída uma casa de fundição. A arrecadação passou em pouco tempo a cerca de 3.841 libras de ouro.
Antônio Carvalho de Almeida veio do Reino para a Bahia para servir como capitão da guarnição de Jacobina. Antônio, meu sexto-avô patrilinear, marido de Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, minha sexta-avó, nasceu em Santo Aleixo de Além-Tâmega, Ribeira de Pena, Arcebispado de Braga, em Portugal. Faleceu depois de 1768, ano do casamento de seu filho Antônio Carvalho de Almeida (meu sexto-avô patrilinear), e antes de 1778, quando do casamento de sua filha Ana Maria, na fazenda Taboca, então Parnaíba, depois Campo Maior, em seguida Barras do Marataoã e hoje no atual município de Esperantina. Segundo Castelo Branco (2013), Antônio Carvalho de Almeida e sua esposa foram os primeiros habitantes do lugar Batalha. O lugar Batalha surgiu a partir da carta de data da sesmaria Caraíbas, concedida, a 18 de julho de 1737, ao casal Antônio e Maria Eugênia, pelo governador do Maranhão e Grão-Pará, João de Abreu Castelo Branco. Nessas terras, Antônio Carvalho de Almeida fundou uma fazenda situada na margem direita do rio Longá.
O padre Tomé de Carvalho e Silva, tio de Antônio Carvalho de Almeida, que havia sido o vigário da Mocha, atual Oeiras, era proprietário de terras na freguesia do Longá, tendo fundado ali as fazendas Victoria e Tranqueira, ao longo do rio Longá, do lado direito do rio.
Antônio Carvalho de Almeida e o seu tio, o padre Tomé de Carvalho e Silva pleitearam e receberam cartas de data de sesmaria em 1739, nos seus nomes e nos nomes dos três filhos de Antônio. Sustentaram o pleito no fato de ali terem fundado fazendas de gado vacum havia mais de 33 anos, ao longo do rio Longá, do lado direito, rio acima, entre a atual divisa com o município e a antiga freguesia de Piracuruca, no estreito do rio dos Matos (antigo Mato Grosso), onde começava a fazenda da Victoria, até a fazenda Boa Esperança, passando pela fazenda da Tranqueira, até lindar com a antiga fazenda Taguary, na confluência do riacho Taguary.
Antônio Carvalho de Almeida casou-se cerca de 1726, em Parnaíba, com Maria Eugênia de Mesquita Castelo Branco, nascida cerca de 1710, em Parnaíba, falecida provavelmente no lugar Batalha, onde hoje se encontra a cidade de Batalha. Ela era filha de João Gomes do Rego Barra e Ana Castelo Branco de Mesquita.
Antônio Carvalho de Almeida, depois de casado, retornou com a mulher ao seu posto na guarnição de Jacobina Velha, na Bahia, onde nasceram seus filhos. O casal se transferiu definitivamente para a fazenda Victoria, situada em terras do atual município de Esperantina, poucos anos antes de receber as cartas de data de sesmarias, em 1739, visto que as fazendas Boa Esperança, Tranqueira e Victoria estavam até então nas mãos do padre Tomé de Carvalho e Silva, tio de Antônio. Antônio Carvalho de Almeida e Maria Eugênia Mesquita Castelo Branco construíram sua casa-grande no sítio (local) da fazenda da Victoria e lhe deram nome de Taboca. A casa-grande foi edificada na margem esquerda da confluência do riacho Tabocas com o rio Longá, no antigo município de Parnaíba, depois Barras, atual Esperantina.

Notas
[1] É curioso que esse documento, datado de 1765, tenha sido apresentado em Castelo Branco (1980), p. 217-238. A curiosidade está em que, no contexto do livro de Renato Castelo Branco, ele pretendia indicar, ou mesmo comprovar, a condição incontroversa de nobreza por parte de Francisco. Talvez, Renato nunca pudesse admitir que o documento fosse usado para sugerir que Francisco não sabia sobre seus avós paternos.
[2] Eu mesmo sou descendente de Manuel, várias vezes. Meu sobrenome Carvalho, no entanto, vem, patrilinearmente e sem interrupção, de Antônio Carvalho de Almeida (segundo desse nome completo), que não é irmão nem parente documentado de Manuel, como se tem neste corrente ensaio.
[3] Os apelidos da mesma pessoa podiam variar com as circunstâncias
[4] Que podia variar para Domingos de Carvalho e Almeida.
[5] Rosas (1999).
[6] Dados sobre o Antônio, sobrinho, constantes de Pires Ferreira (2013) e de Castro (2014).
[7] Verbete “Antônio de Carvalho e Almeida”, no site da Fundação José Augusto – Centro de Estudos e Pesquisas Juvenal Lamartine - CEPEJUL: fjacepejul.nr.gov.br, em outubro de 2016.
[8] Conforme Marques (1993), o concelho de Ribeira de Pena foi criado pelo rei Dom Afonso IV, em 1331, por pedido de seus moradores. Até então, Ribeira de Pena era parte do concelho de Aguiar de Pena, depois dita Vila Pouca de Aguiar. Muito tempo transcorreu até o final do século 17, no entanto, a região é a mesma.
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