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  • Capitão Miguel Carvalho e Aguiar

    Antiga Rua Grande de Barras do Marataoã, depois Getúlio Vargas, hoje Taumaturgo de Azevedo, coração da vida de Barras, em imagem da década de 1940. *Reginaldo Miranda Foi um importante militar e fazendeiro com atuação na bacia do rio Longá, durante a primeira metade do século XVIII, sobretudo em sucessão ao pai, que fora figura central na colonização daquela região centro e norte do Piauí. Nascido cerca de 1690, em fazenda paterna do vale do rio São Francisco, freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Rodelas, era filho primogênito do eminente mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar e de sua esposa Mariana da Silva, ele natural de Vila Pouca de Aguiar, em Portugal, ela do mesmo sertão do rio São Francisco. Possuía ao menos dois irmãos que lhe sucederam na ordem de nascimento: Bernardo Carvalho de Almeida e D. Antônia de Aguiar, que fora casada com o coronel Manuel Xavier A’la. Desde a meninice acompanhou o pai em sua mudança para o sertão do Piauí, criando-se nas margens das lagoas e igarapés da fazenda Bitorocara, hoje cidade de Campo Maior. Ele assim afirma em petição endereçada ao governador do Maranhão, Cristóvão da Costa Freire, ao pleitear carta de sesmaria da fazenda Serra, no sertão dos Alongasses. Resumindo seu petitório, anotou aquele governador na carta concessiva da sesmaria, datada de 15 de janeiro de 1713: “A Christóvão da Costa Freire, governador e capitão-general do Maranhão, enviou dizer por sua petição Miguel Carvalho de Aguiar [1] , filho do coronel Bernardo Carvalho de Aguiar, morador na capitania do Piauhy, aonde se criou em companhia do dito seu pai, ajudando-o em tudo o que era necessário no serviço de Sua Majestade, contra os gentios da dita capitania em muitas hostilidades que cometiam contra os brancos portugueses dela” (PT/TT/RGM/C/0009. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 9. Fl. 370v. 447v-448) No entanto, com o Levante Geral dos Índios e a nomeação de seu pai para mestre-de-campo da conquista do Piauí e Maranhão, a situação recrudesceu. Por essa razão, em 1715, sentou praça no posto de tenente do regimento de cavalaria do Piauí, auxiliando o genitor nas mais diversas diligências e entradas contra o gentio, servindo sempre com zelo e muita satisfação [2] . No ano seguinte, foi mandado [3] pelo referido mestre-se-campo em diligência à capitania do Ceará, para buscar índios aliados em Ibiapaba, a fim de auxiliar as tropas de combates aos revoltosos. E nesse desiderato seguiu jornada de cento e trinta léguas, em que gastou três meses no percurso de ida e volta, em pleno inverno em que muito padeceu, tendo de andar por terrenos alagados, atravessar uns rios a nado e outras em balsas por ele fabricadas, seguindo por terrenos ásperos e perigosos, passíveis de ataque do gentio rebelado. Os aprestos de cavalos, escravos, armas e munições foram por ele custeados, segundo informa, no que fez grande despesa. E trazendo os índios aliados, na volta ainda aprisionou dois criminosos que iam foragidos pelo caminho, trazendo-os para o arraial de seu genitor. Em face do grande zelo com que sempre se conduziu no real serviço, em 1717, foi nomeado pelo governador Cristóvão da Costa Freire, para o posto de coronel de cavalaria, que vagou porque o titular André Gomes da Costa mudou-se para a cidade de Bahia. Nesse posto foi confirmado por carta patente de 6 de janeiro de 1718. Passou a auxiliar o pai em todas as diligências e combates contra o elemento indígena, sendo elemento decisivo em diversos confrontos. No entanto, um fato relevante desse período foi a incumbência que recebeu do governador do Maranhão, para liderar “uma escolta de cento e tantas pessoas a prender certos homens facinorosos”, “cuja diligência executou com pronta obediência e boa satisfação, trazendo-os presos e os entregando àquele governador. No entanto, porque não vencia soldos nesses postos anteriores, os largou e novamente reiniciou a carreira, sentando praça de soldado raso em 4 de novembro de 1720, no dia seguinte galgando o posto de sargento do número da conquista do Piauí, em cujo posto serviu pelo tempo de dois anos, dez meses e quatro dias; em 1721, participou ao lado do pai da conquista do gentio paracati, matando e aprisionando à quase totalidade daquela nação; em 8 de setembro de 1723, foi provido no posto de ajudante do número da conquista, servindo por sete meses e vinte e sete dias; finalmente, em 3 de maio de 1724, alcançou a patente de capitão de infantaria da conquista, por nomeação do general João da Maia da Gama (19.7.1722 – 14.4.1728). Durante esse tempo, assistiu na conquista do Piauí pelo espaço de dois anos, quatro meses e dez dias, até 15 de março de 1723, dia em que se apresentou na praça do Maranhão; assistiu na conquista do Mearim [4] , desde 18 de outubro do dito ano de 1723, ali permanecendo ao lado do pai no arraial que fundaram na margem daquele rio, para dar combate ao gentio bárbaro, conforme diz em correspondência datada de 3 de março de 1725. Lideravam um contingente de cem soldados da infantaria paga da guarnição de São Luiz, e ali grande serviço prestaram no apaziguamento da região. De retorno ao seu domicílio em março de 1725, pleiteia a confirmação da referida patente militar e o pagamento de soldos. Com o fim dos conflitos fixa residência em definitivo na extensa fazenda das Barras, na ribeira do Marataoan, onde este entra no rio Longá, passando a apascentar o seu rebanho, por aquele tempo já em número avantajado, distribuído em diversas fazendas. Embora tendo sido casado na Bahia, durante a mocidade, Miguel Carvalho de Aguiar, pouco conviveu com a esposa, de quem separou-se, de fato, meses depois do matrimônio, antes de gerarem filhos ou construírem patrimônio comum. Segundo ele em seu testamento, esta foi-lhe arrancada de casa, violentamente, pelos parentes. Por isso, na fazenda recebia os favores exclusivos das negras escravas, com quem gerou alguns filhos. Por esse tempo preocupou-se em regularizar seu patrimônio, assim requerendo às autoridades competentes. Como consequência, em 28 de janeiro de 1734, é passada provisão ao ouvidor-geral Francisco Xavier Morato Boroa, para tombar e demarcar as terras do peticionário. Em seu anterior petitório [5] alegou o proprietário que ele e seu defunto pai tinham conquistado muitas terras ao gentio brabo, tanto no Piauí quanto no Maranhão; também, que além dessas, seu pai havia adquirido em arrematação judicial três fazendas que pertenceram ao falecido mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior, denominadas: Campo Largo [6] (na margem do rio Parnaíba, limitando-se com o riacho Piranhas), Arraial Velho [7] (na margem do Parnaíba, lado do Maranhão, adquirida pelo primitivo proprietário juntamente com a contígua fazenda Nazareth, ambas com dez léguas de comprido e uma de largo) e São Francisco, sitas na Parnaíba, distrito das ditas conquistas do Piauí e Maranhão. De fato, em 4 de junho de 1739, recebeu a confirmação de sesmaria no lugar Campo Largo, com três léguas de comprido e uma de largura, desbravada por seu pai. Este o havia recebido em sesmaria pelo governador Cristóvão da Costa Freire, no ano de 1713, porém, o pleito de confirmação fora desencaminhado no reino [8] , obrigando ao novo pleito do filho e herdeiro. Pelo mesmo motivo, vai adquirir confirmação de sesmaria no Arraial Velho [9] , situado na margem esquerda do rio Parnaíba, alegando que o seu falecido pai já a tinha adquirido em 1713, sendo o documento desencaminhado [10] . Em 15 de janeiro de 1713, já havia recebido do governador do Maranhão, uma sesmaria no lugar denominado Serra, no sertão dos Alongases, medindo três léguas de comprido e uma de largura. Foi confirmada [11] em 26 de janeiro de 1718. Encontramos registro ainda de que o capitão Miguel de Carvalho e Aguiar, vendeu a fazenda Jatobá, com três léguas de comprido e uma de largura, ao seu cunhado coronel Manoel Xavier A’la; vendeu a fazenda das Matas, com três léguas de comprido e duas de largura, a Luiz Pinheiro dos Santos; e ainda traspassou a fazenda Riacho do Padre a seu irmão fr. Bernardo de Carvalho. O capitão Miguel de Carvalho e Aguiar, fez testamento em 9 de dezembro de 1749, declarando que àquela altura possuía dezenove escravos e quatro fazendas, cujo valor estava avaliado em quarenta mil cruzados, pouco mais ou menos, a saber: das Barras, na ribeira do Maratahoan, no Longá, Campo Largo, São Francisco e Arraial, essas últimas situadas na ribeira do Parnaíba. O capitão Miguel de Carvalho e Aguiar, deu início à construção da capela de Nossa Senhora da Conceição, em sua fazenda das Barras, por volta de 1740 [12] , falecendo sem concluí-la, mas deixando bem adiantada a construção, onde já se fazia o sacrifício da missa. Foi, assim, o primeiro morador do lugar e o pioneiro fundador do núcleo que deu origem à atual cidade de Barras, no norte do Estado. Faleceu o coronel Miguel de Carvalho e Aguiar, por volta do ano de 1752, em sua fazenda das Barras, sendo o corpo sepultado em sua capela de Nossa Senhora da Conceição, vestido no hábito de São Francisco, conforme as disposições testamentárias. Deixou para patrimônio da capela quinze éguas com seu ferro na fazenda do Arraial [13] . Por disposição testamentária, deixou a fazenda para a filha Ana, ainda menor, havida com uma escrava. O padre Cláudio Melo nos dar essas importantes informações, mas desconhecia como a fazenda e a capela teriam passado ao abastado fazendeiro Manuel da Cunha Carvalho [14] . Ocorre que este a adquiriu por arrematação no juízo dos ausentes, em face da execução de dívidas. Ali estiveram paroquiando os devotos, os freis Manuel da Penha e Gabriel Malagrida, tendo este último, em 1759, com sua palavra fervorosa exortado Manuel da Cunha Carvalho para concluir o templo religioso, como de fato ocorrera. Segundo anotou o inolvidável David Caldas, filho ilustre da localidade, àquele tempo a capela “só tinha o presbitério coberto e o mais não passava de alicerces ou começo de paredes”, tendo a obra sido “concluída em pouco tempo” [15] . Posteriormente, o referido Manuel da Cunha Carvalho, vendeu a maior parte dessa fazenda a Manuel Antunes da Fonseca [16] , porém, reservando para si pouco mais de uma légua de terras, no entorno da capela de Nossa Senhora da Conceição. Com o esfacelamento da fazenda das Barras, a gleba remanescente ficou conhecido por Buritizinho, segundo se depreende das notas de David Caldas. Ao falecer Manuel da Cunha Carvalho, em 8 de dezembro de 1776, deixou a referida fazenda e seus outros bens ao sobrinho Manuel José da Cunha. Para legado da capela deixou uma dotação de Rs. 150$000 a ser administrada pelo referido sobrinho, que a multiplicou com o giro do capital, transformando-a em Rs. 205$000. Ao falecer em 2 de abril de 1804, este sobrinho doou meia légua de terras que lhe restara, para patrimônio da Igreja. Por esse tempo, já se formara pequena povoação em torno da capela, contando com oito casas residenciais, sendo duas cobertas de telhas e seis de palha. Estavam, assim, lançados os fundamentos da futura vila, depois cidade de Barras, no norte do Piauí. O coronel Miguel de Carvalho e Aguiar foi dessa saga o iniciante. _____________________ *REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br   [1] O nome aparece com mais frequência Miguel de Carvalho e Aguiar, sendo esta a forma corriqueira de seu genitor, mas também Miguel Carvalho de Aguiar, como também, às vezes, aparece o genitor. [2] Existe registro de que nesse ano, com uma escolta, perseguiu uma maloca de índios pelo baixo-Parnaíba, afugentando-a. [3] Com ele foi também o capitão Manoel Antunes Trigo. Nesse mesmo ano, Miguel Carvalho de Aguiar acompanhou o mestre-de-campo seu genitor, numa tropa de guerra ao Maranhão, em que deram combate aos aranhi, matando muitos e aprisionando outros (AHU. ACL. CU 009. Cx. 14. D. 1446). [4] Conforme seus assentamentos militares e certidão emitida pelo desembargador Francisco Machado, auditor da gente de guerra do Maranhão (AHU. ACL. CU 009. Cx. 14. D. 1446). [5] AHU. ACL. CU 016. Cx. 2. D. 103.   [6] Confirmada por carta de 13 de maio de 1743 (PT/TT/RGM/C/0034/59853. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 34, f.120. [7] Confirmada por carta de 5 de maio de 1743 (PT/TT/RGM/C/0034/59854. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 34, f.12)     [8] AHU. ACL. CU 013. Cx. 24. Doc. 2289.   [9] Fundado pelo mestre-de-campo Antônio da Cunha Souto Maior. Depois as terras foram adquiridas por seu pai e nesta forma repassadas ao filho. É a origem da cidade de São Bernardo do Maranhão. Foi o último domicílio do mestre-de-campo Bernardo de Carvalho e Aguiar, onde veio a falecer. [10] AHU_ACL_CU_009, Cx. 14, D. 1445 e 1453. Cx. 26, D. 2718.   [11] PT/TT/RGM/C/0009. Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, liv. 9. Fl. 370v. 447v-448   [12] O ano da fundação foi indicado pelo historiador e padre Cláudio Melo, em seu livro Fé e Civilização . Discorrendo sobre a capela de Nossa Senhora dos Humildes de Alto Longá, anotou: “Por volta de 1740 os moradores daqueles sítios se reuniram e levantaram a primeira capela de Nossa Senhora dos Humildes”. Em seguida, afirmou sobre Barras: “A primeira Capela de Barras foi construída mais ou menos no mesmo tempo em que se fez a de Humildes. É obra da piedade do Cel. Miguel de Carvalho e Aguiar”. [13] O mesmo Arraial Velho. [14] Manoel da Cunha Carvalho, posteriormente vendeu parte dessa fazenda a Antônio da Costa Oliveira e este, reservando para si uma parte, vendeu outra parte a Manoel Antunes da Fonseca. No entanto, Manoel Carvalho da Cunha, também reservou para si, pouco mais de uma légua de terras nesta fazenda, onde estava a capela de Nossa Senhora da Conceição. [15] Notas de David Caldas transcritas por Miguel de Sousa Borges Leal Castelo Branco, em seus Apontamentos Biográficos . [16] Também o comprador Manuel Antunes da Fonseca, reservou para si quase duas léguas de terras na mesma fazenda, vendendo para Antônio da Costa de Oliveira, uma porção com pouco mais de légua de comprimento e quase outro tanto de largura, o que comprova a grande extensão da área inicial da referida fazenda.

  • Leia Barras da Saudade e do Marataoã, coletânea de Elmar Carvalho.

    "A velha Rua Grande de Barras do Marataoã Elmar Carvalho Na minha meninice e adolescência, na época das férias escolares, algumas vezes fui passar dias em Barras; eu notava que estava chegando no momento em que o “horário”, do tipo gaiola, começava a descer a curva da ladeira. Logo eu avistava a ponte e a barragem, de margens então muito verdejantes. Às vezes, ao olhar para a direita, eu avistava um ou dois caminhões, que iam buscar areia ou barro para alguma construção. Sentia que a cidade trabalhava, que a cidade progredia. Ao deixar a estrada o ônibus entrava na Rua Leônidas Melo, e parava na agência, no centro da cidade. Algumas vezes eu ia passar dias em Ameixas, uma localidade rural perto da cidade, hóspede de dona Noca e João Cardoso, nossos parentes. Outras vezes ficava na cidade, acolhido por Salomão de Sá Furtado, primo de meu pai. Ele morava na antiga Rua do Fogo, cujo nome fora mudado para Leônidas Melo, em homenagem ao ilustre médico barrense, que governara o Piauí por dez anos. A Rua Marechal Taumaturgo de Azevedo, outrora chamada Rua Grande, lhe fica perto, e lhe segue paralelo até o centro da cidade, quando passa na frente da Prefeitura. Passava na frente da igreja velha e passa por trás da igreja atual, isto porque o vetusto templo católico, demolido, era voltado para o rio e para o poente, ao passo que o novo, construído em seu lugar, tem o frontispício direcionado para o nascente. Taumaturgo fora outro dos vários governadores, que nasceram na Terra dos Governadores, epíteto da velha urbe. Mas Barras não é apenas terra de governadores, mas também de marechais, generais, escritores, artistas e poetas. Poderia citar vários. Mas não o farei. Ficarei adstrito ao meu tema, que é a velha rua." Esse é um trecho de Barras da Saudade e do Marataoã, de Elmar Carvalho, uma coletânea com várias crônicas que o escritor de origem barrense, membro da Academia Piauiense de Letras e de outras instituições, organizou para homenagear a cidade natal de seu pai, Miguel de Carvalho. Leia o restante da crônica e outros textos escritos sobre Barras por Elmar Carvalho CLIQUE AQUI

  • Esta casa é sua!

    Na foto, Fernando Carvalho de Almeida à frente de sua residência e casa comercial, no centro de Barras. Foto do acervo do José Coriolano de Carvalho e Silva, sobrinho de Fernando, cedida gentilmente por Thais Cristina Cavalcanti. E ste projeto surge para dar voz às memórias do cotidiano e à secular história  rica de conquistas e tradições de Barras do Marataoã, município a 122 quilômetros ao Norte de Teresina-PI. Fatos, memórias, biografias, livros, registros visuais e orais, ensaios, artigos acadêmicos, textos didáticos, além das paisagens de todos os tempos e cantos do Município, ganham aqui uma vitrine para ecoarem longe, sob a curadoria de quem vive a cultura como missão. Mas não é um espaço que tem dono: o dono é todos aqueles que possuem interesse no passado deste lugar de belas paisagens e bonitas narrativas de superação e trabalho. Aqui, o registro de mais de 275 anos de existência ganha relatos em texto escrito, imagem, som. Memórias e histórias são ressignificadas por meio da escrita de quem registrou o passado de Barras do Marataoã em anotações escritas ou recordações até hoje vivas na oralidade pela simples permanência na ancestralidade da memória. Recortes de jornais, páginas da história, relatos orais e fotografias de mais de dois séculos e meio se preparam para viver o tempo como se pertencessem ao presente. Aqui, Barras do Marataoã se dá a conhecer ao mundo como patrimônio imaterial de sua paisagem e da história de sua gente. Em sua Terra Natal. Além Fronteiras. Prepare-se, para mensalmente, descobrir e compartilhar desta iniciativa que é sua. De todos que amam Barras do Marataoã com um amor que jamais fenece. Prepare-se para pertencer a Barras do Marataoã de um modo especial: sentir-se integrado a um tempo e a um lugar que é o da permanência da cidade em seu bem-querer. Prepare-se que essa aventura vai começar. Participe dela, com entusiasmo, compartilhando tudo que aqui se hospeda. Também contribuindo para que as novas gerações se sintam protetoras da bela história que Barras edificou em favor da igualdade e da transformação social. Esta página pertence a todas as gentes e a todos os tempos. Entre! A porta está aberta! Esta casa é sua!     Dílson Lages Monteiro, da Academia Piauiense de Letras Curador do Museu Virtual de Barras do Marataoã   .

  • Nascemos!

    Interior da antiga Matriz de Nossa Senhora Conceição, em Barras-PI e imagem parcial da praça Senador Joaquim Pires, de Barras-PI Esta iniciativa é fruto de uma história. Uma história de leitura, pesquisa e pertencimento. Não tem vinculação político-partidária, ou melhor, é de todos os partidos e crenças. Nem vínculo com quaisquer intenção que não seja a divulgação de um dos principais patrimônios de Barras-PI, sua história secular. Nascemos pelo estímulo natural de bem-querer ao lugar de nascença. De onde nunca nos desgrudamos enquanto houver a memória, enquanto a vida pulsar em narrativas. Mesmo, às vezes, distante fisicamente. Nascemos porque, desde sempre, pesquisar e documentar passagens expressivas do cotidiano barrense está em nós. Neste Museu Virtual de Barras do Marataoã, os mais diversos arquivos da memória e da história de Barras de todos os tempos encontram espaço. Fotos, vídeos, livros, áudios e as mais diversas representações que sirvam como suporte para a compreensão do significado social e coletivo de um lugar rico de belezas naturais e exemplos de fé, superação e trabalho pulsam aqui. Nascemos para morar em seu coração. Dílson Lages Monteiro Curador do Museu Virtual de Barras do Marataoã #museuvirtual

  • 210 haicais inspirados na natureza de Barras do Marataoã

    Dílson Lages Monteiro. O haicai chegou ao Brasil com os imigrantes japoneses na segunda década do século XX. De lá até cá, encontrou terreno fértil. Nomes como Guilherme de Almeida, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Millôr Fernandes, para ficar apenas em alguns da tradição escolar, fizeram do gênero uma forma de cultivar o estado zen e renovaram o modo de escrevê-lo. No Piauí, umas duas dezenas de poetas cultivam o haicai com certa regularidade. Inserimo-nos entre eles, na última década, escrevendo regularmente poesia desse matiz. Agora lançamos um novo livro no segmento: Estação Natureza. Nele, a natureza de Barras do Marataoã é toda sensação em poemas como estes: Sobre nossos haicais escreveu o crítico Carlos Evandro Martins Eulálio: “(...) Dilson Lages reúne haicais no estilo tradicional ou clássico, com temática variada: o amor, a solidão, o sentimento da separação, reminiscências da infância, entre outros. Todo o livro é um canto à natureza, focado essencialmente na musicalidade poética. Em suas páginas, o eu lírico celebra o encanto da fauna e da flora piauienses, numa linguagem sensorial e imagística. Árvores, aves, frutas e flores perpassam nos haicais que evocam no leitor uma dada percepção sensória de um instante único e fugaz, conciso e reflexivo.”          Para adquirir,  faça pix de 30,00 reais (frete incluso), por meio da chave de pix dilsonlages@uol.com.br   Clique no QR Code e saiba mais.

  • Dr. José do Rêgo Lages na vida de Barras do Marataoã

    Dr. José do Rêgo Lages, em 1947, por ocasião de sua formatura em Medicina, em Salvador. [Dílson Lages Monteiro*] No século XIX, a vida da extensa comunidade de Barras do Marataoã se confundia com um nome, cuja ações e ideais ultrapassaram o tempo. Seu nome: José Carvalho de Almeida. Comandante da Guarda Nacional na Vila de Barras do Marataoã, faleceu em 16 de julho de 1869, aos 99 anos. Descendem quase todas as antigas famílias desta cidade de sua figura; ele, pai de 16 filhos. José Carvalho de Almeida esteve à frente de muitas conquistas de seu tempo e sua Terra Natal se confundia com sua pessoa. Militar, deputado provincial, presidente da Câmara Municipal de Campo Maior a que então o lugarejo de sua origem pertencia, foi por décadas a mais respeitada liderança de Barras. Muitos dos que escreveram a história do Piauí do século XIX (David Caldas, Miguel de Sousa Borges Leal, Pereira de Alencastre, Pereira da Costa etc.)  registram o papel decisivo dele na vida de Barras do Marataoã, com destaque para sua liderança, estendida para além fronteiras no exercício da atividade militar, e para fatos como a construção da antiga Matriz de Nossa Senhora da Conceição, obra na qual, relatam os historiadores, sacrificara seus haveres. Seu nome ainda permanece – e permanecerá por todos os tempos –  como fundamental ao desenvolvimento social deste lugar. No século passado, José Coriolano de Carvalho e Silva, médico barrense radicado em Marília, São Paulo, escreveu importantes anotações sobre o ilustre barrense intituladas “O último Carvalho de Almeida”. Mais recentemente, numa série de ensaios sobre Os Carvalho de Almeida, grupo familiar pioneiro no processo de povoamento do Norte do Estado, o genealogista Gilberto de Abreu Sodré Carvalho, de raízes nas terras do rio Marataoã, traçou a trajetória edificante do líder que o foi. Ainda hoje, 154 anos após o desparecimento físico, sua presença indelével na construção das feições espaciais e de mentalidades de Barras, é reverenciada, tal qual o faz o historiador Reginaldo Miranda de Silva, que no monumental livro de perfis biográficos Piauienses Notáveis, tomo II, lançado neste ano da graça de 2023, registra o mais bem escrito e detalhado perfil de sua trajetória, com as contribuições para a sociedade de sua época. Esta cidade que viu nascer José Carvalho de Almeida, ainda na década de 1940, reverenciava a notável liderança de Barras no século XIX, tentando evitar que a morte, que também atende pelo nome de esquecimento, ofuscasse injustamente a lembrança de um nome que o Piauí conservava. Promovia Barras, naquele distante 1941, ações para que os esforços do grande líder da edificação deste município em seus primórdios fossem mantidos na memória coletiva. A esse propósito, escreve o jornalista e escritor Afonso Ligório Pires de Carvalho, no clássico estudo memorialístico Terra do Gado: “Em 1941, nas comemorações do centenário do município, as autoridades de então resolveram reparar o injusto esquecimento sobre figura tão importante no período inicial de Barras e proclamaram José Carvalho de Almeida Patrono da Cidade” (2007, 111). Ao longo do século XX, a ação e o pensamento de muitos barrenses incendiaram positivamente a bucólica Barras de tradições seculares. O mesmo ideário de José Carvalho de Almeida é revivido por muitos nomes, mas, especialmente, na segunda metade do século XX, por um nome vivo em cada casa deste município: José do Rêgo Lages. O médico humanitário que fez do exercício de sua atividade profissional uma devoção continuada à sua gente, sem interesses pecuniários, sem nada exigir em troca, que não o bem-estar orgânico, psíquico e social de sua gente. A liderança inquieta, sempre atenta às demandas sociais mais urgentes, para o crescimento da comunidade. O homem de ação e pensamento o tempo inteiro, sonhando em transformar o espaço coletivo para benefício de todos. Em cada casa deste município, sua presença iluminada e recordação vigorosa faz morada, e ecoa entre as gerações de hoje seu nome sonoro: José do Rego Lages. Um homem muito além de seu tempo. Dr. José do Rêgo Lages, formado em medicina, fixou-se definitivamente neste chão, em 1948. Aqui exercendo diuturnamente a medicina por mais de cinco décadas. Até então, outros barrenses haviam conquistado a mesma proeza da exigente formação em médico: José Pires de Oliveira, Mário Teodomiro de Carvalho, José Coriolano de Carvalho e Silva, Leônidas de Castro Melo. Somente dr. José do Rêgo Lages aqui se estabeleceu com ânimo definitivo para exercer o ofício. Ele trazia em sua essência um sentimento de generosidade incomum, facilmente atestado por todos que o conheceram. Aqui se fez médico às 24 horas, disposto a superar quaisquer obstáculos, movido, conforme relatou em discurso, pelo sentimento de gratidão aos esforços de seu pai, o agropecuarista e comerciante Alfredo Pires Lages, que muito se dedicou para vê-lo formado em Medicina. Por dever de justiça, cabe aqui destacar,qui, também se fixaram definitivamente para viver a medicina,  em tempos mais  próximos os médicos Carlos Monte e Airton Andrade. Consta na memória oral que o pai de dr. José Lages, 3º proprietário da lendária fazenda Esperança, onde residia com a mãe viúva Maria da Assumpção Pires Ferreira, diante do cadáver da esposa Rosa Rebello do Rego, morta de parto, com José ao colo, prometera (Alfredo) mover “céu e terra” para tornar aquela criança médico, para que nunca mais padecesse de parto nenhuma mulher na Zona da Mata de Barras do Marataoã. Assim o fez. Aqui fixado como profissional da medicina, conforme relato pessoal em discurso de posse na Academia de Letras do Vale do Longá, enfrentou resistências de toda ordem, inclusive políticas. Porém, o mérito e a dedicação as sobrepujaram e, por concurso público, já era em 1953, médico efetivado na cidade natal. Diz: “(...) não tive dúvidas em continuar na luta, até porque Barras passou a fazer parte de minha vida, começava a amar a cidade, sentimento que até então não me havia sido despertado, embora sendo um de seus filhos”. Não é demais recordar... Começava uma longa e incansável história em favor da existência de serviços públicos de saúde em Barras do Marataoã. Exercer a medicina era também superar um conjunto variado de intempéries. Conta dr. José Lages: “A falta de médicos na região, a grande extensão territorial do município, o sistema rodoviário precário, a escassez de transporte rodoviário levaram-me, muitas vezes, a deslocar-me em costa de animais para atender a doentes em estado grave de saúde”. Acrescente-se a isso, variantes como a inexistência de infraestrutura básica de atendimento. Ele diz: “A falta de instalações físicas para o setor de saúde, de recursos humanos para atividades primárias de saúde, a incidência elevada de patologias endêmicas na região, a prevalência das doenças infectocontagiosas dominantes onde são precárias as condições econômicas da população, os índices elevados de mortalidade”. Acrescenta: “As atividades médicas se caracterizavam pela presença do profissional; os procedimentos médicos, em sua grande maioria, eram executados em ambientes rústicos, somente aceitáveis pelo desejo maior de salvar vidas humanas”. Nada disso encurtou sua ação entusiasmada para salvar vidas e para Barras ter sua casa de saúde: de seu labor contagiante, surgia a Legião Brasileira de Assistência e, em 1956, depois de enérgica luta, o Hospital Leônidas Mello, e integrado à outra conquista de seu fazer, o SESP, que funcionou por mais de uma década sob seu comando, com resultado que colocava a unidade entre os melhores do Nordeste. Desativado o SESP, em 1969, dr. José Lages consegue em 1970, a reabertura do Hospital Leônidas Mello, dirigido por ele até 1986, quando passa a ocupar a direção da Regional da Saúde, que aqui se instalava. Para com mais propriedade discorrer sobre as contribuições únicas de dr. José do Rêgo Lages, nada mais apropriado que ouvir a voz de quem com ele esteve  - direta ou indiretamente - nas trincheiras da melhoria dos indicadores de saúde no município, seus pares médicos. Entre eles, está o professor universitário dr. Aécio Carvalho, médico barrense de bem-sucedida atividade profissional, que muito contribuiu com o Piauí. Assim diz sobre as contribuições e as vivências de dr. José Lages: “Atendendo a todos, sem distinção de classe econômica ou social. Era clínico, pediatra, obstetra sobremodo, fazendo a medicina de urgência que era possível e fundamentalmente como médico da família. A sua competência profissional se expandiu pelos municípios vizinhos de Batalha, Nossa Senhora dos Remédios, Porto, Matias Olímpio, Esperantina e Luzilândia”. Acrescenta: “O Dr José Lages conseguiu através da LBA a construção do posto de Puericultura, que tinha como demanda a criança, mães, gestantes e puérperas. Era feita a distribuição do leite já preparado para suplementar o aleitamento das crianças. Passou a ser um líder na comunidade. Com os demais partícipes da sociedade, fundou Clubes, incentivou o esporte e criou o curso ginasial. Junto com o Pároco, Prefeito, Juiz de Direito e demais membros da sociedade, criou a Fundação Mariana Pires Ferreira que deu origem à Unidade Hospitalar da FSESP e posteriormente ao Hospital Regional Leônidas Melo, que se tornou referência no atendimento a todos os municípios da macrorregião dos Cocais, sediando também o CRUTAC - Centro Rural de Treinamento e Ação Comunitária e de Ensino da Universidade Federal do Piauí.” Onde havia a presença de dr. José Lages existia excelência em servir. Foi assim, conforme ainda dr. Aécio Carvalho, a gestão de dr. Rêgo Lages à frente, por exemplo da Regional de Saúde: “O Dr José Lages tornou a Regional de Saúde de Barras a mais  eficaz do Estado. Cobertura vacinal acima da Meta do Ministério da Saúde, o Programa de Reidratação Oral bem sucedido em todo o Brasil foi motivo de menção honrosa para aquela Diretoria, bem como o projeto de formação de Recursos Humanos para Saúde daquela Regional”. Do pensamento de que dr. José Lages foi único na vida comunitária e de saúde de Barras, desfruta, também, o ginecologista Gisleno Feitosa, que viu em dr. José um exemplo, um mestre, um amigo, um pai e nele procurou referências. Sobre a trajetória de seu mestre, conta: “Numa época de escassos recursos tecnológicos, dr. José Lages praticava uma medicina de alto nível, exclusividade baseada na propedêutica, anamnese apurada e exame clínico minucioso. Era clínico geral, tudo resolvia; porém era na obstetrícia que mais se destacava. Como clínico, chegou a salvar a vida de pacientes que apresentavam sensação de morte iminente, pela presença do edema agudo de pulmão, realizando a sangria terapêutica de urgência, cuja eficácia, naquela época estava em absoluto demonstrado. Fosse a cavalo ou num aguerrido Jeep Willys, atendia a todos os chamados com o mesmo dinamismo e diligência. Como obstetra, chegou a atravessar riachos, com água na cintura, protegendo os instrumentos para a execução dos partos. Realizou partos à luz de velas, candeeiros, lampiões ou faróis de carro, com pacientes deitadas sobre portas de madeiras ou sobre uma esteira de palha no chão de terra batida.” Ressalta: “Como não era praxe a cobrança de honorários, a remuneração frequentemente era feita através de cabeças de animais, que ele não aceitava, compadecido com a situação de penúria da maioria daquelas famílias”. O sentimento de toda a Barras quanto aos feitos de dr. José Lages, enfrentando às gigantes adversidades de seu tempo, acham-se bem resumidas nas palavras do historiador e memorialista Antenor Rêgo Filho, ao discorrer sobre o empenho do médico idealista na luta para Barras ter sua casa de saúde: “ (...) Foi o jovem recém-formado o artífice de toda essa obra, tarefa árdua, luta titânica; somente um destemido, forjado em têmpera forte, chegaria até a reta final erguendo aquele templo da medicina. O hoje Hospital Leônidas Melo, outrora indicativo de uma das melhores medicinas praticadas no Piauí, índice de referência para médicos de outras plagas estagiarem. Lá naquele hospital, que dirigiu até aposentar-se, o inominável esculápio passou noites indormidas, dias assoberbados, muitas vezes solitário, vidas foram salvas, criaturas vindas ao mundo pelas mãos competentes do velho mestre. Há que se perguntar qual de nós, barrenses, tenha dependido um só tostão para pagamento de uma consulta ou atendimento ao devotado profissional! (...) O monumento destinado à saúde que ergueste para todos os barrenses e piauienses será sempre o “Hospital do Dr. José do Rêgo Lages”.   Todas as vezes que Barras do Marataoã reverenciar a memória de Dr. José do Rêgo Lages, reverencia-se também o lugar da generosidade nas relações de sociabilidade, da generosidade que lhe era, antes de um desejo, uma característica natural e, por isso, moralmente estimável. Diz o filósofo moralista André Comte-Sponville que “(...) a generosidade como todas as virtudes, é plural, tanto em seu conteúdo como nos nomes que lhe prestamos ou que servem para designá-la. Somada à coragem, pode ser heroísmo. Somada à justiça, faz-se equidade. Somada à compaixão, torna-se benevolência. Somada à misericórdia, vira indulgência. Mas o seu mais belo nome é seu segredo, que todos conhecem: somada à doçura, ela se chama bondade” (2012:113). Em dr. José do Rêgo Lages, a generosidade, ou como queiram chamar, bondade, se personificava. De tal sorte, que abundam relatos de sua energia benfazeja, sem interesses pessoais, em favor dos conterrâneos, seja no exercício da medicina, seja como cidadão, seja como liderança política. Seu desprendimento e naturalidade de agir com altruísmo, reverbera em palavras como a do comunicador e escritor Chagas Botelho, surgidas ao passar diante do Hospital Lêonidas Mello em viagem à cidade natal. Ele  voltou à sua meninice para contar: “Era uma noite chuvosa. De céu relampejante e trovões ensurdecedores. Mesmo assim, minha mãe, toda jeitosa, me levou ao doutor José Lages que era um servidor pontual. Eu devia ter uns sete para oito anos quando um homem, todo de branco, todo paciente, começou a apertar minha barriga. Deitado, medroso e apreensivo, tremia só de pensar em tomar injeção. Porém, o atencioso doutor José Lages, homem que fazia da profissão o seu sacerdócio, logo acalmava aquele pivete ressabiado. Aliás, ele tinha uma receita infalível para meninos temerosos a médicos: um pirulito pré-consulta e em forma de bengala. Com seu gesto cuidadoso, o doutorzinho apaixonado pelo ofício de atender bem, pôde, enfim, examinar calmo e sereno o meu desarranjo estomacal. Ele constatou que o motivo das dores atrozes e recalcitrantes (...). Prescreveu uma medicação simples, no entanto, providencial e a entregou à minha mãe. Ela agradeceu aliviada ao médico franzino que usava óculos de lentes côncavas e de mãos que demonstravam vasta experiência”. Prossegue: “Ao final do atendimento, como ainda chovia a cântaros, o doutor de voz mansa, voz acolhedora, nos ofereceu carona em seu Chevette branco e de modelo tubarão. Quase não acreditei que voltaria para casa de carro, e no carro do doutor da cidade. Sentado no colo de minha mãe, eu me lembro que passava os dedos perscrutadores pelo banco aveludado e o acariciava como quem acaricia um bichano de estimação. Ou como quem está encantado com um brinquedo novo. Essa doce lembrança me deixou por demais emocionado. (...) Se tivesse chorado, não teria sido por medo de injeção, e sim por saudade do médico amigo do povo. Antes do veículo em que passeava dobrar a esquina, antes da fachada do hospital Leônidas Melo desaparecer, imaginariamente, vi o doutor José Lages me dar tchauzinho”. Para finalizar, recorremos as palavras cirúrgicas e uníssonas de dr.  Manoel Monte Filho e dr. Delson Castello Branco, membros da Alval e profissionais de sucesso. Dele disse, prof. Monte Filho: “José Lages foi uma das maiores lideranças de todos os tempos. Ele nunca teve apego pessoal para ser cabeça na política. Gostava de sugerir, porque estava muito ligado à saúde. Ele teve uma visão muito além dele. Teve tanto poder, tanta influência, mas optou por não ser deputado estadual, federal, porque a paixão dele era o hospital, onde vivia como se fosse a própria casa. Nasceu para ser cidadão; um cidadão que honra a todos nós”. Dele disse dr. Delson Castello Branco: “José Lages foi um raro exemplo de fidelidade à disciplina de Hipócrates, o pai da medicina: aliviar a todos, curar quando possível e consolar sempre. Foi um exemplo de humanitarismo, cumpria nosso difícil ritual: via no paciente o que ele buscava em nós. Tinha um ar supremo de bondade e paciência para todos que o procuravam. Nunca quis sair de Barras, aqui nasceu e aqui morreu deixando nesta terra o seu dever de médico e a sua conduta de cidadão”. Viva a memória viva de Dr. José do Rêgo Lages! *Dílson Lages Monteiro, curador do Museu de Barras do Marataoã, é titular da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras e da cadeira 30 da Academia de Letras do Vale do Longá. Autor de 20 livros, sendo o mais conhecido deles O morro da casa-grande, que tem como tema central a preservação do patrimônio imaterial de Barras do Marataoã, sua cidade natal.

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