A. Tito Filho: João Adélia, o músico, em 3 crônicas antológicas.
- dilsonlages
- 9 de mai.
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A. Tito Filho
JOÃO ADÉLIA
Fevereiro do ano passado estive em Barras para as solenidades e as festas comemorativas do primeiro centenário de vinda ao mundo de velho e bondoso amigo de minha família, João carvalho, como eu nascido em Barras, pedaço de terra piauiense de muitas bonanças. Houve lançamento de delicioso livro de estórias, de cenários e tipos barrenses, escrito por um dos filhos do homenageado. Episódio no clube recreativo, gente fina, discursos bonitos, coquetel, danças. Festa boa de reviver. Animação constante pela banda de música municipal. Procurei por João Adélia, o herói do contrabaixo de quantos peraltas tiveram infância na cidadezinha tranqüila, de gostosos peixes do rio Maratoan. Trouxeram-me o tocador, morenão, dentes alvos, magro, andava já em maré de magrém, doente, desanimado. Não bebia mais a boa pinga e estava separado do seu querido bombardão de tantas lembranças de tempos antigos, nos forrós poeirentos, nos bailes familiares do sobrado da Prefeitura, dos festejos religiosos, das solenidades cívicas, das recepções de gente importante nas visitas à cidade de povo humilde. Não era possível João Adélia sem o instrumento de sopro. Corpo e alma os dois, inseparáveis. Carne e músculos. Irmãos siameses quase.
À mesa de honra, na festa, onde me encontrava, sentou-se o amigo desde os instantes de ouro da infância ele já nos oitenta de idade. A imagem do bombardão do seu músico habilidoso fixou-se no meu subconsciente. Pelo anos adiante, nunca pude ver e ouvir contrabaixo que não enxergasse, com o instrumento metido pela cabeça e repousado no ombro largo, dedos direitos nas teclas provocantes das sonoridades mais altas e bem surdas, o João Adélia, olhos avermelhados de fogosa pinga, animando a minha infância.
Conversei muito com ele o ano passado. Dei-lhe boa ajudazinha. O negro velho andou perto de chorar. De mim, chorei muito com o coração, nas lembranças do menino ao lado de João Adélia, no rumo da igreja, a banda a alegrar as tardes da minha terra.
João Adélia morreu. Barras perdeu um pedaço das cousas boas do seu passado. Perdeu o músico que alegrou moças e rapazes mais de meio século. Barras ficou mais pobre. Foi-se o seu grande poeta do bombardão inimitável.
A. Tito Filho, 27/05/1989, Jornal O Dia
JOÃO ADÉLIA - II
A banda de música de Barras, nos meus tempos de menino, tinha João Adélia no sopro do bombardão. Ainda jovem ele dominava o instrumento com pericia e arte. Era de ver e de aplaudir o músico estimado soprando no bocal do aparelho metálico também chamado de contrabaixo por cuja boca enorme saía o som grosso, abafado, de roncos curtos e intercalados. Os artistas humildes formavam em coluna por três e João Adélia na frente, olhos avermelhados de boa pinga derramada pelo gogó, antes das tocatas. Dias de novenas, no tempo dos festejos em honra de Nossa Senhora da Conceição, os integrantes da orquestra simples e modesta vestiam o fardamento bonito e bem lavada e passado na goma, para que ficassem durinho nas pernas dos homens. Cedo ainda, estavam no templo católico enfeitado e no adro se assentavam em bancos toscos de madeira. De vez em quando, executavam composições alegres, cercados os molecotes embevecidos com a sapiência dos seus ídolos caboclos. Iniciada a reza pelo vigário, fazia-se silêncio. Os músicos então praticavam o processo de esvaziar os instrumentos de sopro do cuspe acumulado no interior.
Igreja cheia de gente alta e de matutos vindos de lugares próximos e distantes. Novenas de muita reza. Na hora da apresentação do Santíssimo Sacramento, antecedida das campanhas que mandavam ajoelhar, os músicos, de pé, executavam um dobrado entusiástico. No final, a bênção dos fiéis. Primeiro, padre Uchoa, joelhos no chão, com o rebanho, recitava a oração invocativa do Onipotente, assim:
Deus e Senhor Nosso, protegei a nossa Igreja, dai-lhe santos pastores e dignos ministros.
Era magnífico.
Minhas estradas me levaram a outros mundos. Teresina, Fortaleza, Rio. Nunca mais revi João Adélia. As férias estudantis de fim de ano eu as gozava no velho Marruás, depois Porto. Antes tomou o nome de João Pessoa, uma comunidade de boas almas que possuíam banda de música própria chefiada pelo maestro competente na música e na cachaça, um dos povoadores de minha mocidade, o João Burundunga.
Só em 1947 eu teria um encontro com João Adélia, na mesma dócil e afetiva Barras nos dias que não voltam mais.
A. Tito Filho, 23/05/1989, Jornal O Dia
JOÃO ADÉLIA - I
Menino de calças curtas, na minha cidadezinha de Barras, eu muito me divertia nas festas da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, que se encerrava no dia 08 de dezembro de cada ano. Eram nove dias de novenas, celebradas pelo padre Uchoa, sacerdote de muitos amigos e que fazia os novenários em várias cidades do interior. No tempo dos festejos, muita gente. Depois das rezas na igreja, havia os animados leilões, com jóias oferecidas e arrematadas pelos fiéis em louvor da santa.
A gente gostava dessa época, principalmente a meninada travessa do meu tope. Pelas cinco da tarde, já eu estava banhado e de fatiota bonita, e me dirigia ao largo da matriz. Comprava rebuçadas que as fazedoras da guloseima faziam em casa e mandavam vender embrulhados em papel de seda. Eram dez balas gostosas numa tira só e cada qual separada da outra pelo embrulho torcido. Custava um tostão ou cem réis, como se denominava a mais humilde moeda metálica brasileira nesses recuados anos a da minha infância.
A grande animação dos festejos estava, porém, na banda de música. Pouco mais das cinco da tarde o bombo chamava os músicos. Fazia-se pequeno ensaio, um por experimentando os instrumentos do seu mister. Assim rumavam para a igreja, pois a novena se iniciava às sete horas. A garotada acompanhava a banda, com entusiasmo, admirando os tocadores mágicos que executavam músicas tão bonitas. Lembro-me de Simplício Paquinha, magro, esguio, tocador de PIFE, denominação popular desse instrumento soprado por uns buraquinhos. Não sei se a memória me trai, mas acho que da banda fazia parte o Paulino, negro novo, batedor de pratos. Tinha um defeito: umbigo se mostrava direitinho como se fosse um pequi, grandão, imenso.
Minha impressão maior vinha de João Adélia, o meu herói do bombardão, instrumento de boca enorme e sons baixos como roncos surdos e abafados.
João Adélia ainda hoje povoa as lembranças que guardei de Barras, cidadezinha do meu nascimento, pequena, de uma comprida rua, o largo da matriz, e uns becos feios, como o da Tripa.
Adélia é outra história.
A. Tito Filho, 20/05/1989, Jornal O Dia
Crônicas coligidas pelo historiador Jordan Bruno, para o Acervo A. Tito Filho, blog que reúne toda a produção em crônica do "Cronista da Cidade Amada".https://acervoatitofilho6.blogspot.com/
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